França reverencia obras do artista
Gilles Lapouge*
A
França gosta muito dele. Ela o considera um dos gigantes da arquitetura mundial
e foi em Paris que ele se instalou para fugir da ditadura dos generais, em 1967.
Ele projetou obras imponentes no país, em particular a sede do Partido Comunista
Francês (PCF), em 1980, um edifício que parece uma "cidadela proibida" e que é
revestido por uma cúpula extravagante envolvendo a antiga sala do Comitê Central
do PCF.
Na mesma época, projetou a Universidade de
Constantine, na Argélia, depois a Casa de Cultura da França, no Havre.
Em Paris, ele era festejado, primeiro por ser
brasileiro, depois por ter fugido de uma ditadura por ser comunista, e, por fim,
porque exercia sobre todos uma sedução que, segundo dizem, era uma de suas
especialidades. Ele frequentava tanto os Malraux ou os Jean-Paul Sartre e
Saint-Germain-des-Près como os bistrôs e mercados de bairro.
Niemeyer cativava os jornalistas com sua verve
e sua generosidade, com sua bela cabeça de aristocrata de testa alta. Entre
estes, Edouard Bailby, que escreveu em 1933 um Niemeyer par Lui-Lême
("Niemeyer por Ele Mesmo"), e Henri Raillard, que esteve na origem de um
livro muito bonito de Niemeyer, Les Courbes du Temps (no Brasil, As
Curvas do Tempo, Memórias).
O título desse livro foi bem escolhido:
discípulo fascinado por Le Corbusier, Niemeyer mais tarde se afastou de seu
mestre por certas razões e sem dúvida porque seus sonhos eram o oposto dos
sonhos a um só tempo "suíços", matemáticos, quadrangulares e "cartesianos" de Le
Corbusier. O livro As Curvas do Tempo é um cântico à glória da linha
curva. À glória da areia, das ondas do mar, das nuvens e do vento, das praias do
Brasil. E, antes de tudo, à glória do corpo feminino, grande façanha da parte de
um homem que, junto com Lúcio Costa, construiu em três anos uma capital de
concreto e vidro, aliás suntuosa.
"Niemeyer não é redutível ao rígido espartilho
de um estilo ou de uma escola", escreveu ontem Frédéric Edelman no jornal Le
Monde. "Como esse carioca sensual e caloroso, apesar de sua soberba - tudo
o opõe, quanto a isso, de seu ídolo suíço -, conseguiria dispensar as curvas e
sua liberdade? Essas curvas que ele associava sempre a sua paixão pelo corpo
feminino ("corpo violão"), um de seus dois temas prediletos, junto com a
arquitetura."
No mesmo número do Le Monde, revelemos ainda o
título de um magnífico artigo vizinho: Longe das teorias, as curvas livres,
elegantes e desenvoltas do gênio.
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Jornalista e escritor francês.
/
TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
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