domingo, 17 de dezembro de 2017



                A história torcida


Como se não bastasse a violência que degrada a cidade do Rio de Janeiro, temos agora a vergonha que se instalou nos estádios de futebol, com a briga das torcidas que muitas vezes deixa vítimas irrecuperáveis. Para um ancião como eu, lembro sempre o silêncio dramático da multidão em 1950, na final da Copa do Mundo vencida pelo Uruguai.

Duzentos mil torcedores, muitos dos quais choravam abertamente. Não se registrou nenhum incidente violento, nem mesmo a vaia contra os vencedores, que foram aplaudidos com moderação e respeito.

Agora, até mesmo os jovens sem nenhum motivo, torcedores de ambos os lados, promovem uma batalha campal na qual há feridos, alguns com gravidade. A culpa, segundo os entendidos, é atribuída às torcidas organizadas, que além de torcerem pelos seus times, fazem questão de agredir violentamente os torcedores do clube adversário.

Pessoalmente, não tenho condições nem direito para propor uma solução para o caso. Lembro o exemplo de Tito, que ia frequentemente assistir às lutas dos leões contra os cristãos. Apesar da grandeza, o Coliseu muitas vezes era insuficiente para abrigar os torcedores dos cristãos ou dos leões.

Não tendo recurso para aumentar o Coliseu –que já no seu tempo era um monumento famoso na história do mundo– num rasgo de loucura, Tito aumentou o preço dos ingressos, de tal maneira que o estádio continuava comportando milhares de assistentes.


Não posso insinuar um aumento nos ingressos. O mesmo aconteceu com as óperas, que se abarrotavam para ouvir Puccini, Verdi, Wagner e outros monstros da cena lírica. A solução foi construir palácios que amedrontavam a plebe ignara, palácios como a Ópera de Paris, Covent Garden, e até mesmo o Theatro Municipal do Rio. 


Por que os neurocientistas caíram de amores pelo budismo?



Ao que parece, está pintando um lindo caso de amor entre a neurociência do século 21 e o budismo –ou, no mínimo, a consolidação do interesse dos que estudam o cérebro por várias das práticas e diretrizes dessa religião milenar.
O curioso é que, muitas vezes, o namoro tem partido de gente da qual não esperaríamos nenhuma simpatia por tradições religiosas. É o caso do americano Sam Harris, um dos chamados "Quatro Cavaleiros do Neoateísmo" (ao lado de figurões como o biólogo Richard Dawkins e o saudoso polemista Christopher Hitchens).

Na década passada, Harris publicou "The End of Faith" ("O Fim da Fé" –só para deixar 100% clara a posição do sujeito sobre o tema, caso você ainda tivesse alguma dúvida), o primeiro de seus libelos antirreligiosos. Dez anos depois, porém, Harris lançou "Despertar: Um Guia Para a Espiritualidade Sem Religião", no qual basicamente argumenta que a "metodologia experimental" budista –vale dizer, as técnicas de meditação testadas e aprovadas ao longo de séculos–, bem como muitos dos insights dessa tradição asiática sobre a natureza da mente, batem com os achados da neurociência. (O próprio título do livro é uma referência à etimologia da palavra buddha, algo como "o desperto" em sânscrito.)

Dá para ampliar a lista com "Why Buddhism is True" ("Por que o Budismo É Verdadeiro"), do divulgador de ciência americano Robert Wright, ou com "A Ciência da Meditação", dos psicólogos americanos Daniel Goleman (o escritor responsável por popularizar o conceito de "inteligência emocional") e Richard Davidson, livro que já resenhei nas páginas desta Folha - ambas as obras saíram neste ano. Do outro lado da cerca, o Dalai Lama já virou figurinha fácil em congressos internacionais de neurociência. Como explicar essa confluência inaudita?

Com cerca de 2.500 anos de idade e uma história tão complicada quanto a das outras grandes religiões globais, o budismo não se sujeita com facilidade a um retrato unificado ou simples. Mesmo assim, é possível esboçar alguns elementos centrais que têm permitido certa sincronia com as ciências do cérebro e do comportamento humano.


A primeira é que, ao menos em tese, budistas não são teístas, ou seja, não adoram a deuses, nem mesmo precisam ter posição definida sobre a existência ou inexistência de entidades divinas. Esse ponto parece seduzir cientistas não apenas porque muitos deles abandonaram o teísmo ocidental típico (judaico-cristão), mas também porque o não teísmo budista tende a se voltar para os estados mentais internos do praticante –e não para entidades sobrenaturais cuja presença é virtualmente impossível de provar (ou desprovar). 


O debate da política fiscal

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Jair Bolsonaro

Bolsonaro se veste de liberal e seus eleitores mantêm apoio (quase) incondicional

Pré-candidato procura simpatias no mercado e quem promete votar nele aprova guinada.

"Querem o pacote Bolsonaro, não o que ele pensa sobre economia", avalia analista


Jair Bolsonaro
O deputado federal Jair Bolsonaro, pré-candidato em 2018. DIVULGAÇÃO
Jair Bolsonaro, ainda sem partido para se candidatar à Presidência, anda paquerando o mercado. Sua viagem aos Estados Unidos em outubro foi um balão de ensaio para testar a acolhida de suas novas e desconhecidas teses econômicas. Durante a turnê, Bolsonaro criticou a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e elogiou o modelo americano que não contempla benefícios como férias ou licença maternidade. Defendeu também a extinção e privatização de estatais, inclusive da Petrobras. Já no Brasil, e amparado por assessores econômicos, o discurso se ampliou para incluir a independência do Banco Central, abrir o Brasil ao comércio internacional, mas com restrições à China, e a redução de impostos e da intervenção estatal.
Até para seus assessores, Bolsonaro estava demorando em mergulhar na pauta econômica. Hoje, aparentemente decidido a abraçar o liberalismo, suas propostas causaram estranheza pelo contraste com seu histórico em mais de duas décadas de atividade política. O Bolsonaro de hoje anuncia um "namoro hétero" com o economista Paulo Guedes, considerado um dos mais liberais economistas brasileiros, e diz que poderia ser seu ministro da Fazenda. Mas o Bolsonaro do ontem foi contra medidas de austeridade fiscal e restrição de benefícios trabalhistas durante os mandatos de Dilma Rousseff. Também chegou a defender o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso por privatizar a Vale do Rio Doce e “entregar nossas reservas petrolíferas para o capital externo”.
Um levantamento da Folha de S. Paulo revelou que dos 166 projetos de lei que o deputado propôs na Câmara dos Deputados entre 1991 e 2017, apenas 15 tratavam sobre economia, demonstrando uma visão mais intervencionista do que liberal. Segundo a pesquisa, Bolsonaro, entre 1999 e 2010, concordou com o PT em votações de projetos sobre concessões de benefícios para o setor privado, como incentivos tributários, parcelamento de créditos e subvenções. Na década de 90, como divulgou O Globo, Bolsonaro votou e militou contra o Plano Real, contra a quebra dos monopólios do petróleo e das telecomunicações e contra a reforma da Previdência, que buscava dar racionalidade às contas públicas.
A virada liberal do deputado busca apoio no mercado, nos investidores e nos agentes econômicos que veem mais do que incertezas num candidato de posições radicais, mas que avança nas pesquisas para 2018 em segundo posição –com 17% das intenções de voto– na última pesquisa Datafolha. Poderia se pensar que parte dos seus eleitores, a maioria assalariada, entre os quais há também muitos militares e 60% de jovens menores de 34 anos, não vissem com bons olhos a nova face liberal do candidato. Mas não. “Eles são eleitores muito convictos. Mais ou menos como os eleitores de Lula no Nordeste. Eles adotaram o candidato como se fosse uma religião”, avalia o diretor do Datafolha, Mauro Paulino.
“Nós somos conservadores nas costumes e liberais na economia”, explica o oficial reformado Pedro Werneck, de 70 anos, que sustenta ser um equívoco achar que há um pensamento nacionalista homogêneo entre os militares. “Tem um grupo que acha que o Governo deve ser mais intervencionista, outro grupo menor acredita que o Governo tem que mandar na economia e, depois, estamos os que somos a favor de medidas mais liberais, como a privatização das empresas estatais”, diz. Ele fala no plural, em referência ao grupo de cerca de 300 membros que representa, o Fênix Brasil. “Nós não somos contra a privatização da Petrobras, se bem a gente não vai lutar por ela. Acredito que você não precisa ter uma estatal para extrair ou distribuir o petróleo, sempre que o Governo controle a fonte”.
O militar Werneck, crítico com o Governo Temer pelos casos de corrupção, mas defensor das suas reformas, é também administrador de empresas agropecuárias. Ele, assim como seu candidato, cobra maior segurança no campo. “Pode ter certeza de que a penetração de Bolsonaro no mundo rural é até maior que nas zonas urbanas, mas isso não sai nas pesquisas”, alerta. Werneck também é favorável à reforma trabalhista. “Só não pode acabar com aqueles pontos que estão na Constituição, como o décimo terceiro, as férias, o fundo de garantia, a licença maternidade ou auxilio desemprego. Mas não existe dúvida de que nós temos que fazer uma reformulação na CLT, é da década de 1940”, argumenta.
Numa reunião recente com deputados do setor agropecuário, Bolsonaro, no entanto, desapontou. Após prometer que distribuiria fuzis para os fazendeiros se protegerem dos "invasores" em referência ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), alguns deputados qualificaram o pré-candidato como “genérico” e “inconsistente", conforme divulgou o EstadãoEssa campanha está nascendo como uma guerra de marketing. Estão mais preocupados em dar declarações que comovam a opinião pública do que fazer análises profundas”, disse o deputado Domingos Sávio (PSDB-MG). “Às vezes somos estigmatizados. O setor agropecuário não pode e não tem o egocentrismo de pensar o Brasil só sob o olhar do campo e da produção. Olhamos questões como saúde, educação e segurança.”

"Ele é o único que não faria mais do mesmo”

Da periferia do Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense, Gléiser de Souza, eletricista desempregado de 26 anos, concorda em flexibilizar o mercado de trabalho. “Sou contra o fim da CLT, porém sou a favor de que se enxugue. E não só a CLT, também os impostos associados para contratar um funcionário que acaba prejudicando a contratação”, defende, em uma aproximação do discurso do pré-candidato que costuma pregar: “Hoje em dia é muito difícil ser patrão no nosso país”. Bolsonaro já se gabou de ser o único deputado a votar contra a ampliação de direitos trabalhistas das empregadas domésticas, profissão da mãe de Gléiser. “Não é porque eu sou eleitor dele que eu vou concordar com tudo. Mas não cogito votar em nenhum outro. Ele é o único que não faria mais do mesmo”, diz.
Souza, jovem negro criado em Nilópolis apenas pela mãe, também é contra programas de distribuição de renda. “O Bolsa Família no Brasil foi usado pelos 13 anos do PT como barganha para os mais pobres. Não foi usado como um projeto social. Foi construído como uma boa ideia mas foi deturpado na implementação, tem muita fraude e não é fiscalizado”, critica. O que Bolsonaro deve fazer com o mais polêmico programa social do Brasil ainda é incerto. Mas Abraham Weintraub, um dos assesores que orienta o pré-candidato em matéria econômica defende o benefício: "Não vamos extinguir nada. Bolsa Família é um programa liberal baseado em propostas de Milton Freidman. Estamos 100% alinhados com o Bolsa Família. Porém, o maior programa social que existe, reconhecido em qualquer país do mundo, é crescer e gerar empregos".
Para Danilo Cersosimo, diretor de Public Affairs do instituto de pesquisa Ipsos, não surpreende que os eleitores de Bolsonaro abracem essa pauta liberal. “Quando olhamos para dados de aprovação, as pessoas que aprovam Bolsonaro não o aprovam mais ou menos, o apoio é total. Ou seja, qualquer coisa que ele disser e pregar vai contar com apoio. Ele já atingiu um status, e as pessoas querem o pacote Bolsonaro, não o que ele pensa sobre economia. O mesmo se aplicaria para Lula. São figuras que contam com um apoio quase incondicional”, afirma Cersosimo.
Em Goiânia, Thiago Borges, engenheiro de sistemas de 36 anos, acredita que as intenções de Bolsonaro são muito melhores do que as de qualquer outro candidato. Ele é favor da reforma da Previdência, mas não nos termos de Temer, cuja proposta teria como objetivo "saquear" e não atualizar o sistema. "Se a expectativa de vida do brasileiro aumentou é natural que se mexa na Previdência. Mas fixar em 65 anos? É um crime. Tem lugar no Brasil onde a expectativa de vida é de menos de 60 para os homens. A vida em Roraima é muito diferente de Rio Grande do Sul", adverte. "E aí vem outra proposta em que Bolsonaro acerta. Ele é a favor de cada Estado poder ter suas leis, assim como acontece nos EUA. Um país continental como o Brasil não pode ter só uma legislação". 

Crise e corrupção, o diagnóstico da crise

Para simpatizantes de Bolsonaro, o diagnóstico da situação do país passa pelo binômio corrupção-segurança. No caso dos eleitores do deputado, as propostas de privatização, por exemplo, são vistas como uma vacina não tanto contra o a crise econômica, como contra os políticos corruptos. “Não seria contra a privatização da Petrobras. Sei que por um lado a base da pirâmide iria sofrer, pois os trabalhadores perderiam benefícios, mas não existe uma forma de fazer as coisas melhorarem sem que alguém sofra”, avalia um soldado da Polícia Militar do Rio sob anonimato. “Hoje a Petrobras, nas mãos de corruptos, tornou-se cabide de emprego dos poderosos, contratos firmados às escuras em troca de apoio político. É uma sangria infinita de recursos”.
Este entendimento pode ser percebido nas pesquisas. No Brasil, segundo Datafolha, o principal problema para todos os grupos de eleitores é a saúde (24%). Em segundo lugar empatam desemprego e corrupção com 18%, mas entre os anti-Lula, que votam preponderantemente em Bolsonaro, a corrupção preocupa ao 20% dos eleitores, dois pontos acima da média. Vê-se essa diferença também no quesito segurança: 10% do total dos eleitores mostra preocupação por esse assunto, mas no grupo anti-Lula essa preocupação atinge 13% dos entrevistados.
“O eleitor está preocupado em ver quem vai resolver ou atrapalhar menos na resolução dos problemas. Os anti-Lula, como estão mais preocupados com corrupção e segurança, acabam pendendo mais ao Bolsonaro”, avalia Paulino que acredita que a candidatura do ex-militar perderá fôlego. “Nesse momento da corrida, vale mais a marca que o candidato conseguiu estabelecer do que as propostas. Será depois, durante os debates e o horário eleitoral, que serão expostas as contradições”.

Julgamento de Lula, a primeira data crucial da eleição presidencial de 2018

Tribunal de segunda instância marca para 24 de janeiro a revisão da condenação do petista por Moro

Índice Ibovespa dispara nos últjulgamento lula trípleximos minutos do pregão e fecha em alta de 1,39%



A corrida presidencial de 2018 pode sofrer uma baixa relevante logo no início do próximo ano. O Tribunal Regional Eleitoral da 4ª Região (TRF4), de Porto Alegre, marcou para o dia 24 de janeiro o julgamento dos recursos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado pelo juiz Sérgio Moro pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Caso o tribunal da segunda instância confirme a condenação, Lula, que lidera todas as pesquisas de intenção de voto e roda o país em campanha informal, ficaria inelegível, de acordo com as regras da Lei da Ficha Limpa.
Em caso de condenação, a defesa do ex-presidente ainda poderá apelar ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e ao Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar garantir o direito de concorrer em 2018 e suspender os efeitos da Ficha Limpa. A iminência do julgamento de Lula pela segunda instância fez surgir uma série de teorias sobre possibilidades de continuar sua candidatura mesmo diante de novos revezes judiciais. Debate jurídico à parte, os efeitos da possível saída de Lula do páreo já foram sentidos nesta terça-feira. O mero agendamento do julgamento fez o índice Ibovespa disparar nos últimos minutos de pregão e fechar em alta de 1,39%.
O histórico do TRF4 não é muito animador para o ex-presidente. Os desembargadores Leandro Paulsen, Victor Luiz dos Santos Laus e João Pedro Gebran Neto confirmaram 54% das decisões de Moro na Operação Lava Jato. Das 48 sentenças proferidas pelo juiz de Curitiba, 10 foram mantidas pelos magistrados de Porto Alegre. Eles aumentaram as penas estabelecidas por Moro em 16 ocasiões, diminuíram em outras oito e reverteram condenações para absolvições apenas cinco vezes.
O caso em questão, que trata do tríplex do Guarujá, é ainda mais problemático para Lula. Os desembargadores de Porto Alegre não acataram nenhum dos pedidos da defesa do petista no processo até agora — entre eles esteve a tentativa de afastamento de Moro dos casos protagonizados pelo ex-presidente, sob a alegação de falta de isenção.
Outra reclamação da defesa do petista diz respeito ao rápido tempo de tramitação de seu processo. "Até agora existia uma discussão sobre uma condenação imposta ao ex-Presidente Lula em primeira instância sem qualquer prova de sua culpa e desprezando as provas que fizemos da sua inocência. Agora temos que debater o caso também sob a perspectiva da violação da isonomia de tratamento, que é uma garantia fundamental de qualquer cidadão", reclamou em nota o advogado de Lula, Cristiano Zanin Martins.
Segundo o advogado do ex-presidente, a defesa espera que "a explicação para essa tramitação recorde seja a facilidade de constatar a nulidade do processo e a inocência de Lula". "Estamos aguardando os dados que pedimos à Presidência do Tribunal sobre a ordem cronológica dos recursos em tramitação. Esperamos obter essas informações com a mesma rapidez a fim de que possamos definir os próximos passos", finaliza a nota.
Caso não possa disputar a eleição, Lula deve tentar estender seu prestígio eleitoral a outro candidato, como o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad ou o ex-governador da Bahia Jaques Wagner. Mesmo essa alternativa dependerá, contudo, da decisão do TRF4. Se a pena for mantida, o ex-presidente pode ter de começar a cumprir sua pena de 9 anos e seis meses de prisão.
CPMI da JBS
Moreira Franco, Temer e Padilha.  EFE

Chegou ao fim nesta quinta-feira a CPMI da JBS. Uma comissão parlamentar mista de inquérito criada para constranger os principais investigadores da cúpula política do Brasil e retirar o foco das investigações da Lava Jato contra uma série de autoridades públicas, como o presidente Michel Temer e dois de seus ministros, Moreira Franco e Eliseu Padilha.

O relatório, que inicialmente pedia o indiciamento do ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e de seu antigo chefe de gabinete, Eduardo Pelella, acabou dando um passo atrás, mas, ainda assim, colocou os procuradores contra a parede. Elaborado pelo peemedebista Carlos Marun – um deputado da tropa de choque do ex-deputado Eduardo Cunha e de Temer – o relatório pediu que o Conselho Superior do Ministério Público investigasse Janot e Pelella. O relator admitiu que faltou materialidade de provas contra os procuradores. “Não fiz apenas uma análise jurídica, mas também comportamental. Em mantendo o indiciamento reconhecendo a materialidade, talvez estivesse cometendo o mesmo erro que foi cometido pelo senhor Janot e pelo senhor Pelella: o açodamento”.
Apesar de a delação da JBS ter revelado o pagamento irregular de 600 milhões de reais a representantes de 28 partidos e de ter citado nominalmente 1.829 políticos que foram eleitos nos últimos anos, nenhum deles aparece como possível responsável pelo recebimento de recursos ilícitos ou de ter cometido qualquer crime. O espírito de corpo, mais uma vez, prevaleceu no relatório de Marun. Além de Temer, Moreira e Padilha, foram poupados no relatório final, apesar de constarem da delação da JBS, nomes como: os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff (PT), os senadores Aécio Neves(PSDB-MG) e José Serra (PSDB-SP), os governadores Fernando Pimentel (PT-MG) e Reinaldo Azambuja (PSDB-MS), o ex-governador André Puccinelli (PMDB-MS), o deputado Zeca do PT (MS) e o ex-deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Rocha Loures (PMDB-PR) e Geddel Vieira (PMDB-BA).
O documento seria votado nesta quarta-feira, porém, com a sessão do Congresso Nacional, os trabalhos foram adiados para a quinta. Na sexta-feira, Marun deverá ser empossado na Secretaria de Governo, o ministério responsável pela articulação do Planalto com o Legislativo. A ascensão de Marun é uma espécie de promoção para um defensor que atuou com tanto afinco a favor de Temer. A mudança de seu relatório final foi também uma tentativa de não fechar portas com alguns deputados que poderiam votar junto com Temer no Congresso.
O fim da CPMI causou desconforto entre representantes da base governista. “Várias pessoas importantes que deveriam ser investigadas não foram ouvidas. As que aqui vieram ficaram caladas”, afirmou o deputado Fernando Francischini (SD-PR), um dos sub-relatores da CPMI. Entre os que se negaram a se manifestar em seus depoimentos estão os irmãos Wesley e Joesley Batista, ex-controladores da JBS. Convidado para depor, Rodrigo Janot recusou o convite.
No relatório, votado nesta quinta com quórum baixo, Marun pede que os órgãos de fiscalização indiciem os envolvidos direta ou indiretamente na delação da JBS. São eles: Os irmãos Batista, o ex-procurador Marcelo Miller (suspeito de intermediar o acordo de delação da JBS), e dos ex-diretores da empresa Ricardo Saud e Francisco de Assis e Silva, o advogado Willer Tomaz e o procurador Ângelo Goulart Vilela. As acusações feitas pela Comissão têm como base o depoimento do ex-executivo da Odebrecht Rodrigo Tacla Durán, que prestou depoimento à distância aos integrantes da CPMI.
A primeira reação ao relatório foi do senador oposicionista Randolfe Rodrigues(REDE-AP), que recentemente trocou ofensas com Marun na CPMI, quando o chamou de “lambe-botas” de Temer. Como resposta, o deputado chamou o senador de “vira-lata da banda podre do Ministério Público”. Randolfe informou que recorrerá ao STF para evitar a “tentativa de intimidação” aos procuradores. “O desfecho da CPI foi absolutamente previsível: fez vista grossa aos negócios sujos dos irmãos Batista, que envolvem membros do governo anterior e do atual, e se dedicou a inverter a relação entre acusados e acusadores, enxovalhando de modo oportunista o instituto da delação premiada e pondo a Lava-Jato no banco dos réus”.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017


FÁBIO PRIKLADNICKI

                A NOVA REALIDADE PARALELA



Quando começou a esquentar o debate sobre notícias falsas na internet, havia certa percepção de que o problema poderia ser resolvido com um esforço de veículos de imprensa e sites especializados em checagem de fatos para ajudar o leitor a distinguir o que é verdade ou não. Esse esforço ganha ainda mais relevância porque nem sempre a notícia falsa é plantada por um site ou blog obscuro: muitas vezes, é um político que tenta inflar seus feitos com dados enganosos.

Mas a questão sobre verdade e mentira na internet é muito mais grave do que a já preocupante questão das fake news. Uma série de reportagens da BBC revelou que a enganação atinge até mesmo a arena que os cidadãos costumam confiar, como o debate nas redes sociais. A apuração encontrou indícios de que perfis falsos podem ter sido contratados para tentar influenciar a opinião pública a favor de determinados políticos e, claro, ganhar votos.

É uma situação que pessoas familiarizadas com a tecnologia já suspeitavam, mas agora as evidências começam a aparecer. Costumávamos pensar que, no futuro, lutaríamos contra robôs descontrolados que se voltariam contra a humanidade, mas não previmos que a grande batalha seria contra autômatos que se fazem passar por seres humanos no Twitter ou no Facebook para semear a discórdia.

É apenas a ponta de um iceberg. Outra reportagem revelou que até mesmo a indústria cultural se vale de recursos de ética duvidosa como a compra de visualizações no YouTube ou audições no Spotify para aumentar artificialmente a popularidade de um artista - apesar de as plataformas fazerem o possível para coibir esse tipo de prática.

Como resultado dessas trapaças, precisamos aprender a desconfiar do que vemos por aí. Nada substitui o espírito crítico. Com a aproximação da campanha eleitoral, é hora de ficar mais ligado nas estratégias que podem ser utilizadas para criar uma falsa imagem da realidade. Não se deixe impressionar se um político que você julga incompetente parece popular na internet: pode ser tudo mentira.

FÁBIO PRIKLADNICKI