sexta-feira, 23 de junho de 2017

" Esse Brasil ...." que dá vergonha... e a corrupção é livre e a JUSTIÇA CEGA "

EUA suspendem importação de carne do Brasil
O secretário de Agricultura dos Estados Unidos, Sonny Perdue, anunciou na quinta-feira (22) a suspensão de todas as importações de carne bovina in natura do Brasil, por causa de “preocupações recorrentes” com a segurança do produto destinado ao mercado americano. A medida continuará em vigor até que o Ministério da Agricultura do Brasil adote ações “corretivas” para atender as exigências do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, divulgou um áudio no qual confirma e lamenta a suspensão e informa que o governo já trabalha para tentar reverter a situação. (Via Estadão)
Noruega corta quase R$ 200 milhões para a Amazônia
Em plena viagem oficial do presidente Michel Temer para Oslo, o governo da Noruega anuncia o corte de pelo menos 50% no valor enviado para o Brasil em projetos de combate ao desmatamento. O anúncio foi feito na quinta-feira em uma reunião entre as autoridades de Oslo e o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho. (Via Estadão)

Em novo golpe à exportação, EUA suspendem compra de carne fresca do Brasil

Revés acontece meses após Operação Carne Fraca, que levou norte-americanas a elevar inspeção



Açougue em supermercado de Brasília.


Meses depois da Operação Carne Fraca, que revelou um esquema de fraude e corrupção no controle de qualidade da carne brasileira e provocou reações restritivas de vários países, os exportadores brasileiros sofreram nesta quinta-feira uma das consequência mais drásticas da crise provocada pelo escândalo. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos anunciou que vai suspender as importações de carne fresca, ou "in natura" do Brasil "devido a preocupações recorrentes sobre a segurança de produtos destinados ao mercado americano". A decisão foi comunicada pelo secretário de Agricultura, Sonny Perdue.
A suspensão das vendas aos Estados Unidos vai permanecer, de acordo com os EUA, até que o Ministério da Agricultura do Brasil adote "ações corretivas que o Departamento de Agricultura considere satisfatórias". A assessoria do Planalto informou que o presidente Michel Temer, em viagem ao exterior, não vai se pronunciar.
A notícia é mais um golpe importante para o setor no Brasil, que movimenta cerca de 180 bilhões de reais por ano. Embora os EUA não sejam o principal importador de carne fresca brasileira, o maior mercado do mundo era considerado um "passaporte" para outros países. Só no ano passado, o norte-americanos voltaram a comprar esse tipo de produto do Brasil, após mais de dez anos de veto. De janeiro a maio deste ano, os americanos importaram o equivalente a US$ 19 milhões de carne fresca brasileira. "O prejuízo é intangível. Os Estados Unidos já importaram 19 milhões de dólares em 2017, mas o dano é muito maior do que isso. Sempre consideramos o credenciamento do mercado americano como um passaporte para outros países", afirmou Antônio Jorge Camardelli, o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC),  em entrevista ao EL PAÍS.

Crise ignorada?

A decisão dos EUA não foi uma repentina. Desde março, depois da Operação Carne Fraca, o Serviço de Segurança e Inspeção de Alimentos do Departamento de Agricultura aumentou a fiscalização das carnes brasileiras e passou a inspecionar tudo que era procedente do Brasil. Como resultado dos testes feitos, o órgão recusou a entrada de 11% das carnes frescas do Brasil. Esse percentual é "substancialmente mais alto" do que a taxa média de rejeição, de 1%, dos produtos exportados pelo resto do mundo.
Desde o início da inspeção reforçada, o órgão recusou 106 lotes de carne brasileira, equivalente a cerca de 1,9 milhão de libras ou 860 toneladas de carnes brasileiras. Para justificar o descarte desses lotes, o órgão disse que isso foi feito por preocupações de saúde pública, condições sanitárias e saúde animal. "É importante salientar que nenhum dos lotes rejeitados entrou no mercado americano", destaca o Departamento de Agricultura. Embora a fiscalização reforçada na carne fresca brasileira já durasse desde março, só na terça-feira o Governo brasileiro anunciou uma solução: a suspensão da exportação de cinco frigoríficos. A medida não convenceu os americanos. "A ação de hoje para suspender todos os embarques de carne fresca do Brasil substitui a autossuspensão", diz o órgão em comunicado.
Não é informado em nenhum trecho do comunicado quais foram os problemas específicos da carne brasileira. Para Antônio Jorge Camardelli, da associação de exportadores, os produtores tomaram providências para resolver o impasse apontado pelas autoridades americanas. De acordo com Camardelli, 19 cargas de carne fresca, de 25 toneladas cada uma, enviadas aos Estados Unidos apresentaram abscessos, uma espécie de inflamação originada no animal. Esses abscessos surgiram por reação adversa a uma vacina contra febre aftosa, diz Camardelli. "A culpa é de quem produz a vacina e de quem autoriza esse tipo de vacina", afirmou o presidente da ABIEC.
No comunicado divulgado, o secretário de Agricultura dos Estados Unidos alegou que "sua primeira prioridade é proteger os consumidores americanos". "Garantir a segurança do fornecimento de alimentos da nossa nação é uma das nossas missões críticas, e é uma tarefa que empreendemos com muita seriedade. Embora o comércio internacional seja uma parte importante do que fazemos no Departamento de Agricultura, e o Brasil há muito tempo seja um dos nossos parceiros, minha primeira prioridade é proteger os consumidores americanos. Isso foi o que fizemos, interrompendo a importação de carne fresca brasileira. Eu elogio o trabalho do Serviço de Segurança e Inspeção de Alimentos do Departamento de Agricultura por proteger minuciosamente os alimentos que servimos às nossas famílias", diz Perdue.

BRASIL NA ROTA DA DIREITA


Marcus Leoni/Folhapress
O deputado federal e presidenciável Jair Bolsonaro (PSC-RJ) 
em Natal, no começo do mês: um terço de seus eleitores (30%)
 está concentrado na faixa de 16 a 24 anos, 
segundo pesquisas.

"Numa roda de amigos, defender Bolsonaro não é cool. Será?" O post, publicado há dois anos no blog da "Família Bolsonaro", destinava a provocativa pergunta especialmente a adolescentes e jovens. Se você "posa de culto, aberto à modernidade", é mais "fashion" dizer na rodinha que Bolsonaro é "burro ou intolerante", o que lhe ajudará a conquistar a "simpatia nos seus amiguinhos jovens", continuava a publicação. "Adolescentes pseudointelectuais" acreditam em tudo o que leem na mídia, e ninguém quer correr o risco de ficar sozinho e perder o amigo, filosofava a Família Bolsonaro.

Se em 2015 o deputado federal Jair Messias Bolsonaro (PSC-RJ) já colocava sua candidatura presidencial na rua com suas usuais polêmicas, em 2017 a estratégia atingiu resultados surpreendentes. O parlamentar, que carrega com orgulho a bandeira da extrema direita brasileira, virou "cool" - pelo menos para uma parcela significativa do eleitorado mais  escolarizado, sobretudo com renda acima de cinco salários mínimos e jovem. Eleito em 2014 deputado federal com a melhor votação no Rio de Janeiro (464.572 votos), o ex-militar tem hoje mais de 4,3 milhões de seguidores de sua página no Facebook e alcançou nas últimas pesquisas de intenções de votos de confiáveis institutos a preferência de aproximadamente 15% dos eleitores.

O que fez a extrema direita virar "cool" para parte dos brasileiros pode ter intersecções com a onda conservadora mundial que colocou Donald Trump no poder nos Estados Unidos, que apontou a ultranacionalista Marine Le Pen como possível futura presidente da França - derrotada por Emmanuel Macron, que incorporou uma proposta de centro - e que alçou Theresa May ao poderoso posto de primeira-ministra britânica, ainda que sem maioria no Parlamento no pós-Brexit. O Brasil, porém, tem suas peculiaridades. A instabilidade política atual e a amplitude da crise de representatividade, aprofundada pela Operação Lava-Jato, tornam o país um caso complexo.

"As coisas no Brasil são mais misturadas. É a primeira vez na história do Brasil que temos grupos e pessoas assumidamente liberais, no sentido de serem contra a intervenção do Estado na economia. Existiam figuras isoladas no passado, tipo Eugênio Gudin [1886-1986], Roberto Campos [1917- 2001], mas não havia, de fato, grupos e pessoas de todas as camadas sociais que abertamente aderissem a esses valores", afirma o sociólogo Sérgio Abranches. Também é a primeira vez no país, segundo ele, em que parcelas mais significativas dos brasileiros assumem sem temor a defesa de valores e visões de mundo de direita. "O Brasil, durante a maior parte do tempo, tinha uma esquerda e o resto se dizia de centro. Ninguém se assumia como de direita, no sentido de ser conservador, antifeminista, contra a liberdade de expressão generalizada. Isso é um fenômeno muito novo."

O deputado-candidato tem viajado o país, ainda que evite declarar sua candidatura à Presidência às plateias para não ser enquadrado pela lei eleitoral, que veda a campanha antecipada. Procurado pelo Valor por intermédio de sua assessoria de imprensa, o parlamentar não retornou aos pedidos de entrevista. O mesmo ocorreu com seu filho, o também deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSC-RJ). Nas redes sociais, a família Bolsonaro atua em sintonia, na política, para catapultar a candidatura presidencial do chefe do clã. Especula-se nos bastidores da política que Bolsonaro trocará de partido, migrando para o PRB do prefeito do Rio, Marcelo Crivella. Outra possibilidade seria a fragmentação do PRB em uma outra agremiação partidária bem mais à direita, denominada Livres.


Barbara Lopes / Agência O Globo
"Ninguém se assumia como de direita, no sentido de ser conservador, antifeminista",
 diz o sociólogo Sérgio Abranches



Matriz ideológica

O crescimento do conservadorismo no Brasil é flagrante. Em 2014, o Instituto Datafolha apontava, em pesquisa sobre a matriz ideológica brasileira, que 55% dos cidadãos pendiam mais para o lado conservador. O Datafolha vai atualizar essa pesquisa nas próximas semanas, segundo o diretor-geral do instituto, Mauro Paulino. A tendência é que o patamar aumente, diz. "Esse é um processo que vem de algum tempo, mas se avolumou a partir de junho de 2013. Estamos vivendo uma onda de conservadorismo e de admissão deste conservadorismo, sem medo." Paulino acredita que as jornadas de 2013 têm relação indireta com esse processo por terem escancarado a crise de representatividade da democracia brasileira. Não por acaso, afirma ele, a partir daquele ano o percentual de eleitores sem nenhuma preferência partidária ascendeu.

 "Uma das consequências de 2013 foi possibilitar enxergar os traçados dos movimentos, organizações e tendências que estavam sob um terreno meio nublado, com voz ainda pouco potencializada nas redes ou em outras formas de mobilização", afirma Rachel Meneguello, professora de ciência política da Unicamp. "Nada nasce em 2013, mas as ruas favoreceram essa expansão." A partir das manifestações de rua, segundo ela, movimentos de direita, como o MBL [Movimento Brasil Livre], encontraram um espaço "para vocalizar posicionamentos destoantes da legitimação democrática que sobretudo os governos petistas constituíram como ações e discurso". Tais ações não ficaram restritas às ruas, e esses grupos se organizaram também no cenário político-eleitoral, mídias, organizações populares e instituições de ensino. "Enfim, 2013 possibilitou o volume e o espalhamento da extrema direita."
 O apoio do eleitorado jovem a Bolsonaro é surpreendente, admite Mauro Paulino. "Entre os eleitores do Bolsonaro, um terço está concentrado na faixa de 16 a 24 anos. Por exemplo: a Marina [Silva] só tem 23% de seus eleitores nesta faixa, assim como o Lula. O [Geraldo] Alckmin tem 17%. Bolsonaro chega a 30%. Eu interpreto isso como falta de alternativa mesmo, neste ambiente de desencanto, e os jovens são os mais desencantados com a política."

De acordo com o diretor do Datafolha, "novidades e propostas que dão a impressão de que a solução de problemas é simples acabam tendo uma aderência maior" neste contexto. Paulino salienta que é preciso aprofundar os estudos e análises sobre o eleitorado de Bolsonaro. Na próxima pesquisa Datafolha, em que será divulgada a matriz ideológica do brasileiro, também será atualizada a rejeição ao candidato da extrema direita. "Mas é muito surpreendente e acentuado o apoio do eleitor jovem", diz Paulino.
Isadora Brant / Folhapress
Cientista político Antonio Lavareda cita pesquisa mostrando que apenas 32% dos brasileiros 
preferem democracia como forma de governo

Deserto ao centro

O fenômeno Bolsonaro, para Abranches, tem relação direta com a falta de alternativas políticas - candidaturas viáveis - pelo centro e pela esquerda. "O fato é que estamos numa enrascada no Brasil, e por isso se fortalece a extrema direita. É exatamente a falta de alternativa do centro para a esquerda, a essa esquerda que se colocou impermeável a qualquer tipo de diálogo.

Mesmo a direita liberal-democrática, a centro-direita e até uma direita nacionalista, avessa ao Estado mínimo, acaba migrando para o polo do "bolsonarismo", na opinião de Abranches, por confundir a candidatura do parlamentar com o antipetismo ou o antiesquerdismo. Em sua conta no Twitter, Bolsonaro dá mostras de que não precisa se situar com clareza no espectro ideológico, como seus eleitores. "Simples: somos o oposto ideológico do PT e de Lula", publicou recentemente.

Outro aspecto intrigante é que a extrema direita não é um amálgama ideológico homogêneo. Tampouco são apenas as questões mercadológicas e econômicas que separam um liberal de um esquerdista.

Muitas vezes os valores morais podem ser muito mais significativos para diferenciar esses espectros. "O povo é bastante contraditório", afirma o diretor do Datafolha. "Há pessoas que defendem posse de armas, mas ao mesmo tempo acham que a homossexualidade deve ser aceita."

"Nossa direita partidária sempre foi fragmentada, na década de 1990 era a mais fragmentada da América Latina [com países que também experimentaram ditaduras], com mais de 14 partidos organizados. Essa multiplicidade perdura não apenas pela variedade de espaços que interesses e lideranças ocupam, mas por conta dos incentivos do sistema eleitoral e partidário. Estimar que para 2018 teremos nova força importante à direita é subestimar a capacidade [mesmo em crise] das forças políticas presentes e superestimar a capacidade criativa estrutural dessa direita", diz Rachel Meneguello.

 Silvia Zamboni / Valor

"Propostas que dão a impressão de que a solução de problemas é simples acabam tendo aderência maior", 
diz Mauro Paulino (Datafolha)


Extremos

Se Bolsonaro representa o radicalismo à direita, a esquerda, para o sociólogo Sérgio Abranches, se aprisionou no extremo oposto. "O mesmo fenômeno ocorre do lado de lá: a esquerda brasileira estigmatizou todas as formas alternativas de pensamento. E, ao fazer isso, impediu a emergência de uma nova esquerda, de uma visão de esquerda mais contemporânea, de novos pensamentos." Ambos os extremos são retrato da intolerância autoritária, afirma.

No caminho do meio, o que convencionalmente se chamaria de centro, não há muitas pegadas. A Lava-Jato colocou todos no mesmo balaio. "A gente quase não tem alternativa porque estão todos eles se tornando homogeneamente clientelistas. É o que eu chamo de peemedebização geral da política brasileira, que atinge um pedaço da direita e um pedaço da esquerda, tanto que estão todos eles, juntos, envolvidos na Lava-Jato. Adotaram o mesmo padrão moral de fazer política", diz Abranches. Não por acaso, um dos slogans preferidos dos fãs de Bolsonaro é: "Meu candidato é apoiado pela polícia. O seu é procurado por ela".

"Bolsonaro faz parte de um partido que está nesta mesma mixórdia, mas se apresenta como alternativa: vou prender, acontecer, arrebentar. Aí muita gente acaba pensando: 'Pô, quem sabe não é a esperança, a solução'. Então ele exerce um atrativo maior do que exerceria em condições normais, se houvesse alternativas tanto à esquerda quanto à direita diferentes  desta coisa que a gente tem aí e que ninguém quer."

Tal mixórdia partidária parece ter ajudado a esquerda, paradoxalmente. "Há a sensação de que está tudo errado, de que todos fazem parte do mesmo caldeirão. As pessoas, então, passam a voltar a confiar e a depositar o voto e a esperança em Lula e no PT. Tem esse outro lado também", afirma Mauro Paulino. Ele pontua que tanto Lula quanto Bolsonaro são os prováveis candidatos que mais crescem nos cenários de intenção de votos hoje.

Se no fim de 2016 o PT viveu sua pior desgraça, vendo a preferência da legenda pelo eleitorado cair para 8 pontos percentuais - índice semelhante ao da época de sua fundação -, 2017 trouxe ventos novos e o partido mostra sinais de recuperação. "Lula e o PT são marcas, junto aos segmentos mais pobres, muito fortes. Principalmente a marca Lula, que está associada aos ganhos que esse segmento obteve especialmente a partir de 2002 até 2010. Ficou a lembrança, a saudade dos tempos em que esses segmentos prosperaram. Isso se reflete agora, sobretudo neste momento, em que as acusações se misturam, e não estão mais concentradas só no PT", diz Paulino.


Fábio Guinalz / Folhapress
Rachel Meneguello (Unicamp) diz que imaginar nova força à direita em 2018 é subestimar
 a capacidade das forças políticas presentes


Águas turvas

É preciso dimensionar o mercado eleitoral não democrático no Brasil para compreender as razões pelas quais uma candidatura como a de Bolsonaro tem potencial competitivo, afirma o cientista político Antonio Lavareda. "Na condição de ex-militar, pelas circunstâncias de nossa história, ele utiliza, inclusive, uma certa valorização regressiva da ditadura militar. Bolsonaro é populista autoritário, explicita a nostalgia do período militar, então o mercado dele tem que ser um mercado do eleitorado não substancialmente democrático."

E qual o tamanho desse mercado supostamente não democrático no Brasil hoje? Para Lavareda, o melhor indicativo é a pesquisa realizada pelo instituto Latinobarómetro em 2016 com intuito de medir o apoio dos países latino-americanos à democracia. Considerando o conjunto de países, 54% dos povos latino-americanos apoiam a democracia. No Brasil, porém, esse patamar ficou surpreendentemente bem inferior: apenas 32% dos brasileiros identificaram a democracia como a forma de governo "preferível". "Isso nos diz que, aparentemente, você tem um mercado muito grande onde o Bolsonaro eventualmente pode arrebatar votos."

A queda dramática do apoio à democracia, para Lavareda, tem explicações óbvias. "A superposição de crise política com crise econômica, e crise moral disseminada a partir da Lava-Jato, deprimiram esses números e produziram essa inflexão que nos deixou nesta situação de penúltima colocação, acima apenas da Guatemala." E é "nestas águas turvas,  de pouca valorização efetiva da democracia entre nós", diz Lavareda, que a candidatura Bolsonaro navega e, "obviamente, pode se expandir".

Pesquisa Ibope de abril deste ano mediu o potencial de voto dos prováveis candidatos à Presidência - 8% dos entrevistados disseram que votariam em Bolsonaro com certeza e 9% poderiam votar. "Então o mercado potencial de Bolsonaro, hoje, é alguma coisa em torno de 17%", diz Lavareda. "É pouco? Não é pouco. Esse contingente, entre os que têm nível superior, alcança 24%. E entre as pessoas que têm renda de dois a cinco salários mínimos chega a 22%. E entre os que ganham mais de cinco salários, o percentual chega a 30%."

Lavareda considera exercício infrutífero buscar similaridades entre a ascensão da extrema direita no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. "A eleição do Trump foi uma circunstância muito peculiar, não tem nada a ver com uma eventual emergência da extrema direita no Brasil. O Brexit no Reino Unido é outra coisa também. A Marine Le Pen sempre foi alimentada por xenofobia, hipernacionalismo, pela crise da Europa que agora vai se dissipando. Acho uma bobagem fazer contexto disso com o Brasil", afirma o cientista político.

Também seria simplista, segundo a professora Rachel Meneguello, fazer associações diretas entre a ascensão da extrema direita e do nacionalismo com a crise migratória no mundo. "É simplificar muito o problema e não observar seus condicionantes históricos e políticos." A democracia é um fenômeno recente, alega Rachel. No pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945) é que a Europa começa a definir rumos importantes e muitos países do Leste Europeu só começam a trilhar esse caminho após queda do muro de Berlim, em 1989. Em muitas dessas experiências, acrescenta, o Estado do bem-estar social não foi capaz de fornecer respostas suficientes, as instituições democráticas nem sempre funcionaram a contento para consolidar direitos humanos, civis e sociais. Sem contar que aspectos culturais específicos exercem influência direta na forma como uma sociedade enxerga e lida com a democracia. "Em muitos desses países a crise de representatividade dos partidos e do governo representativo terá papel central na expansão de posicionamentos não democráticos." O Brasil pode ser compreendido também nesse contexto.

Pedro Ladeira / Folhapress
 Movimento pelo impeachment de Dilma: 'Vivemos uma onda de conservadorismo',
 diz Paulino

Transição em rede

Se Lula apostou no "Sem medo de ser feliz" em 2002, Bolsonaro aposta no "Sem medo de ser de direita" para encarar a disputa de 2018. "A abertura dos portos da comunicação digital", diz o sociólogo Sérgio Abranches, explicaria a maneira desabrida com que os brasileiros passaram a defender a pena de morte, o porte de armas, o Estado mínimo e a militarização, entre outros ideais do espectro da extrema direita. Ele trata exatamente desses temas em seu novo livro, "A Era do Imprevisto: A Grande Transição do Século XXI".

Digitalização, globalização e intensa troca de informações em rede são fenômenos que permitiram às pessoas encontrarem seus iguais pelo mundo afora. "Agora você entra no Facebook, Twitter, Instagram, SnapChat, qualquer lugar, mídia tradicional ou alternativa do mundo inteiro, e você pode ver alguém como você. Um contador aqui no Brasil encontra um  contador americano defendendo as ideias em que acredita. E ele deixa de ter vergonha."

Ninguém mais sussura. As pessoas vão às ruas, com cartazes, dizendo exatamente o que pensam. "Essa tomada de posição aberta, que é óbvia e banal na Europa e nos EUA, não era aqui. Agora as pessoas descobriram que é possível ser de direita, de esquerda, de centro, normalmente, e que as ideias têm nomes, e que esses nomes não são palavrões", afirma Abranches.

Essa velocidade e o fácil acesso à informação, na visão de Paulino, é exatamente a interface que explicaria os fenômenos de extrema direita no mundo. "A troca e produção de informações nas redes sociais são um fenômeno mundial. Ocorre seja nos países desenvolvidos ou não. O ponto de intersecção é a facilidade com que se pode propagar hoje ideias que antes ou ficavam mais ocultas e agora são mais explicitadas pela facilidade de comunicação ou porque de fato há esse vazio que os eleitores sentem em relação à política tradicional. O recado mundial que existe é: a política tradicional já não nos representa mais."
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Texto Por Malu Delgado | Para o Valor, de São Paulo

23 de junho de 2017 



Todo mundo mente


Além de responder a quase tudo o que a gente pergunta, o Google costuma apresentar respostas para questões que nem sequer formulamos. Antes de começar este texto, por exemplo, pesquisei o termo “dataísmo”, e a primeira palavra que apareceu ao lado foi “religião”. Ou seja: sem querer, fiquei sabendo que a maioria das pessoas que pesquisam no Google sobre a crescente importância da coleta e análise dos dados que produzimos, aos magotes, no mundo digital relaciona o assunto a uma espécie de nova religião – da qual, sem perceber, estamos todos nos tornando devotos. 

O tema é explorado em detalhes saborosos (e assustadores) no livro Homo Deus, do historiador israelense Yuval Harari. Entre outras previsões para um futuro nem tão longínquo, Harari sugere que estamos caminhando para um mundo em que a tecnologia ficará tão avançada, que os dados serão mais importantes do que os deuses e as pessoas.

Enquanto os humanos ainda despertam certo interesse, outro livro, este ainda não traduzido no Brasil, propõe que nunca antes na história da nossa espécie tivemos uma ferramenta tão precisa e abrangente para investigar nossos pensamentos e desejos mais profundos do que – adivinhem – o Google. Everybody Lies: What the Internet can tell us about who we really are (“Todo mundo mente: o que a internet pode nos dizer sobre quem realmente somos”), publicado no início de maio nos Estados Unidos, parte do princípio de que as pessoas são muito mais francas e diretas com a ferramenta de busca da internet do que com qualquer interlocutor de carne e osso – inclusive psicólogos, pesquisadores, políticos e qualquer um que ganhe a vida tentando descobrir como os outros pensam, sentem, compram ou votam.

Com um PhD em Economia em Harvard, Seth Stephens-Davidowitz extraiu dos assuntos mais pesquisados no Google insights sobre preferências sexuais e políticas, preconceitos, angústias e hábitos de consumo que muitas vezes contrariam o senso comum e as pesquisas convencionais. Isso porque as pessoas não apenas perguntam coisas ao Google (“como fazer mais sexo?”, “como fritar um ovo?”), mas fazem confidências, digitando frases como “odeio meu chefe”, “meu pai me bate” ou “me arrependi de ter tido filhos”. 

O autor do livro acredita que, assim como o microscópio e o telescópio transformaram as ciências naturais, a análise e o cruzamento de dados produzidos por milhões de pessoas vão revolucionar as ciências sociais, revelando quem as pessoas realmente são quando (acham que) ninguém está olhando.

Lançado poucos meses após a posse de Trump, o livro ajuda a entender por que tanta gente errou os prognósticos a respeito das eleições americanas. Em linhas gerais, porque as pessoas mentem e são muito mais racistas, cruéis e amedrontadas do que seriam capazes de admitir até mesmo para um questionário anônimo na internet. Resta aprender como usar essa tempestade de dados não apenas para idolatrar o senso comum – este banana – mas para imaginar uma versão melhor da nossa espécie enquanto ainda mandamos alguma coisa no pedaço.
 



                         Brasil: ame-o e não deixe-o


Há alguns anos, os governantes fardados propunham: Brasil, ame-o ou deixe-o, e uma musiquinha ufanista do período, cantada pela dupla Dom e Ravel, dizia: "eu te amo, meu Brasil, eu te amo...Ninguém segura a juventude do Brasil". Os hilários diziam: "o último a sair apaga a luz do aeroporto". "Criança, ama com fé e orgulho a terra que nasceste /não verás país nenhum como este /imita na grandeza a terra em que nasceste", disse Olavo Bilac, exaltando a natureza e as possibilidades de todos serem felizes. 

"Que país é este?", perguntou o Affonso Romano de Sant'Anna em 1980. O verso caiu na boca do povo, virou rock e brado de indignação nacional. Vivemos entre o complexo de vira-lata apontado por Nelson Rodrigues, depois da derrota de 1950 para o Uruguai, e a megalomania delirante que nos faz pensar que Deus é brasileiro, que somos o país do futuro e a última bolacha do pacote. Futuro distante, nosso parto é demorado, falou o João Cabral. 

Ia falar de céu azul, dos tons de chá primaveris, desta luz de lâmpada dicroica depois das chuvas, do mundialmente famoso entardecer de Porto Alegre quando a hora púrpura colorada deseja boa noite e tenta nos acalmar. "Ia", o editor interno disse que a pauta é outra. Complicado viver no Brasil, e sair dele também. Se ficar, o bicho pega, se correr, o bicho come, num mato sem cachorro, mais perdidos que cusco em procissão. No Uruguai, país distinto e estável, é bom de viver, mas é frio. 

Miami é cara, e dizem que a cota de brasileiros se esgotou. Escandinávia é fria, sombria, longe, linda e cara. Nova Iorque e Paris são para quem pode e delata. Resta nosso avozinho, Portugal, com o Algarve e o receptivo governo português. Enquanto não levamos alguma bala perdida ou achada dos assaltantes, ou a gripe A não nos pega, vamos vivendo, tocando o barco, caindo e levantando nas redes sociais, nas malhas fiscais e nos buracos das malhas rodoviárias. A gente vai levando...mesmo com toda Brasília e os "Três Poderes, harmônicos e independentes entre si". 

Soberania, cidadania, dignidade humana, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, pluralismo político e os poderes estão na Constituição, artigos 1º e 2º. Todo mundo pergunta: e aí, que tu tá achando da situação? Que solução? Para onde vamos? Muitos desacreditam nas pessoas e no País, pensam em sair, se salvar de qualquer maneira, se lixando para o coletivo. Outros buscam restos de esperança, pedaços de otimismo, pensam nos filhos, netos e bisnetos e nos que vão nascer e sonham com um Brasil melhor. 

Outros, os do meio, pensam nos prós e contras, tentam equilibrar as ideias e sonham com um entendimento nacional, líderes confiáveis, um novo "Plano Real" e que a recuperação econômica, política e ética não demore. Há quem votará só em candidatos novos, sem mandato ou ficha suja, nas eleições. É um alerta para os políticos, que têm um ano e pouco para reconquistar a confiança. No Brasil, até o passado é imprevisível, mas precisamos planejar algum futuro. 

a propósito... 

Para projetar o futuro, precisamos olhar para o Brasil que dá certo em muitas cidades, principalmente no interior. Precisamos mudar de hábitos, inclusive de consumo. Não somos a Islândia, nem a Suíça. Devemos observar as experiências do Japão, do Canadá, da Austrália, da Nova Zelândia, do Canadá e de outros países que deram certo, mesmo saindo de situações de pobreza, ignorância e de guerras. 

Ou a gente aprende com a história e os erros alheios, ou vamos seguir pagando caro pelos nossos. É claro que precisamos buscar um caminho próprio, é óbvio que temos problemas diferentes dos outros, mas precisamos amar o Brasil e ficar por aqui. Temos muito que conversar e agir.  

Jornal do Comércio


23 de junho de 2017  


A casa cinza

Não muito longe de onde moro, tem uma casa cheia de gente estranha. É um grande e antigo sobrado de madeira, pintado de cinza sujo. Acho que funciona como pensão, porque as pessoas que moram lá não parecem integrantes da mesma família, não conversam entre si, andam sempre sozinhas e vivem cercadas por uma aragem entre o desespero e o desencanto.

Há uma varanda, na frente dessa casa, e ali alguém colocou uma mesinha. Sobre a mesinha, foi acomodado um rádio desses antigos, do tamanho de uma caixa de sapatos. Há também duas cadeiras, uma em cada ponta da varanda. Às vezes, as duas cadeiras estão ocupadas; outras vezes, uma só. A pessoa que se senta na cadeira faz sempre a mesma coisa: nada. O rádio nunca é ligado, permanece mudo em cima da mesa. No lado esquerdo, um homem magro olha o vazio. No lado direito, uma mulher de chapéu olha o vazio. Entre eles, a mesa e o rádio. Por que não ligam o rádio?

Tenho a impressão de que ninguém conversa naquela casa. Eles vivem preocupados apenas com seus assuntos. São pessoas terrivelmente solitárias. São o contrário das crianças. Crianças têm o hábito de falar o que estão pensando e gostam de convivência. Uma criança, para se juntar a outra, só precisa de um ingrediente: da proximidade. Ela não faz ideia de quem a outra é, nunca a viu, não sabe nem seu nome e pergunta:

– Vamos brincar?

E pronto. As duas vão brincar.

Isso me leva a especular sobre o que a vida é capaz de fazer com uma pessoa. Falei em crianças. É claro que as crianças são diferentes umas das outras, cada qual tem sua personalidade. Mas a criança não se move por segundas intenções. Ela é o que é. Por isso, fala o que pensa – ela não se deixa censurar por suas próprias conveniências.

Tome como exemplo um dos atos mais cruéis que o homem pode cometer: o sacrifício de crianças. Várias culturas sacrificaram crianças em nome do aplacamento dos deuses ou da boa fortuna. Os cartagineses, rivais dos romanos, tidos como tão desenvolvidos, colocavam a criança nos braços da estátua de um deus. Abaixo dela, havia um buraco, onde ardia uma fogueira imensa. No auge do ritual, o sacerdote acionava uma alavanca que abaixava os braços da estátua. A criança rolava para o fogo. Seus gritos eram abafados pelos címbalos e tambores que soldados tocavam neste momento. A mãe, horrorizada, tinha de a tudo assistir sem se manifestar, sob pena de ser considerada ímpia ou impatriota.

Sabendo disso, tenho de concordar com o Velho Catão: Cartago precisava ser destruída.

Pelo que ansiavam os sacerdotes cartagineses e tantos outros, de outras nações, que cometiam tais brutalidades?

Ansiavam pela pureza.

Com a morte da criança, eles queriam absorver a pureza da infância, assim como alguns de nossos índios devoravam os inimigos na esperança de lhes assimilar a força e a coragem.

A pureza perdida. Mesmo os maus querem a pureza perdida.

Em que momento a malícia se infiltra na alma humana? Em que momento a criança se transforma em uma pessoa torturada, ou triste, ou simplesmente má? Em que momento se quebra o ovo da serpente?

Mas a principal pergunta é: o que produz essa transformação? Por exemplo: o que a exposição à violência das ruas causará às nossas crianças brasileiras? É o que mais me aflige, ao pensar no Brasil.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Fred Coelho*

Resultado de imagem para pensar pinturas

Não serão partidos, empresas, bancos ou tribunais que, sozinhos, irão mudar o país

Vou falar nesta coluna de um tema tão claro em sua importância que soa trágico ter que trazê-lo como assunto. Me refiro ao baixíssimo valor que as áreas do ensino e da pesquisa detêm em nossa sociedade. E digo isso referente não apenas a governos, mas principalmente à população em geral. Cada vez menos, me parece, damos valor à educação como espaço de saberes. Passamos a exigir dela uma resposta prática: dinheiro.

Atualmente, um país que sempre desprezou o trabalho manual também não tem em grande conta o trabalho intelectual. Creio que o perfil massivo do profissional que deve ser admirado é fruto do que se convencionou chamar de “meritocracia”. Empreender individualmente, acumular, ter posses, são atributos que transcendem valores intrínsecos dos fazeres. Capacidades de reflexão crítica tornam-se meros ornamentos que nunca atingirão o perfil do empresário de si mesmo, do maximizador de oportunidades. Afinal, para que “aprender a pescar” se podemos ser donos da vara, do lago, do barco e do peixe?

Talvez essa desqualificação social dos que trabalham nas bordas “inúteis” do regime acumulador de capital e bens materiais (com raízes bem mais profundas do que cabe nesta coluna) explique por que não vemos com a gravidade necessária descalabros que só alimentam nossa sensação de falência completa. Achamos normal a educação pública do país ser em sua amplíssima maioria relegada às parcelas mais pobres. Naturalizamos a ideia de impostos financiarem justamente as instituições formadores da mão de obra manual e sem escolaridade desprezada pela maioria.

Como se a arrecadação pública fosse um investimento para a formação do precariado, contingente que perpetua os traços mais profundos de um país escravocrata. São cidadãos que, depois de abandonada a escola ou a tentativa de universidade, irão trabalhar por péssimos salários para os que tem as posses e, claro, os estudos completos. Esses, são a outra face amarga do professor, tão frágeis em suas carreiras e tão mal pagos quanto os futuros de seus alunos da rede pública — e escrevo isso sabendo que temos exceções.

Achamos compreensível as universidades públicas serem inviabilizadas por orçamentos deficitários em um momento complexo de reformulações por conta da entrada de novos perfis socioculturais. Julgamos grevistas como vagabundos sem nem saber ao certo o que faz um professor escolar ou universitário, trabalho tanto intelectual quanto braçal na preparação das aulas, no preenchimento de relatórios, na ocupação de cargos administrativos, que zelam por toda uma comunidade de alunos, funcionários e pares.

Achamos, por fim, justificável termos redução de investimentos públicos em níveis municipais, estaduais e federais para promoverem ajustes fiscais em tempos de merendas desviadas, espaços escolares conflagrados pela violência, déficit de escolaridade etc. Todas as pesquisas recentes mostram que o jovem que vive fora da escola é o mais vulnerável nas estatísticas brutais ligadas a homicídios no Brasil. Mais uma vez (isso é tão óbvio!), os que morrem são os mesmos que abandonam escolas para ajudar famílias em condições precárias de vida. O ciclo nunca se quebra, pois, quando a escola ou a universidade são largadas, arraiga-se a ideia de que os estudos são para poucos que podem viver seu privilégio de classe — e no Brasil sabemos que esse privilégio não é apenas de quem é muito rico. Ter pouco já é muito perto dos muitos que não têm nada.

Nesse quadro, como incentivar os estudos apenas como um caminho para a obtenção de um fazer ligado ao mercado de trabalho? A reflexão crítica, a empatia, o desejo de inovação, a compreensão da alteridade, a cura das feridas históricas, a construção de éticas comuns, a transformação do ódio social em energia criadora, tudo isso passa pela escola e pela universidade. Não serão partidos, empresas, bancos ou tribunais que, sozinhos, irão mudar o país. Aliás, até mudam, mas para um quadro que neste momento não parece o melhor para se viver. O ensino e a pesquisa, com os seus imensos efeitos permanentes (um indivíduo que aprende a pensar ganha isso para sempre), podem colaborar para uma mudança qualitativa em cenários como o que atravessamos. Cada centavo investido em programas educacionais bem executados retorna de forma perene para o Estado e para toda a comunidade.

Lembro que este é um tempo que, em países como Japão ou os Estados Unidos de Donald Trump, falam do fim das Humanidades como conjunto de saberes financiados pelo Estado. O argumento, em geral, é que são áreas que “não geram lucro” como aquelas envolvidas com tecnologia, patentes e mercados. Pensar, escrever, experimentar, criar ideias, são ações que tornam-se aos poucos espécie de “luxos” dispensáveis quando se almeja o sucesso material. A lógica do lucro se impõe. Assim, especular deixa de ser um verbo intelectual para ser apenas financeiro. Penso, logo invisto. Boa sorte para todos nós.
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* Professor Assistente do Departamento de Letras. Possui graduação em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1994-1999), ...
Fonte:  https://oglobo.globo.com/cultura/o-valor-do-pensar-21498999

Roberto DaMatta*

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Pode-se matar por engano ou boçalmente, como na guerra e nos radicalismos, mas na morte não há erro. Sem ter retorno ou reparo — ela simplesmente é

A semana passada me surpreendeu com inesperados. O inesperado é o latente. Aquilo que se cobre com a capa das coisas claras e planejadas mas resulta no seu oposto. A sovinice que arquiteta riqueza, a dificuldade legal manifesta para promover a propina latente da facilidade, o sublime socialismo que tem como alvo distribuir riqueza, mas que detesta opiniões divergentes.

A morte visitou-me atingindo pessoas que eu admirava. É curioso constatar que, apesar de a morte ser o mais óbvio axioma da vida — pois só morre quem vivo está —, ela continuamente nos surpreenda.

Seu incômodo poder decorre de incontáveis latências. A maior delas sendo talvez o modo como a morte inapelavelmente demonstra a nossa finitude. Esse bonito nome para a brutal concretude com a qual os nossos esbirros de onipotência e as nossas fantasias de permanência são negadas.

Haja, pois, espanto quando ela aparece. Vivê-la como algo inesperado é, suspeito, um modo de acolhê-la, porque são raros os que aceitam o seu convívio e milagrosos os que não são por ela contaminados.

Representada como um esqueleto coberto por uma mortalha — uma entidade descarnada, absolutamente impessoal e dona de uma igualdade objetiva, pois os ossos canibalizam caras e bocas, a morte é prova da separação entre o aquilo que possui a mais profunda significação (é o fim de tudo o que almejamos), ao mesmo tempo em que desfruta do nosso mais integral desconhecimento. Sentimos a morte, mas não a experimentamos ou conhecemos. Não sabemos como e o que ela é. Dela temos a experiência exterior, pois para conhecê-la por dentro teríamos que morrer e, neste gesto sem retorno, renegaríamos a vida: esse engenho inesgotável do saber e do conhecimento. Por isso, os mortos queridos nos espantam na sua imobilidade de pedra. Como não reagem aos nossos soluços? Como não ouvem o que ainda temos para pedir ou contar? A morte rompe relações.

Na minha vida, que já vai longa, vi muitas mortes e vivi o absurdo de enterrar quem — pela frágil lógica humana — eu esperava que fosse me sepultar.

Mas haveria alguma morte fora de hora, quando sabemos ela é o sinal de que “chegou a nossa hora?.” Pode-se matar por engano ou boçalmente, como na guerra e nos radicalismos, mas na morte não há erro. Sem ter retorno ou reparo — ela simplesmente é.

Mesmo esperada, a morte surge como um inesperado, como foi o caso do tio de amigos queridos, falecido no mesmo dia em que o laureado jornalista Jorge Bastos Moreno — para quem, envolvido pela sua conhecida simpatia, escrevi o prefácio do seu livro “A história de Mora; a saga de Ulysses Guimarães” — também partia. Neste pequeno texto eu enfatizo o modo com o qual ele recontava fatos públicos do ponto de vista de uma mulher, a dona Mora, que, como Penélope, esperava e via com mais clareza as peripécias do herói.

Como os dois sepultamentos ocorreram no mesmo dia, fui obrigado a uma cruel escolha. E certamente por causa disso, relembrei no velório do qual participei que tudo na vida social tem um lado manifesto e um outro latente. O morto é explicita e ritualmente pranteado, mas alguém tem que providenciar o cemitério, a sepultura, o caixão e a vestimenta. O triste adeus de uma despedida, entretanto, promove encontros benfazejos com velhos e novos amigos.

O escritor inglês G. K. Chesterton chamava isso de “trabalho do morto”; um outro inglês, o antropólogo A. R. Radcliffe-Brown dizia que o sepultamento era o inicio da recomposição da teia social ocupada pelo morto. Robert K. Merton, um brilhante sociólogo americano hoje esquecido, sugeriu, inspirado em Max Weber, que toda instituição social tem uma “função manifesta”, geralmente expressa nos seus estatutos (a ética protestante) e uma “função latente” (o espirito do capitalismo), a qual surge como um inesperado e muitas vezes como ironia ou paradoxo de dentro dos seus contornos sociais.

A morte fez apreciar o Moreno, como um jornalista-profeta. Não o que advinha, mas o que diz o que os poderosos não gostam de ouvir porque foi escrito num tom inesperadamente latente — no limite da ironia e do politicamente correto. A função manifesta do jornalismo é estampar fatos. A latente, é comentá-los. O modo como isso é feito separa o fofoqueiro do profeta que, ao lado do palácio real, prega uma jeremiada nos barões-ladrões.

Tal como acontece na morte, os políticos se elegem manifestamente para governar, mas o seu objetivo latente é roubar ou arrumar-se. Eis uma tese, mas sua demonstração, como diria um outro inglês, é uma outra história...

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* Roberto DaMatta é antropólogo