A primeira vez que escutei sobre a
importância do nome do pai no registro de nascimento foi no ano passado, durante
uma entrevista do empresário Luiz Fernando Oderich, fundador da ONG Brasil Sem
Grades, que luta brava e insistentemente para diminuir a criminalidade atual.
Sou admiradora desse cidadão que, a exemplo de outros homens e mulheres que
perderam seus filhos de forma estúpida (o filho único de Luiz Fernando foi morto
há 10 anos durante um assalto), dedicam grande parte de suas vidas a dignificar
a sociedade em que vivemos. É com gratidão e respeito que o menciono.
Agora, o Fantástico inicia uma série em que
bate na mesma tecla, a da importância do nome do pai na certidão, citando
projetos semelhantes, como o Pai Presente e o Pai Legal. Num país onde cerca de
30 milhões de pessoas não possuem o pai identificado, conscientizar sobre esse
assunto pode ajudar a reduzir o número de delinquentes nas ruas.
Claro que importa o tipo de pai que se é, mas
antes de tudo: houve um pai? Quem ele é? Por mais que as mulheres estejam
ocupando um duplo papel em muitos lares, e dando conta do recado, existe um
componente psicológico nessa questão que não pode ser ignorado. Há vários
motivos para que o pai esteja registrado na certidão do filho (requisição de
amparo material na falta da mãe, por exemplo), porém o mais importante é o
sentimento de inclusão em um núcleo familiar completo, sem espaços em branco, e
o orgulho e a responsabilidade que disso advém.
O lado bom da história é que, se existem
pais-fantasmas, por outro lado há uma infinidade de pais protagonizando cenas
impensáveis décadas atrás. No último domingo, estive no supermercado e vi um pai
ensinando sua filha de uns 11 anos a avaliar se um tomate está maduro ou
passado. Os dois se divertiam fazendo compras juntos, e fiquei pensando que essa
garota pode nem vir a ser uma boa cozinheira, mas sua estabilidade emocional
promete. No mesmo dia, vi da sacada do meu apartamento (que dá para um clube) um
pai brincando com dois filhos na piscina, formando com os braços uma cesta de
basquete para que os guris jogassem a bola. A cena pode parecer meio boba, mas
garanto que aqueles guris preferirão lembrar disso quando adultos, ao invés de
um pai que se mantém na borda, prometendo que verá as cambalhotas do filho na
água, mas que assim que a criança mergulha volta a conversar com os amigos, sem
ter prestado um segundo de atenção.
A emancipação da mulher gerou um equívoco: a de
achar que os pais tornaram-se desnecessários. Absurdo. Bem pelo contrário, nossa
emancipação permitiu que o papel dos pais na criação dos filhos fosse ampliado.
Eles deixaram de ser meros provedores para tornarem-se essenciais participantes
da educação moral, social e afetiva dos pirralhos. Mas é preciso partir do
começo: o reconhecimento de que esse pai existe.
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Escritora. Colunista da ZH

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