
Até que ponto as ambiguidades femininas incentivam o comportamento acintoso dos homens?
Às
vezes eu me desaponto um bocadinho com as mulheres. Não com o comportamento
individual desta ou daquela, mas com a coletividade. Tenho a impressão, nessas
ocasiões, que alguns problemas que elas sofrem na relação com os homens são pelo
menos em parte auto-infligidos. A cultura feminina tem ambiguidades que
incentiva nos homens comportamentos menos respeitosos do que deveriam ser.
Outro dia eu estava num restaurante com os amigos e presenciamos uma cena corriqueira. Havia duas moças sozinhas numa mesa e, próxima a elas, outra mesa com rapazes. Um deles parecia tão impressionado com as garotas que não se dava ao trabalho de disfarçar. Ele virou a própria cadeira e sentou-se de lado em relação aos amigos para melhor observá-las. Era uma coisa direta, descarada, acintosa mesmo. Ele olhava as garotas aparentemente indiferente ao que elas pudessem pensar da atitude dele, como se fossem duas vacas pastando. Comia com os olhos, como se diz. De vez em quando fazia comentários com os amigos, mas não tentou se dirigir a elas, que eu tenha visto. As garotas eram bonitas, estavam de shorts, e pareciam entretidas na própria conversa. Uma hora terminaram de comer e foram embora.
Outro dia eu estava num restaurante com os amigos e presenciamos uma cena corriqueira. Havia duas moças sozinhas numa mesa e, próxima a elas, outra mesa com rapazes. Um deles parecia tão impressionado com as garotas que não se dava ao trabalho de disfarçar. Ele virou a própria cadeira e sentou-se de lado em relação aos amigos para melhor observá-las. Era uma coisa direta, descarada, acintosa mesmo. Ele olhava as garotas aparentemente indiferente ao que elas pudessem pensar da atitude dele, como se fossem duas vacas pastando. Comia com os olhos, como se diz. De vez em quando fazia comentários com os amigos, mas não tentou se dirigir a elas, que eu tenha visto. As garotas eram bonitas, estavam de shorts, e pareciam entretidas na própria conversa. Uma hora terminaram de comer e foram embora.
Enquanto a cena se desenrolava, surgiu um
debate na minha mesa. Eu achei que o comportamento do rapaz era excessivo. Tive
a impressão de que ele estava sendo desrespeitoso com as moças e fazendo papel
de bobo. Um dos meus amigos discordou. “Ele não está falando com as meninas, não
está invadindo. Olhar não machuca”, ele disse. O outro amigo foi da opinião que
as meninas estavam gostando. A atitude do rapaz, embora de gosto duvidoso, era
uma espécie de homenagem à beleza delas. Agindo daquela forma descarada ele não
iria pegar ninguém, mas tampouco estava ofendendo. Ficava tudo no zero a
zero.
Intrigado com a cena, e com as diferentes
opiniões a respeito dela, tentei descobrir o que as mulheres achavam daquilo.
Perguntei a várias amigas, de idades e situações conjugais diferentes, e
descobri, para minha surpresa, que poucas têm posição crítica a esse tipo de
comportamento masculino. A maioria parece confortável com ele. Acham bobo, mas
não se incomodam realmente. Uma delas me disse que se estivesse no lugar das
meninas teria adorado. Quase todas exibem certa ambiguidade sobre o assunto.
Quando eu contava a cena, elas, antes de opinar, perguntavam: mas o cara era
gatinho? Parece que a atitude se torna aceitável ou não dependendo da aparência
do sujeito. Se o cara for bonito, pode. Se for jovem, pode. Uma única amiga foi
taxativa: “Detesto ser olhada dessa forma acintosa, na rua ou em qualquer lugar.
Acho desrespeitoso, ofensivo”.
Todas, sem exceção, dizem que o sujeito que faz
esse tipo de coisa não pega ninguém, mas isso nem estava em discussão: o cara
era somente um voyeur abusado. Obviamente não tinha nenhuma intenção de seduzir.
Queria usufruir da vista oferecida pelo corpo das meninas, subjetivamente talvez
quisesse até agredi-las, mas estava na cara que não tinha pretensões de
conquistar. Quem age assim raramente tem.
Da minha parte, confesso que fiquei desapontado
ao conversar com as amigas. Eu enxergo uma conexão nítida entre essa maneira de
olhar agressiva dos homens e outros tipos de comportamentos mais invasivos, como
dizer grosserias para as mulheres na rua ou pegar no corpo delas na balada,
forçando a barra. Já escrevi sobre isso, aliás. Para mim, há um contínuo de
desrespeito que começa no olhar e termina no toque, mas muitas mulheres não vêem
assim.
Em parte, eu acho, porque elas estão
acostumadas - ou talvez a melhor palavra seja “conformadas”. Alguns homens
brasileiros, assim como os italianos ou argentinos, são agressivos na abordagem.
Como muitos fazem, passa por norma, e as mulheres assumem que essa é a regra do
jogo. Além do mais - e isso é grave – alguns homens não respondem bem a uma
invertida. Eu coleciono histórias de mulheres que reagiram ao se sentir
desrespeitadas e foram agredidas, insultadas ou tiveram de correr para não
apanhar de um estranho na rua. Se as duas garotas no restaurante se sentissem
incomodadas com o olhar insistente do voyeur e decidissem tomar satisfações com
ele, ou se queixar ao dono do restaurante, o que poderia acontecer? Vocês me
digam.
Seria ingenuidade achar que apenas o hábito ou o medo explicam a passividade das mulheres diante do comportamento invasivo dos homens. Muitas mulheres vibram e se excitam com qualquer atenção masculina, mesmo tosca ou indesejada. Isso está na cultura. Boa parte das meninas brasileiras são educadas desde cedo para serem bonitas, sensuais, sedutoras de tempo integral. Isso vira um valor, que determina aspectos cruciais da auto-estima e do comportamento adulto delas. Ser percebida como uma mulher bonita pode ser mais importante do que quase tudo. Se, nos Estados Unidos ou no norte da Europa, um cara ficar encarando uma mulher de maneira ostensiva, é provável que ela se assuste ou se irrite. Aqui, não. O mais provável é que a mulher se sinta lisonjeada, mais que incomodada. Mesmo achando o cara um babaca. Tem uma contradição aí, que passa pelo fundo da alma feminina brasileira.
Seria ingenuidade achar que apenas o hábito ou o medo explicam a passividade das mulheres diante do comportamento invasivo dos homens. Muitas mulheres vibram e se excitam com qualquer atenção masculina, mesmo tosca ou indesejada. Isso está na cultura. Boa parte das meninas brasileiras são educadas desde cedo para serem bonitas, sensuais, sedutoras de tempo integral. Isso vira um valor, que determina aspectos cruciais da auto-estima e do comportamento adulto delas. Ser percebida como uma mulher bonita pode ser mais importante do que quase tudo. Se, nos Estados Unidos ou no norte da Europa, um cara ficar encarando uma mulher de maneira ostensiva, é provável que ela se assuste ou se irrite. Aqui, não. O mais provável é que a mulher se sinta lisonjeada, mais que incomodada. Mesmo achando o cara um babaca. Tem uma contradição aí, que passa pelo fundo da alma feminina brasileira.
Isso vai ser sempre assim? Acho que não. Tenho
a impressão de que há novos sentimentos emergindo. Os valores pessoais e
coletivos estão em transformação. O movimento Barbie das mulheres lindas acima
de tudo convive com o bloco das mulheres independentes e poderosas, que não se
interessam apenas em ser bonitas. Quando a proporção das mulheres independentes
aumentar, é possível que o comportamento nos lugares públicos também se altere.
Elas tendem a exigir mais respeito. A sociedade em que os homens se comportam
como querem e as mulheres abaixam a cabeça constrangidas está acabando, ao menos
nesta parte do mundo. Como era apenas uma sociedade atrasada e machista, não vai
deixar tanta saudade.
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Fonte: IVAN MARTINS É
editor-executivo de ÉPOCA (Foto: ÉPOCA)Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/ivan-martins/noticia/2012/12/ele-comia-com-os-olhos.html
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