A crescente onda de traduções dos livros de Clarice Lispector (1920-1977) nos
EUA, tema da matéria de capa da Bookforum deste mês, vem acompanhada no
Brasil de novas abordagens da obra da escritora. É o que atestam dois
lançamentos simultâneos: Extratextos 1 - reunião de 12 contos
inspirados por seus personagens e encomendados a um grupo de ficcionistas - e
No Limiar do Silêncio e da Letra, ensaio de Maria Lucia Homem sobre a
questão da autoria em Clarice Lispector com base em três livros dela: Água
Viva (1973), A Hora da Estrela (1977) e Um Sopro de Vida
(1978). No primeiro dos lançamentos, Extratextos 1, estão reunidos
escritores brasileiros e estrangeiros, entre eles o crítico literário Silviano
Santiago, colunista do Sabático (leia trecho de seu conto no link acima). Essa
experiência de reescritura é analisada pela ensaísta Olga de Sá em texto
publicado abaixo, enquanto o processo construtivo da literatura clariciana e seu
diálogo com o leitor - convocado a dividir a autoria dos textos - é o tema do
artigo de Alcides Villaça, da USP, que está nos links acima.
Arquivo/Agência O Globo
A ficcionista, na sala de seu apartamento,
em 1961
Ao confundir as funções de autor, personagem e leitor em alguns de seus
livros, Clarice fez a este último um convite ao abandono da razão. Para a
crítica literária Rachel Kushner, que assina o ensaio da Bookforum,
isso explicaria a empatia dos americanos com seus textos carregados de filosofia
- que, contrariando Wittgenstein, ousam dizer aquilo que é impossível ser dito.
Ela suspeita que a razão de Clarice ter inspirado verdadeira devoção entre seus
leitores resida na segurança de terem um guia - sincero, honesto, ainda que
inseguro - à frente do texto. "Os leitores sentem que ela está falando com eles
sobre a mais básica e ao mesmo tempo mais complexa experiência humana: a
estranheza diante do que significa estar vivo."
A psicanalista Maria Lucia Homem, que dedicou cinco anos à elaboração de No
Limiar do Silêncio e da Letra, diz a esse respeito que Clarice "tenta construir
outro estatuto para a linguagem verbal", aproximando a escrita de uma "névoa",
de uma "fotografia muda", além de estabelecer diálogos intertextuais com outros
autores (Shakespeare, Dostoievski) para traduzir a tragédia existencial do
homem, "submetido às mazelas do destino e das condições que o cercam". Autor,
leitor e texto, segundo a psicanalista, formam uma tríade inseparável. Clarice,
observa ela, tematiza o tema da autoria como representante da modernidade
literária, em que questiona a posição do narrador e ultrapassa os limites
formais, afirmando que sua linhagem é a de Proust, James Joyce e Virginia
Woolf.
A autora do artigo da Bookforum vai além, comparando-a a Kafka, uma vez que
ambos elegem um simples inseto para conferir ao homem o ingresso numa dimensão
metafísica, surreal. Graças à barata de A Paixão Segundo G.H. (1964), a
burguesa do livro experimenta, comenta ela, o gosto da transubstanciação
católica. É a sua hóstia em seu incipiente processo de transformação espiritual,
conclui Kushner. Outra referência citada por ela é Ingeborg Bachmann
(1926-1973), poeta austríaca que morreu em consequência de queimaduras
provocadas por um incêndio em seu quarto, causado por um cigarro (Clarice passou
exatamente pelo mesmo drama, mas escapou).
No entanto, Kushner discorda que a modernidade de Clarice deva algo ao
"stream-of-consciousness" (fluxo de consciência) de Joyce ou Virginia. Em termos
de correntes literárias vanguardistas e de suas relações com os contemporâneos,
ela não seria, acredita a crítica, "conscientemente experimental". Se tanto,
Kushner vê maior afinidade com os artistas neoconcretos - Lygia Clark, Hélio
Oiticica, Lygia Pape -, identificando em Água Viva uma tentativa de traduzir em
palavras a ordem geométrica dominante nas obras neoconcretas. O que não pode ser
dito talvez possa, afinal, ser mostrado, conforme sua lógica. A ideia que
Clarice tinha de Natal, argumenta Kushner, era a de uma árvore decorada com
formas geométricas irregulares em preto e cinza, como num metaesquesma de
Oiticica. Foi a árvore que ela montou em Chevy Chase, Maryland, em 1950, ainda
casada com o diplomata Maury Gurgel Valente.
Por aquela época, Clarice convivia com seus amigos mineiros - Fernando
Sabino, Lúcio Cardoso, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos -, convivência
essa que a associava automaticamente ao gosto dos mineiros por discussões em
torno das tradições religiosas (especialmente a católica). Ela mesma era leitora
de Imitação de Cristo, obra devocional do padre alemão Tomás de Kempis,
publicada no século 15, cita o também mineiro Silviano Santiago. Quase ninguém,
na época, lembrava de Clarice como uma escritora judia, nascida na Ucrânia.
Santiago observa que ela, acima de qualquer classificação, foi sucessivamente
apropriada pelos católicos nos anos 1950, depois por existencialistas nos anos
1960, pelas feministas francesas nos anos 1970 (notadamente a argelina Hélène
Cixous) e, agora, pela intelectualidade americana, que a quer uma escritora
encaixada na tradição dos grandes escritores judeus, como Saul Bellow e Philip
Roth. Contribui para isso a biografia (Clarice), de Benjamin Moser, em que o
americano sugere ser o judaísmo um tema "disfarçado" em seus escritos. Clarice,
como Moser, não era religiosa. Ele garantiu mais de uma vez que a presença
judaica não contribuiu para seu interesse inicial pela autora.
A psicanalista Maria Lucia Homem ressalta, com razão, que a associação de
Clarice com a tradição judaica é anterior a Moser. A escritora tentou "dar forma
ao incomensurável", diz. O silêncio, o impronunciável, aquilo que não pode ser
escrito, toda essa discussão filosófica judaica, de acordo com a autora, é
retomada por Clarice numa perspectiva moderna, cuja chave psicanalítica seria a
"subjetividade pautada pelo inconsciente". Clarice, conclui a psicanalista,
buscava em sua literatura algo além do texto, como já observara Benedito Nunes
(1929-2011), pioneiro no campo ensaístico sobre a escritora. Em O Drama da
Linguagem - Uma Leitura de Clarice Lispector (1989), o filósofo paraense faz uma
análise fenomenológica e existencialista de sua obra a partir das leituras de
Heidegger, Kierkegaard e Sartre (em particular, do conceito de náusea do
filósofo francês, angústia que arrebata o corpo).
Hoje, é a filosofia de Clarice que se exporta. Entre os autores selecionados
por Luis Maffei e Mayara R. Guimarães no livro Extratextos 1 para "reescrever"
Clarice Lispector estão três portugueses (Pedro Eiras, Maria Teresa Horta, Hélia
Correia), uma uruguaia (Vera Giaconi) e uma cabo-verdiana (Vera Duarte). O
angolano Pepetela (O Planalto e a Estepe) foi consultado, disse que escreveria,
mas acabou desistindo. "É engraçado como os ficcionistas de outros países adotam
Clarice como uma escritora deles, como se houvesse uma linguagem neutra da qual
não se soubesse a origem", analisa Maffei, também um dos autores da coletânea,
que escolheu como personagem a senhora Jorge B. Xavier, de A Procura de Uma
Dignidade, conto de Onde Estivestes de Noite (1974). Em sua versão, a senhora do
título revisita o Maracanã em obras, imaginando entrar num show de Roberto
Carlos nos anos 1970.
Maffei traduziu o conto da uruguaia Vera Giaconi, que vive em Buenos Aires,
onde a obra de Clarice cresce. Nos EUA, as novas traduções de seus livros,
avalia a crítica da Bookforum, são mais fiéis em preservar sua "rudeza
intencional" e "idiossincrasias". Cinco dos nove livros traduzidos recentemente
tiveram a supervisão de Benjamin Moser, frisa Rachel Kushner - e todas as
traduções são menos herméticas que as anteriores, garante ela, cujo conto
favorito de Clarice é um sobre a "luxúria" de tomar Ovomaltine, que lhe
provocava náusea. Mas Clarice suspeitava não ser culpa da bebida. "Sou eu que
não sou boa", concluiu.
EXTRATEXTOS 1 – CLARICE LISPECTOR, PERSONAGENS REESCRITOS
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