Artigo ZH
FLÁVIO TAVARES
Jornalista e escritor
Jornalista e escritor
O inesperado é sempre um choque e, até na alegria, o imprevisível produz ansiedade. Quando é a morte que cai de inopino, como raio em noite sem tempestade, tudo vira tragédia. Meu pai morreu assim, no último dia de 1950, do primeiro fulminante enfarte, no ônibus que, pouco antes, saíra de Porto Alegre rumo a Lajeado, onde morávamos. Numa época de telefones precários, pensamos num desses acidentes que despedaçam ou carbonizam tudo e em que não há, sequer, como dar o derradeiro beijo na face morta. Horas depois, ao encontrá-lo inerte, mas de corpo intacto no antigo necrotério da Capital, foi como se ele tivesse ressuscitado pela metade: pelo menos havia um cadáver, sobre o qual podíamos chorar de dor.
Rememoro isso ao saber que nada sobrou do avião em que Eduardo Campos viajava com seus assessores. Destroços carbonizados e irreconhecíveis corpos mutilados estendem a dor até a quem não partilhava do seu estilo nem votaria nele à Presidência. Mas o horror maior é a brutalização pelo inesperado, que dá aos acidentes aéreos um tom cruel. O transporte mais rápido e limpo vira algo peçonhento, destrutivo ou terrível, e se inventam “causas” e “culpados”, como se isto sanasse a tragédia.
Em Buenos Aires (onde soube do acidente de Santos) recebi do Brasil, pela internet, diferentes invencionices em torno à “sabotagem” que incendiou o avião no ar. A “caixa preta” nem fora encontrada, mas os “inventores de notícias” já conheciam detalhes, como se a mediunidade de Chico Xavier habitasse o disco rígido de seus computadores.
Como conjectura, não seria mais correto pensar num cigarro jogado ao “toillete”, como em 1973, no Boeing da Varig que se incendiou ao descer no aeroporto de Paris?
Rememoro isso ao saber que nada sobrou do avião em que Eduardo Campos viajava com seus assessores. Destroços carbonizados e irreconhecíveis corpos mutilados estendem a dor até a quem não partilhava do seu estilo nem votaria nele à Presidência. Mas o horror maior é a brutalização pelo inesperado, que dá aos acidentes aéreos um tom cruel. O transporte mais rápido e limpo vira algo peçonhento, destrutivo ou terrível, e se inventam “causas” e “culpados”, como se isto sanasse a tragédia.
Em Buenos Aires (onde soube do acidente de Santos) recebi do Brasil, pela internet, diferentes invencionices em torno à “sabotagem” que incendiou o avião no ar. A “caixa preta” nem fora encontrada, mas os “inventores de notícias” já conheciam detalhes, como se a mediunidade de Chico Xavier habitasse o disco rígido de seus computadores.
Como conjectura, não seria mais correto pensar num cigarro jogado ao “toillete”, como em 1973, no Boeing da Varig que se incendiou ao descer no aeroporto de Paris?
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Não conheci Eduardo Campos, mas privei com o avô que o levou à política, desde que Miguel Arraes era prefeito de Recife em 1961, logo governador de Pernambuco, mais tarde no exílio, na Europa. De novo governador, Arraes deu ao neto a secretaria da Fazenda e o jovem Eduardo soube gerir a herança do avô. Na ânsia de chegar à presidência, deixou o governo pernambucano e rompeu com o Planalto, ao qual tinha entrado com Lula da Silva. E se fez obstinado opositor de Dilma.
Paradoxalmente, a pressa apressou a morte. O avião teve problemas em junho, mas continuou voando a todos os lados. Os políticos têm uma visão messiânica do mundo (até os que só se aproveitam dos cargos) e é comum que confiem em que tudo se resolve a partir deles, até nos aviões…
A 24 de agosto de 1960, ao lado do então vice-presidente João Goulart e do governador Leonel Brizola, eu estava num DC-3 da Varig que se acidentou ao aterrissar em São Borja sob chuva. Com o aeroporto de terra alagado, Jango sugeriu pousar na pista de relva da sua fazenda e aí nos estatelamos. Houve susto, arranhões e um avião perdido.
Era o sexto aniversário do suicídio de Getúlio, a tragédia maior (também inesperada) que marcou agosto como mês aziago.
Paradoxalmente, a pressa apressou a morte. O avião teve problemas em junho, mas continuou voando a todos os lados. Os políticos têm uma visão messiânica do mundo (até os que só se aproveitam dos cargos) e é comum que confiem em que tudo se resolve a partir deles, até nos aviões…
A 24 de agosto de 1960, ao lado do então vice-presidente João Goulart e do governador Leonel Brizola, eu estava num DC-3 da Varig que se acidentou ao aterrissar em São Borja sob chuva. Com o aeroporto de terra alagado, Jango sugeriu pousar na pista de relva da sua fazenda e aí nos estatelamos. Houve susto, arranhões e um avião perdido.
Era o sexto aniversário do suicídio de Getúlio, a tragédia maior (também inesperada) que marcou agosto como mês aziago.
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No denso nevoeiro de julho de 1950, o candidato trabalhista a governador, Salgado Filho, morreu quando seu avião caiu na fronteira oeste, e o drama recorda o de agora.
Em acidentes com personalidades, porém, a névoa impenetrável é a queda do táxi-aéreo em que viajava o marechal Castelo Branco, em julho de 1967, meses após deixar o Palácio do Planalto, em plena luta interna entre grupelhos militares para controlar o governo ditatorial. O avião caiu ao ser tocado por um jato de combate da Força Aérea, que voltou incólume à base, pilotado pelo filho de um brigadeiro. Sem admitir a hipótese de atentado, a Aeronáutica arquivou o inquérito, inesperadamente.
Agora, espero que o sucessor de Eduardo não transforme a tragédia em inesperada bandeira eleitoral.
Em acidentes com personalidades, porém, a névoa impenetrável é a queda do táxi-aéreo em que viajava o marechal Castelo Branco, em julho de 1967, meses após deixar o Palácio do Planalto, em plena luta interna entre grupelhos militares para controlar o governo ditatorial. O avião caiu ao ser tocado por um jato de combate da Força Aérea, que voltou incólume à base, pilotado pelo filho de um brigadeiro. Sem admitir a hipótese de atentado, a Aeronáutica arquivou o inquérito, inesperadamente.
Agora, espero que o sucessor de Eduardo não transforme a tragédia em inesperada bandeira eleitoral.
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