Artigo ZH
MARIA CLÁUDIA CACHAPUZ
Juíza de Direito, professora universitária
Juíza de Direito, professora universitária
Sendo mãe, esposa e amiga de golfistas, que medem os feitos desportivos por meio de handicaps, fui desafiada a medir o handicap da minha estória particular.
Quanto mais perto de zero estivesse situado meu índice, mais próxima estaria eu do alcance de um feito de vida _ denominado, na categoria, como scratch.
A questão era compreender o que seria este “feito” a cada pessoa. Na medida em que proposta uma generalização, decidi-me a tentar descobrir o que cada um poderia usar como termo de medição: poder, carreira, sabedoria, felicidade.
Pontos de chegada contemporâneos à complexidade da sociedade atual, mas abstratos o suficiente para não se traduzirem num alcance universal.
A solução foi recorrer aos clássicos e buscar na modernidade um conceito capaz de permitir uma generalização que espelhasse o processo de regulagem da vida. Algo que tanto pudesse abranger um desejo de liberdade, como corresponder a um anseio de vida pública, observando tolerância e respeito.
A lembrança veio de Habermas: na autonomia, “a vontade se deixa determinar por máximas aprovadas pelo teste da universalização” (A ética da discussão e a questão da verdade, 2004, p. 12). Para além da liberdade, a autonomia pressupõe algo mais amplo que um conceito de justiça distributiva ou de alcance individual. Exige um exercício de liberdade em que a reciprocidade entre os indivíduos é peça essencial ao desenvolvimento e ao progresso da humanidade.
Ao colocar a autonomia como norte, meu handicap de vida passou a exigir frequente modulação. As instabilidades sociais e políticas do país interferiram de forma significativa para que parecesse uma iniciante no jogo da existência.
Só alcancei um índice relevante porque, visando à autonomia, vi potencializado o livre desenvolvimento à personalidade.
Embora scratch, não alcancei Tiger Woods. Continuo insistindo, por acreditar na contribuição da experiência para uma alteração do índice, havendo ainda um tempo razoável de medição pela frente.
E você? Qual o seu handicap de vida?
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