sexta-feira, 11 de abril de 2014

" A utopia do Dilúvio "

Artigo Zero Hora


A História revelou
que frente ao mal
é preciso justiça,
liberdade e
democracia
ABRÃO SLAVUTZKY*
 
 
A palavra utopia nasce no século 16 _ em que u é “sem” e topos é “lugar”, ou seja, utopia é um lugar que ainda não existe. Utopia é uma ilha imaginada por Thomas Morus, humanista cristão, que em 1516 descreveu uma sociedade cooperativa sem a presença do mal. Sua famosa obra ficou conhecida como Utopia, em que o personagem principal é um sábio marinheiro. Ele faz uma crítica social à propriedade privada e ao dinheiro, e nessa ilha imaginária a justiça é uma forma de promover o bem diante do poder autoritário.

Thomas Morus também combatia as desigualdades e as injustiças sociais, que seriam superadas pela fraternidade e uma nova educação. A utopia não é só a imaginação de uma sociedade ideal, na verdade é mais uma crítica à realidade existente. Há uma denúncia dos males sociais, é uma acusação contra o egoísmo, contra a violência dos poderosos. Morus foi um rebelde, teve como objetivo protestar contra a fragilidade dos laços sociais, em que o dinheiro passou a ser a mola que movia o mundo. A utopia de um mundo melhor foi nos séculos passados um motor da ação humana. Os sonhos utópicos de uma sociedade mais justa, a esperança de um novo mundo, tiveram conquistas e também esbarraram na crueldade.


Já no recente século 20 a utopia sofreu reveses e a morte de milhões de pessoas. Foi a busca entusiasmada na criação de sociedades ideais onde os fins justificavam os meios. Há nos tempos atuais uma certa perplexidade sobre os caminhos políticos, mas, por outro lado, a construção do futuro, felizmente, é mais modesta.

Vários estudiosos afirmam que a utopia nasceu na Grécia. Talvez ela tenha começado no Dilúvio, como revela o filme Noé ou a leitura dos capítulos 6 e 7 do Gênesis, no Velho Testamento. O Todo-Poderoso buscou erradicar o mal da Terra e, após a tentativa fracassar, Ele diz que nunca mais amaldiçoará a raça humana. Não mais destruirá os seres vivos, pois as pessoas só pensam em coisas más (8, 21-22). O Dilúvio não teve êxito como tentativa de destruir o mal. Logo, a primeira utopia foi a esperança de criar uma nova sociedade a partir de Noé e sua família. Já li interpretações exaltando a paciência divina que suportou o mal de 10 gerações, antes de enviar o Dilúvio. Numa opinião profana, creio que o Todo-Poderoso não gostou de ter criado o homem porque ele era mau, e o Dilúvio iria matar todos os malvados. Desistiu, pelo fracasso de seu intento.


dilúvio e a arca


A História revelou que frente ao mal é preciso justiça, liberdade e democracia. O mal não será eliminado, mas todo ato cruel deve ser julgado. Já a esperança permanece como princípio e deve ser construída por todos no dia a dia. Um exemplo foi a reportagem especial deste jornal no dia 8 de abril: “O mundo ainda tem salvação”. No meio de más notícias diárias, já era hora de mostrar a solidariedade. Obrigado aos que apareceram nessas páginas trazendo brisas primaveris antes do tempo.

*Psicanalista

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