MARTHA MEDEIROS
A moça me escreveu do Rio de Janeiro, onde
recentemente havia prestado concurso para um banco. Estava indignada, pois uma
das questões da prova era de interpretação de texto – um texto meu – e ela não
se conformava de ter errado. Havia marcado alternativa A, e o gabarito acusava
que a resposta correta era a D. Ela me enviou a questão e perguntou: estou tão
louca assim?
Nada louca. Eu teria marcado a questão A também, mas
interpretação de texto é das coisas mais subjetivas que existe, não entendo como
ainda consta de provas. Que em sala de aula se discuta o assunto, está certo,
mas provas são eliminatórias, e a chance de se promover uma injustiça é grande.
A moça que me escreveu foi injustiçada, assim como vários colegas dela que
também não marcaram a resposta que a banca elegeu como a correta.
Lamento esses transtornos, mas ao mesmo tempo vibro quando me vejo
inserida na sociedade por vias assim pitorescas. Inúmeras ocasiões profissionais
me trouxeram orgulho – sessões de autógrafos, adaptações de teatro, palestras –
mas é completamente diferente quando você se depara, por exemplo, com seu nome
numa revista de palavras cruzadas, o que também já aconteceu. Virar desafio de
palavras cruzadas, assim como motivar questões de provas, me faz sentir a
própria Valesca Popozuda. É sinal de que você caiu na boca do povo. No melhor
sentido.
Se já vivi essas duas experiências, digamos, mais populares,
agora cheguei lá: meu nome está na letra de um hit da banda Bochincho. Você não
conhece a banda Bochincho? Somos dois alienados, eu também não conhecia.
Bochincho é um grupo de fandango que acaba de lançar a música Tá Querendo eu
Dou. Narra a história de uma menina que se faz de grande coisa, mas está longe
disso. Diz a letra: “Eu chamo no bate-papo/ Ela paga de santinha/ Frase de
Martha Medeiros/Fazendo o tipo certinho/ Mas no fundo é bandida/ E não rola nada
sério”.
Não é um poema?
Ok, sem gozação. Uma ouvinte de rádio
escutou a música e logo me comunicou por e-mail, não sem antes alertar de que
talvez eu me chateasse. Ora, por que iria me chatear? Achei divertido. Pouco
importa que não seja o tipo de som que eu costume ouvir, o que vale é a farra, o
inusitado, a graça da coisa. O fato de a personagem da música querer se passar
por certinha e me citar para conseguir isso é um caso a ser levado para a
terapia.
Para a minha terapia. Ando mesmo sem assunto no divã, então
esse viria a calhar: quanto me vale essa imagem de “certinha”? Não seria um
cárcere privado? Acho bem saudável possuir um lado fandangueiro também, já que
no céu só o que se ouve são violinos e harpas, e ninguém quer pegar no sono tão
cedo. Um arrasta-pé no inferno, vez que outra, não há de manchar severamente meu
currículo.

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