segunda-feira, 28 de abril de 2014

" Da Angústia "


Numa caminhada vespertina, escutei de uma amiga querida e cheia de talento que a sua angústia era às vezes avassaladora. Confesso que me espantei (sou eu mesma, caros leitores, uma angustiada-mor) porque essa amiga sempre me pareceu uma flor de serenidade, e muitas vezes, subindo pelo teto do meu quarto, pensei nela como um ideal de equilíbrio a ser alcançado. Demos muitas voltas nós duas naquela caminhada, e não fizemos apenas as nossas pernas trabalharem.

Ora, todo o criativo é um ser angustiado por natureza. O ato de criar é em sua gênese um ato de não conformidade. Quando eu crio alguma coisa – seja um romance, uma música ou um vestido – é porque não estou satisfeito com aquilo que já existe e que se encontra ao meu alcance. Eu busco alguma coisa ainda não vislumbrada, e é a minha angústia com o que me rodeia, ou o meu olhar sobre essa angústia, que me faz ir em frente – ou seja, criar. Com os anos, aprendi a respeitar a angústia, pois ela me abre a porta das possibilidades.

A angústia é a mola propulsora da minha criatividade, o grande problema é lidar com ela. Quando fico muito tempo sem escrever, esse sentimento que serve como azeite para as minhas engrenagens mais profundas e impalpáveis, costuma vazar para outros espaços e, por vezes, causa os seus problemas – bem utilizada, correndo pelo cano do trabalho criativo, a minha velha angústia é como a água saindo pela torneira: é fundamental no meu dia a dia.

O problema é quando ela escapa da tubulação, infiltrando-se pelas paredes da minha vida real, alagando espaços estanques, confundindo tudo. Às vezes acontece – talvez por isso eu esteja sempre às voltas com um novo enredo, um livro infantil ou romance a ser terminado. Dançamos, minha angústia e eu, um infindável tango pelos dias e noites, e ocasionalmente até fazemos bonito, senhoras e senhores. Às vezes, eu a guio; noutras – a maioria – é a angústia quem me guia. E eu lembro de Nietzsche e simplesmente me deixo levar.

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