sábado, 19 de abril de 2014

"Aquela Foto "

Não sei o quanto a história é verdadeira, mas sendo boa, precisa?
 
< não dá para transferir para o smarthphone o prazer de tocar um velho álbum de registros especiais >
 
O velho italiano descia a serra com a família, um olho na estrada e o outro nos netos, na maior bagunça no banco de trás. O único silencioso era o Ramiro que, encolhido contra a janela e encantado com a beleza da paisagem, de celular em punho, fotografava sem parar. Adepto convicto do efeito multiplicador do xingamento coletivo, o avô esbravejou: "Vamos calar a boca um minuto pra dar um sossego pros meus ouvidos, e você vê se para de gastar filme à toa!".
Um remanescente do tempo em que o entusiasmo pela foto era regulado pelo preço de cada imagem que se mandasse revelar daquele rolo que tinha número restrito e cheiro bom!
Com a facilidade da foto digital a custo zero, se passou a fotografar muito e tudo, mas se perdeu o prazer tátil da imagem arquivada para aquelas revisões periódicas, em geral despertadas por surtos de saudade incontrolável. Apesar de as modernas imagens estarem acessáveis no disco rígido, não se imagina transferir para o laptop ou iPhone aquele abraço carinhoso com que tantas vezes envolvemos o velho álbum de fotografias especiais.
Haverá quem ache bobagem, mas muita gente acredita que tocar, mais do que ver, ajuda a acelerar o coração. Talvez por isso pareça meio monótono o desfilar das fotos dos nossos pimpolhos no iPad, fotografados à exaustão como se estivessem ensaiando para a promissora condição de popstar.
Nos hospitais pediátricos há o hábito de se colocar no mural uma penca de crianças sorridentes, como a lembrar que aqueles pirralhos de olhos assustados da terapia intensiva já foram lindos assim e, o mínimo que esperam de nós, é que lhes devolvamos a alegria.
Quando a Clarice, com seus quatro aninhos, internou numa unidade de cirurgia cardíaca pediátrica, num hospital público no Rio, a pobre mãe retirou da bolsa uma fotinho meio amassada, para que a sua pequena também figurasse no painel do corredor de entrada da enfermaria. A cirurgia, considerada inevitável para corrigir um defeito congênito grave, tinha sido protelada por várias razões, mas agora, dormindo sentada, com barriga distendida e as perninhas inchadas, não havia mais o que esperar.
No final da operação, o experiente cirurgião reforçou a sua preocupação com a má condição clínica e os sinais evidentes de insuficiência hepática. Depois disso, a Clarice nunca mais acordou e morreu após oito dias de tentativas inúteis de frear a falência de múltiplos órgãos.
 
 
Como ocorria em todos os finais de semana, a secretária do serviço de assistência social removeu do painel as fotos das crianças que tinham recebido alta hospitalar ou morrido.
Foi a última vez que alguém pôs os olhos nos olhos tristes daquela menina pobre. Um mês depois, o pai procurou o cirurgião para reconhecer o esforço feito para salvar a sua filhota e pedir um favor: a mãe decidira construir no quartinho vazio um pequeno altar em memória, e eles precisavam daquela foto que ficara no hospital, única que eles tinham para lembrar a filha amada. O cirurgião que me contou esta história chorou ao lembrar o quanto tinha chorado no desespero de consolar o inconsolável.

Ilustração: Edu Oliveira

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