Artigo Zero Hora
O que explica
a gigantesca
quantidade
de pichações e
violência contra
estátuas e
monumentos?
a gigantesca
quantidade
de pichações e
violência contra
estátuas e
monumentos?
ROQUE JACOBY*
Tu apontarias um spray contra o rosto do Laçador, ou derrubarias a estátua de Elis Regina ou implodirias a estátua equestre de Bento Gonçalves? Se eles pudessem reagir contra seus agressores, possivelmente não. Já imaginaste ser perseguido por Bento Gonçalves de espada em punho? Ou ser xingado pela pimentinha, ou ainda tomar um rebencaço do Laçador?
Esperamos que isto não aconteça. Afinal, Bento Gonçalves ainda é um herói de nossa resistência farroupilha, Elis Regina ainda é o símbolo de nosso talento musical e o Laçador continua sendo representativo de nossa identidade. Estas estátuas são heranças culturais que esperamos permaneçam e sejam referência por muitas gerações.
| ELIS REGINA |
Existem muitos casos de depredação completa dos estatuários oficiais pelo mundo todo, isto costuma acontecer quando essas estátuas deixam de representar os valores das comunidades onde elas estão inseridas. A derrubada da estátua de Saddam Hussein em 2003, em Bagdá; a implosão dos Budas gigantes no Afeganistão feitas pelas forças talibãs em 2001; a destruição da estátua de Joseph Stalin em Budapeste em 1956; a derrubada da estátua equestre de Luís XIV em 1792 em Paris. Esses, entre muitos outros casos, ganharam notoriedade mundial e servem para que reflitamos sobre a deliberada destruição das estátuas e monumentos em nossa própria cidade.
Os exemplos de convulsão social extrema, citados acima, como a queda da Bastilha, a libertação de países sob a dominação soviética, ou ainda atos de repúdio à cultura asiática no Oriente Médio são contundentes. Os vândalos e pichadores da nossa capital não são talibãs, tampouco são vítimas da asfixiante dominação soviética e muito menos seriam os protagonistas da queda da Bastilha.
Pichar o valor da passagem de ônibus no Laçador ou nas paredes do Paço Municipal como ato ideológico representa a minoria de nossos casos de vandalismo; são atos de extremistas que poderiam justificar-se caso a sociedade não tivesse amplos canais de participação democrática, ou houvesse o sistemático cerceamento autoritário da opinião, como acontece em ditaduras até hoje, ou ainda, se o voto dos cidadãos não determinasse quem os representa.
Mas, afinal, o que explica a gigantesca quantidade de pichações e violência contra estátuas e monumentos em todos os bairros de Porto Alegre? Parece-nos ser a mais atávica e não ideológica das motivações: uma doentia e criminosa competição entre os “especialistas em pichação”, na qual o vencedor, mais viril, astuto e habilidoso, supera o outro. Como em um ranking de competidores de um videogame: a cada vez que limpamos o monumento ou a fachada do prédio histórico, isto é interpretado como zerar o ranking e recomeçar a competição.
Precisamos empreender um enorme esforço de conscientização, com o apoio dos formadores de opinião, através de mídias, de processos educacionais e até mesmo de punições mais criativas e/ou severas para quem vandaliza os nossos monumentos. Caso contrário, continuaremos a andar tristemente por entre arte depredada, muros e prédios pichados e praças que não sabemos quando começaram a existir ou qual nome teriam. Só nos resta uma irrefutável pergunta: como agredir uma estátua ou um monumento pode ser demonstração de coragem e/ou astúcia se essas preciosidades estão lá, indefesas?
Nós, sim, podemos defendê-las…
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