Artigo - Zero Hora,Dominical
Um dilema ou uma
escolha: remunerar
quem tem ações ou
beneficiar todos os
donos da Petrobras?
escolha: remunerar
quem tem ações ou
beneficiar todos os
donos da Petrobras?
moises.mendes@zerohora.com.br
Contam que a Petrobras teria matado Paulo Francis. Em 1996, o jornalista disse na TV que os diretores da estatal tinham dinheiro na Suíça. Toda a direção entrou na Justiça, em Nova York, com pedido de indenização por danos morais.
A lenda diz que Francis se deprimiu quando viu que entregaria a poupança de uma vida toda aos autores do processo. Sem provas, teve um infarto e morreu em 1997. Aconteceu durante o governo FH, quando a Petrobras também levava bordoadas de todo lado.
Hoje, o que se diz é que a Petrobras pode matar do coração milhões de acionistas. Todo ano, a Petrobras, endividada e sem o retorno esperado para os investimentos que fez, perde valor de mercado.
Mas esse é um cenário recente. Você, que comprou ações da empresa em 2000, com parte do saldo no FGTS, sabe que nunca ninguém ganhou tanto dinheiro. Nem os fabricantes de ovos de chocolate lucraram tanto quanto os acionistas da Petrobras.
De 2000 a 2007, a valorização passou dos 900%. Quem aplicou R$ 50 mil, em sete anos estava com mais de R$ 500 mil. Tenho colegas que compraram sobrado na Bela Vista com o dinheiro das ações. Eu andava distraído em 2000 e perdi o prazo para ser sócio da Petrobras.
De 2000 a 2007, a valorização passou dos 900%. Quem aplicou R$ 50 mil, em sete anos estava com mais de R$ 500 mil. Tenho colegas que compraram sobrado na Bela Vista com o dinheiro das ações. Eu andava distraído em 2000 e perdi o prazo para ser sócio da Petrobras.
Ganhou mais quem pegou o rendimento acumulado e saltou fora em 2007. Desde aquele ano a cotação das ações vem caindo. A revista Exame fez as contas: quem aplicou R$ 100 mil no início de 2007 tinha R$ 84 mil até o dia 3 deste mês. Pior: quem aplicou a mesma quantia em 2010 viu o valor ser reduzido à metade.
Quem ainda tem dinheiro do FGTS na Petrobras quer saber o que faz agora. Ninguém sabe. As ações se recuperaram um pouco nos últimos dias, mas como ficarão mais adiante? Este texto não é sobre previsões, mas sobre como a Petrobras está sempre sendo malhada, sob a acusação de ter matado Paulo Francis e de querer agora matar o Brasil.
A Petrobras era a mãe generosa da bolsa brasileira. Grandes e pequenos investidores ficaram desamparados quando a estatal passou a perder valor. O mercado a acusa de ter traído os acionistas: ao invés de potencializar lucros e ações, a empresa foi usada pelo governo para segurar os preços dos combustíveis e a inflação.
A Petrobras pode dizer: o lucro financeiro, econômico e social é a gasolina menos cara para todos, porque todos são donos da empresa. O mercado responde: quem está em bolsa deve trabalhar pelos acionistas. Mas até que ponto?
O empresário Jorge Gerdau Johannpeter foi conselheiro da Petrobras. Disse a ZH, em entrevista ao Caio Cigana, que uma empresa de Estado cumpre, obviamente, funções determinadas pelo Estado.
Quem está no controle do Estado deliberou que a Petrobras deve compartilhar seus benefícios com todos (administrando com mão de ferro o preço dos combustíveis, por exemplo), e não só com o mercado. A questão é que, para agradar a maioria, a empresa pode ter perdido o ponto de equilíbrio. E o mercado puniu a Petrobras.
Há cinco anos, a estatal era, em valor de mercado, a 12ª maior empresa do mundo. Hoje, está em 120º lugar. Mas outras grandes empresas brasileiras, inclusive bancos, perderam valor nos últimos anos. O mercado recomendava a OGX de Eike Batista, mas a OGX se evaporou.
Empresas de petróleo, estatais ou privadas, não serão nunca, no Brasil, na Venezuela, nos Estados Unidos ou no Azerbaijão, apenas questão de mercado. Administrar uma estatal como a Petrobras é, como observou Gerdau, submetê-la também ao que ele chama de “macropolítica de governança”.
A Petrobras de Getúlio, de Itamar, de FH, de Lula e de Dilma não será somente uma empresa de bolsa. É ilusório e enganoso imaginá-la como uma OGX.
*****
É claro que você deve estar pensando na compra da refinaria de Pasadena, para ver onde as suspeitas em torno do negócio se encaixam na lógica da empresa de Estado de que fala Gerdau.
Por honestidade intelectual, como se dizia antigamente, não dá para forçar a barra. O episódio de Pasadena, sob investigação (e que pode, quem sabe, virar caso policial), é parte do debate sobre o papel de uma estatal do petróleo que estará sempre sob questionamento, sendo o governante Lula ou FH. Mas dá para tentar transformar a Petrobras numa OGX por causa de Pasadena? Menos, menos.
Até em creches se sabe que nos Estados Unidos o petróleo pode não servir para controlar a inflação, mas se presta para acionar guerras e invasões. Não se brinca com o poder do petróleo. Só que tudo isso, dirá alguém, é conversa de gente sem noção em mesa de bar da Cidade Baixa.
Por honestidade intelectual, como se dizia antigamente, não dá para forçar a barra. O episódio de Pasadena, sob investigação (e que pode, quem sabe, virar caso policial), é parte do debate sobre o papel de uma estatal do petróleo que estará sempre sob questionamento, sendo o governante Lula ou FH. Mas dá para tentar transformar a Petrobras numa OGX por causa de Pasadena? Menos, menos.
Até em creches se sabe que nos Estados Unidos o petróleo pode não servir para controlar a inflação, mas se presta para acionar guerras e invasões. Não se brinca com o poder do petróleo. Só que tudo isso, dirá alguém, é conversa de gente sem noção em mesa de bar da Cidade Baixa.
*Jornalista

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