sábado, 12 de abril de 2014

" Viva la muerte "

Artigo

Zero Hora

A força
impõe-se, mas
não perdura;
esmaga, mas
não constrói
ADROALDO FURTADO FABRÍCIO*
 
 
A 22 de outubro de 1936, Miguel de Unamuno, “Reitor Perpétuo” da Universidade de Salamanca, presidia uma solenidade cívico-acadêmica no histórico auditório quando, sem mais conter-se ante a ferocidade irracional dos discursos e intervenções da plateia predominantemente fascista, tomou a palavra, a despeito de não estar programado seu discurso. Exaltou o primado da inteligência e do saber, em cujo templo, lembrou, estavam todos, sendo ele o sacerdote.


Interrompido por um general da recém-instalada ditadura franquista _ melhor não lembrar seu nome _ com gritos de “Muera la inteligencia! Viva la muerte!”, ainda mais se indignou o sábio, censurando a boçalidade e o absurdo daquele brado e retrucando: “Viva la vida!”. O que lhe custou o título e a liberdade, talvez mais: ali mesmo o massacrariam os fascistas, não fora o socorro prestado pela mulher de Franco, presente ao ato. O grande pensador sobreviveu ao episódio apenas uns dois meses, em prisão domiciliar.
A maior parte dos revolucionários espanhóis certamente rejeitaria, no início do movimento franquista, o pregão inacreditável que Unamuno qualificou de “insensato e necrófilo”. Um projeto totalitário talvez não imagine, em seu início, os horrores extremos a que pode chegar, sejam os sinistros porões das ditaduras sul-americanas, o Arquipélago Gulag, Auschwitz ou o paredón dos irmãos Castro. As boas intenções _ de “arrumar a casa” e devolver o poder a quem de direito _ nunca prevalecem; a escalada da violência alimenta-se de si mesma e não admite retrocessos.
Convém, pois, meditar maduramente (nada a ver com o caudilho chavista!) antes de aderir à rediviva “marcha pela liberdade” ou ceder ao canto de sereia dos paraísos da esquerda. Boas intenções nem sempre produzem bons frutos _ delas se diz que está pavimentado o inferno. Um sonho generoso de igualdade e fraternidade, irresistível talvez em suas promessas, facilmente se degrada em pesadelo quando se trata de levá-lo à prática. E quem chocar o ovo da serpente terá de haver-se com os seus filhotes. Ou, como na mesma Espanha se diz, “cría cuervos y te sacarán los ojos”.
A força, de resto, impõe-se, mas não perdura; esmaga, mas não constrói. Vence mas não convence, como profetizou o pensador espanhol, olhando na cara os falangistas poderosos e enfurecidos que lhe afrontavam a casa.




*Ex-presidente do TJRS, advogado, jurista

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