MOISÉS MENDES
Artigo Zero Hora
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Moisés faz os últimos preparativos para iniciar a travessia. Um homem surge na planície, mistura-se aos judeus e indaga:
_ Quem entre vós anda anunciando que irá abrir as águas do Mar Vermelho?
Alguém aponta para um barbudo, e o homem vai conversar com Moisés. Aproxima-se, com um maço de pergaminhos amarrotados sob o braço, e questiona:
_ Estou mesmo diante daquele que promete realizar o maior milagre da humanidade?
_ Sim, sou eu. Por determinação divina _ diz Moisés, meio desconfiado.
_ E você fará esse milagre sem que ninguém fique sabendo?
_ Quem precisa saber é o meu povo _ responde Moisés.
O homem retruca:
_ Os tempos são outros, é preciso usar a comunicação, as redes sociais.
Moisés franze a testa, como se imitasse Charlton Heston no filme Os Dez Mandamentos. O homem mostra os pergaminhos encardidos, argumenta sobre o poder da palavra escrita e propõe:
_ Não sou judeu, mas você me leva junto para o outro lado e eu lhe garanto um bom espaço num livro que uns caras aqui de perto estão escrevendo. Se algo der errado na travessia, a gente dá um jeito.
Foi assim que Moisés ganhou páginas e páginas no Antigo Testamento. Se não fosse aquele homem, não teríamos esse relato: “Então Moisés estendeu a sua mão sobre o mar, e o Senhor fez o mar recuar com um forte vento vindo do Oriente toda aquela noite”.
Surgiu ali o marqueteiro. Pode ser deste mesmo assessor a conta de que 600 mil homens estavam na caminhada à terra prometida, sem contar crianças e mulheres, porque dizem que naquele tempo não se contavam mulheres e crianças.
Mas quem garante que foi esse mesmo o número dos que seguiram Moisés? E como duvidar deste número, se não existia o Datafolha para contestar a anotação do assessor? Imagine a Bíblia tendo que dar correção.
Agora, pense o seguinte: como, 3 mil anos depois de Moisés, é possível que a passeata de domingo em São Paulo possa ter contado com a participação de 1 milhão de pessoas, segundo a Polícia Militar tucana, ou 200 mil, segundo o Datafolha, incluindo mulheres e crianças?
Onde foram parar quase 800 mil pessoas sumidas no mar (que, claro, não era vermelho) da matemática da Avenida Paulista? Afogaram-se? Por que manipulam, de forma tão grosseira, até o número das multidões? Moisés sabia que os pântanos da política são mais traiçoeiros do que os mares da fé e da religião.
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