Artigo Zero Hora
16 de março de 2015
JAYME EDUARDO MACHADO
Jornalista, ex-subprocurador-geral da República
Abandonando pruridos e desdenhando estigmas, os brasileiros despiram-se de todos os temores, e o país transformou-se numa praia despudorada de “coxinhas” de fora. A população brasileira, qual noviça recatada que se envergonhava ao se inclinar para espiar pelo buraco da fechadura a extensão da bandalheira, encorajou-se. Suspendeu o hábito para além da penugem das canelas, e revelou as “coxinhas” ao cinismo ideológico das patrulhas ” salvem a Petrobras”!
Agora, não há mais nada a esconder, mas ainda há tudo a apurar. Pedidos formais de impeachment são tão emocionais e improváveis como foi o do “papudeiro” Zé Dirceu, que em 1992 bradava que presidente sem ética nem competência se afasta no alarido das ruas e não nos convescotes do Congresso. O povo brasileiro não está emocionado, o povo brasileiro está encorajado a mostrar o que é e o que quer. Um Brasil democrático, limpo, sem rancores, sem revisionismo revanchista, sem continuísmo oportunista, sem divisões entre pobres e ricos, pretos e brancos, homoafetivos e homofóbicos.
Com crescimento econômico, sem inflação, com pleno emprego. Quem ainda não percebeu que a combinação entre economia em queda e escândalos em alta é explosiva, nunca vai entender porque os “coxinhas” foram para as ruas.
Falando sério, conta-se que ontem à tarde um desses videntes que são procurados pelos políticos de Brasília quando colhidos no contrapé dos desvios de conduta, jura que viu Confúcio _ sim, o filósofo chinês _ sorvendo um chazinho numa esquina da Avenida Paulista. Surpreso, perguntou-lhe o que estava fazendo ali. Ora,
respondeu, sempre me interessei pelo tema da harmonia do corpo social, e como isso anda escasso por aqui, decidi dar uma conferida e, quem sabe, se o Planalto se interessar, dar uma mãozinha para a turma. Foi quando o vidente foi direito ao que interessava. Senhor, por favor, fale-me do governo. O chinês foi rápido na resposta: o povo deve ter o suficiente para comer; é preciso um exército suficiente; é preciso que o povo confie no governante.

E se fores forçado a sacrificar quaisquer desses objetivos, com o que ficarias? Ora, concluiu Confúcio, houve sempre mortes em cada geração, seja por falta de exército, seja por falta de alimentos. Mas nenhuma nação sobrevive sem confiança no seu governante. Para o vidente foi a confirmação de uma desconfiança no presente, para o filósofo, a quase certeza do desfecho de um futuro.
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