domingo, 15 de março de 2015

" Cegos e Fanáticos "

Artigo| CEGOS E FANÁTICOS

14 de março de 2015
Flávio TavaresFLÁVIO TAVARES
Jornalista e escritor
O crime maior da roubalheira na Petrobras não é o assalto em si. No roubo comandado pelo trio PT-PMDB-PP, os bilhões do butim são apenas a prova material da corrupção.
 O crime maior é a gangrena partidária que leva à morte da política. Transformados em quadrilha desde o governo de Lula da Silva, os três partidos (e antes o PSDB, no tempo de Fernando Henrique) criam o caminho perverso de desacreditar os políticos e a política ao forjar um conluio sórdido com grandes empresas privadas.
Localizada a extensa gangrena, parece até que a sociedade rasteja rumo ao horror. E se abre caminho à cegueira fanática que inventa sem penetrar na realidade.
De um lado, o fanatismo dos que querem tapar tudo, como se o pedido para investigar parlamentares, governadores e ministros surgisse do nada. Ou como se o procurador geral da República fosse um boneco-espantalho afugentando pássaros no campo. O presidente do Senado, Renan Calheiros, do PMDB, sugeriu até uma CPI para investigar o Ministério Público Federal… Agora, quer impedir que Rodrigo Janot permaneça no cargo, ao concluir o período de procurador geral, em setembro.

Outro a ser investigado, o presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha, também do PMDB, foi aplaudido pelos colegas, ao defender-se antecipadamente no parlamento. A cegueira torna-se ultrajante quando nenhum dirigente dos três partidos diretamente implicados repudiou a roubalheira.
O PP gaúcho saiu em defesa dos seus seis integrantes a serem investigados, ainda que um deles, José Otávio Germano, apareça entre os “hegemônicos” da rapina. Só a senadora Ana Amélia (isoladamente e por faro jornalístico) julgou natural apurar tudo.

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De outro lado, o fanatismo que prega o “impeachment” se escora numa fantasia (ou mentira) absurda, como se Dilma criasse obstáculos a investigar a fraude do consórcio tripartite. A ojeriza ao PT, que se estende até a grandes beneficiários da atual política econômica, talvez explique essa simplificação absurda. Mas a cegueira fanática (que atribui ao PT todos os males _ da seca à enchente, da diarreia à prisão de ventre) foi gerada, em parte, pelo pedantismo do próprio partido, que se exibia como elixir reconstituinte do país e acabou por inocular-se com o vírus que dizia combater.
Querem o “impeachment” para quê? Para levar à presidência o vice Michel Temer, caudilho da arrepiante estrutura atual do PMDB? Ou, na ordem sucessória, para lá colocar Eduardo Cunha, presidente da Câmara Federal, ou Renan Calheiros, do Senado, ambos suspeitos de beneficiários do roubo? Ou Ricardo Levandowski, presidente do Supremo, um dos brandos no juízo do “mensalão”?
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Imparcial, a presidente Dilma não interfere na investigação, mesmo consciente de que o roubo alheio pode ricochetear nela. No entanto, a CPI da Câmara de Deputados parece o contraponto da minuciosa investigação do Ministério Público e da Polícia Federal, com a qual o juiz Sérgio Moro desbaratou a quadrilha.
Na CPI, tudo é espetáculo. Ex-diretores da Petrobras recitam “confissões” em público, como atores no palco. O ex-gerente Pedro Barusco (hoje delator premiado) exibiu-se como “arrependido” pelo desvio de centenas de milhões de dólares.
“Autorizei…”, narrou em detalhes, como se roubar necessitasse de autorização! Tranquilo como num happy hour de fim da tarde, contou ter devolvido os 97 milhões de dólares que lhe tocaram do roubo geral e maior.
Tanta naturalidade ao narrar o crime só pode esconder outro crime, ainda maior. Quantos milhões, ele e outros “delatores premiados” têm escondidos ainda no Exterior em nome de terceiros?
Os grandes assaltantes não são fanáticos nem cegos (como os que gritam pelo “impeachment”), mas exímios atores. Cuidado com ambos!

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