sábado, 2 de agosto de 2014

" Saberes e Sabores "

Artigo Zero Hora


JAYME EDUARDO MACHADO
Jornalista- ex-subprocurador-geral da República
Na frieza dos números e perfis dos eleitores brasileiros, segundo divulgação do Tribunal Superior Eleitoral, percebe-se o crescimento de uma parcela apta a votar geralmente relegada, pelo descompromisso, ao esquecimento das urnas. Pois são exatos 10.824.810 os que atingiram ou superaram os 70 anos de idade.
 
 Então, basta aos vovôs saudosos da velha cédula com o nome do candidato não se assustarem com a maquininha eletrônica para provar, nas urnas, que no mínimo ainda mantém a sua ereção cívica, pois dela o país continua carente.

O otimismo de Rubem Alves, que há pouco nos deixou ao alcançar o degrau dos oitenta anos no auge da criação de uma obra literária expressiva especialmente no campo filosófico e pedagógico, nos falava da idade dos saberes e da idade dos sabores.
 
Para o eleitor dos 70 anos em diante, é chegada a hora de degustar o merecido alívio da desobrigação. Tanto mais se for minimamente politizado, pois é desanimador constatar que o cumprimento de um dever legal imposto desde os dezoito anos, se não o fez conivente com os desmandos da política e dos maus políticos, também desnudou-lhe a impotência para mudar o quadro indesejável.

Entretanto, o sabor da desobrigação do voto bem que pode ser trocado pelo da liberdade para votar, que também tem gosto. Gosto de ser útil, sabor especial de poder influir. Percebam que o resultado da obrigação que se extinguiu não é necessariamente o direito de não votar, mas também o de votar sem imposição. É um sopro de liberdade, e só ela desperta os sabores daqueles saberes que o velho eleitor adquiriu pela experiência de venturas e desventuras de tantos votos por obrigação.

Omitir-se pela decepção significa renúncia à liberdade conquistada e desperdício da experiência acumulada. Isso é tão inútil e ineficaz como o voto em branco ou a sua anulação. Aliás, sequer você terá o direito de ser ranzinza – e disso velho que se preza não abre mãos – falando mal dos políticos, pois haveremos de concordar que quem se omite perde a razão para reclamar.

Enfim, na observação do jovem presidente do TSE, a má notícia é que o eleitorado brasileiro envelheceu. Pois então vamos lhe provar que, se infelizmente envelheceu, felizmente não emburreceu.

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