"Resiliência é a capacidade de superar uma adversidade e sair dela ileso
"Pior do que a rudeza dos maus tratos, é nunca provar o encanto da reciprocidade de afeto"
Os garotos que conheci, quase 20 anos depois, nasceram irmãos, separados por 11 meses. Eles ultrapassaram todas as barreiras da seleção natural para sobreviver à gincana diária de miséria num casebre da periferia, onde compartilharam fome e desesperança com mais umas oito pessoas que compunham aquilo que ninguém se animaria a chamar de família. O pai, um alcoólatra que batia regularmente nos filhos, fez o favor de poupá-los do seu desamor quando morreu de cirrose, antes dos 40 anos.
Quando o casebre foi invadido por um traficante — que cismara que seu desafeto escondera drogas no colchão —, a mãe se atravessou para defender os filhos adolescentes que tentaram interromper a invasão e foi brutalmente assassinada na frente da prole. Depois disso, a família foi dissolvida em abrigos, reformatórios e centros de adoção. Ninguém mais soube dos outros até que a doença do Roney, um dos meninos, forçou a busca de parentes.
No tratamento de uma leucemia, a necessidade de um transplante exauriu as possibilidades de um doador cadastrado no Banco de Medula Óssea. O incansável pessoal da assistência social saiu a campo na tentativa meio desesperada de reconstruir o caminho da debandada familiar. O Roney, que por ocasião da morte da mãe tinha quatro aninhos, recordava bem de um dos irmãos, chamado Rodrigo. Lembrava também que era dele que gostava mais.
Por sorte, esse irmão constava dos registros de adoção e, se estivesse vivo, ventura que não tiveram três mais velhos, devia morar em Goiânia, para onde fora levado aos cinco anos de idade.
Houve uma excitação na enfermaria quando chegou a notícia de que o Rodrigo tinha sido localizado e estava a caminho com sua nova família.
O encontro se transformou numa cascata de afetos. Primeiro, os dois, que se olharam por um tempo, depois se apalparam e por fim se envolveram num abraço sacudido que terminou por incorporar os pais adotivos que já choravam convulsivamente. Quando começaram os testes, ouvi da funcionária da limpeza: "Que Deus não fale mais comigo, se eles não forem compatíveis!"
Não se sabe o quanto esta ameaça pesou, mas há quem acredite que Deus sabe quando ninguém está para brincadeira e, para evitar bronca maior, resolve ajudar.
Seja lá como for, o certo é que aquela afinidade descoberta lá na infância de miséria compartilhada materializou-se numa compatibilidade perfeita.
Semanas depois do transplante eram vistos, caminhando pelo pátio do hospital. E mais de um funcionário percebeu que frequentemente eles interrompiam a conversa para uma nova sessão de abraços. E ficavam lá aquelas cabeças, uma careca outra moicano, rodando pelo jardim.
Quando li a biografia de Boris Cyrulnik — um psiquiatra judeu francês que definiu resiliência como a capacidade de superar uma adversidade e sair dela ileso —, lembrei do Roney e do Rodrigo.
Boris teve, como eles, uma infância terrível, com os pais assassinados num campo de concentração, de onde ele fugiu com apenas seis anos, empurrado para dentro de uma ambulância por uma mulher que o conhecia.
Uma experiência como esta destruiria a vida da maioria das pessoas, mas ele teve a felicidade de ser resgatado por uma família amorosa, que mais do que sobreviver, deu-lhe alento para se tornar um ícone da recuperação de crianças com infâncias destroçadas pela adversidade.
Com ele, aprendemos que pior do que a rudeza dos maus tratos, é nunca provar o encanto da reciprocidade de afeto.

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