Artigo Zero Hora
GABRIEL WEDY
Juiz federal, professor
Juiz federal, professor
Thomas Piketty causou alvoroço entre os economistas de todo o Mundo com o lançamento do recentíssimo Le capital au XXIe siècle. Nesta obra, o economista francês analisa a renda e a sua acumulação nos últimos 300 anos de capitalismo. A abordagem adotada é no sentido da defesa da economia de mercado e da propriedade privada, mas identifica como sua principal vulnerabilidade a desigualdade na distribuição da renda entre os muito ricos e o resto da sociedade.
E a principal força desestabilizadora do capitalismo, causadora da desigualdade e do desequilíbrio social, estaria relacionada ao fato de que a taxa privada de retorno do capital é significativamente maior que a taxa de crescimento dos salários e da produção. A desigualdade acaba por ser identificada pela riqueza acumulada ao longo das décadas pelos maiores rentistas em comparação com os salários e a produção no mesmo período. Esta contradição faz com que o empresário transforme-se em rentista e proceda com desinteresse em relação às atividades produtivas, geradoras de emprego e distribuidoras de renda.
Para este intricando problema, Piketty propõe como solução a tributação progressiva anual incidente sobre as grandes rendas e a transmissão destas entre as gerações. Esta alternativa impediria a continuação e ampliação da espiral da desigualdade por um lado e, de outro, preservaria a competição e os incentivos para novos exemplos de acumulação baseada na produção. Piketty, sem dúvida alguma, repisa o já referido por Paul Krugman e Joseph Stiglitz, ganhadores do prêmio Nobel de Economia, mas é mais claro e, em que pesem as duras críticas do Financial Times, está calcado em dados robustos.
O problema para a adoção de medidas deste nível, segundo Piketty, tal qual Stiglitz, passa pela classe política no sentido de contrariar os interesses dos detentores das grandes rendas que financiam as campanhas eleitorais nas grandes democracias.
A pergunta que não quer calar é se os candidatos à presidência da República vão segurar ou largar esta batata quente lançada por Piketty? A questão precisará ser debatida com transparência e sem demagogia.
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