FOLHA DE SP -03/08
Achar normal o Brasil crescer 2% é aceitar que não reduzamos nossa distância de bem-estar para os ricos
As últimas revisões que fizemos no Ibre/FGV sugerem que o crescimento do Brasil em 2014 será de só 0,6%. Forte piora no cenário. Consolida-se um crescimento abaixo de 2% ao ano no quadriênio da presidente Dilma. Se o 0,6% se confirmar, o crescimento médio no primeiro mandato de Dilma será de 1,7% ao ano.Quatro anos não é pouco tempo. É difícil argumentar que somente fatores ligados ao ciclo econômico explicam esse desempenho.
O debate público brasileiro tem alinhavado duas explicações para os motivos do baixo crescimento. Em geral, uma delas é preferida pelos analistas que apoiam o atual regime de política econômica, enquanto a outra é da predileção dos críticos.
A coluna no "Valor" de quarta-feira passada do professor titular da UFRJ José Luís Fiori, bem como a entrevista dada no início de julho ao jornal "Brasil Econômico" pelo professor do Departamento de Economia da Unicamp Fernando Nogueira da Costa, são dois exemplos do primeiro ponto de vista.O segundo ponto de vista é bem expresso pelo conteúdo que tenho defendido neste espaço. É útil tentarmos entender as diferenças.
O ponto de partida é lembrarmos que no período FHC crescíamos abaixo da economia mundial, mas acompanhávamos a América Latina. No período Lula, passamos a crescer aproximadamente no mesmo ritmo da economia mundial e da América Latina. No quadriênio de Dilma, cresceremos abaixo de ambos.
O debate é se a América Latina é um bom grupo de referência para avaliarmos as possibilidades e o desempenho da economia brasileira.
A argumentação de Fiori e de Nogueira da Costa é que as economias da América Latina não constituem um grupo de referência adequado para avaliarmos a nossa economia. O motivo é que a estrutura produtiva e a escala da economia brasileira são distintas da maior parte das economias latino-americanas.
Além de sermos muito grandes, somos uma economia que completou a urbanização, a transição demográfica e a industrialização. Essas dinâmicas, que não são independentes, ocorreram ao longo das cinco décadas de 1930 a 1980. A transição demográfica se completa na segunda década deste século, com o fim do bônus demográfico.
Ou seja, não faz sentido, segundo Fiori e Nogueira da Costa, compararmos o crescimento brasileiro aos de Chile, Peru e Colômbia, por exemplo, pequenas economias exportadoras de commodities.
Para eles, o grupo de referência correto para avaliar as possibilidades de nossa economia são os países industrializados e grandes em termos absolutos. Esses países apresentam estrutura produtiva --isto é, participação na produção dos diversos setores (agropecuária, indústria e serviços)-- semelhante à do Brasil.
Ou seja, dado que os países maiores --incluindo EUA, Alemanha, França e Japão-- crescem a 2% ao ano, o crescimento de 2% ao ano é o novo padrão normal de economias grandes em termos absolutos e, portanto, trata-se do nosso atual padrão normal. Dessa forma, não podemos considerar o 1,7% de crescimento na atual conjuntura como sendo pouco.
Diferentemente dos dois autores, minha visão é que o fator mais importante para diferenciar as economias, do ponto de vista de bem-estar e do ponto de vista das possibilidades de crescimento, é a produtividade do trabalho.
A hora trabalhada nos países latino-americanos produz de 1/6 a 1/4 da hora trabalhada nos EUA.
Como argumentei ao longo de diversas colunas, penso que dois são os principais fatores que explicam a baixa produtividade do trabalhador brasileiro. Primeiro, a péssima qualidade do sistema público de educação básica, e, segundo, a pior qualidade do marco institucional e legal.
Como, em relação à América Latina, temos não só níveis semelhantes de produtividade do trabalho como grande paralelismo nas trajetórias de desenvolvimento histórico e institucional, além de dificuldades semelhantes em construir sistemas públicos de educação com qualidade, penso que os países da região formam um bom grupo de referência para olharmos nossa trajetória e nossas possibilidades.
Por outro lado, considerar que 2% de crescimento ao ano seja nosso novo normal por ser o crescimento das economias do G10 representa aceitar normal que nunca reduzamos nossa distância de bem-estar com relação às economias desenvolvidas.
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