segunda-feira, 14 de julho de 2014

" Você gosta de você ? "

              

Aprenda a usar a força da verdadeira autoestima e a distingui-la do narcisismo

 

A autoestima é necessária - e difere do narcisismo. Aprenda a reconhecê-la
 
Uma pesquisa concluída no fim do ano passado pela International Stress Management Association (ISMA-BR) constatou que 59% dos brasileiros sofrem de autoestima baixa (contra 27% dos franceses e 22% dos americanos). Segundo afirmou a psicóloga Ana Maria Rossi, coordenadora do estudo, o resultado pode ser oriundo também da nossa mania de condenar quem costuma se vangloriar de suas realizações, fazendo com que acreditemos que não somos merecedores por nossos maiores feitos e conquistas. Mas, afinal, o que é autoestima?
                      Ingrediente fundamental

Não deve ter sido por acaso que o homem responsável por levantar a bola da auto-estima tenha sido uma criança frágil e doente. Nascido em Viena, em 1870, Alfred Adler se tornou, ao lado de Freud, um dos pais da Teoria da Personalidade. São de Adler conceitos como "complexo de inferioridade" e "complexo de superioridade".

Mesmo que seus conceitos tenham se transformado em chavões, a conclusão do trabalho de Adler permanece fundamental: a essência da nossa personalidade estaria na luta pela superioridade e a autoestima é um ingrediente fundamental para uma personalidade saudável. Daí que, quando nos sentimos muito desamparados ou impotentes, pensamentos normais de incompetência podem assumir proporções devastadoras, fazendo com que deixemos de acreditar que somos capazes de lidar com os desafios da vida. Pronto: estaria instalado aí o complexo de inferioridade. No outro extremo da corda, aquela pessoa que vive se jactando de seus feitos, exagerando suas qualidades com arrogância, pode, na verdade, estar em busca de uma compensação de algo que acredita faltar nela. Como escreveu em seu livro Desejo de Status o filósofo suíço radicado na Inglaterra Alain de Botton, a sede desenfreada por fama e influência pode não passar, na prática, de busca de amor. Ou seja: a luta desesperada por aparentar uma autoestima elevada pode ser fruto do complexo de superioridade, o outro lado da mesma moeda cuja origem também residiria na falta de confiança em si.

Desde então, a falta de autoestima passou a ser vista como o principal detonador dos distúrbios de personalidade. Na década de 1970, campanhas para desenvolver a autoestima entre os jovens foram disseminadas nos Estados Unidos, associações foram criadas e o incentivo ao sentimento passou a ser visto como a solução para a diminuição de quase todos s males.

Tudo parecia correr bem, até que, nos anos 1990, alguns terapeutas colocaram em xeque essas campanhas, acusando-as de estimularem o nascimento de uma geração pedante e egocêntrica. Quando a psicóloga Lauren Slater escreveu no jornal The New York Times, em 2002, o artigo "O problema com a autoestima", questionando toda essa celebração em torno do tema, a autoestima parecia ter passado de mocinha a vilã.

                         Autoestima em baixa

O artigo de Lauren Slater apresentava os argumentos de pesquisadores como Nicholas Emler, da London School of Economics, na Inglaterra, e do psicólogo Roy Baumeister, da Universidade de Princeton. Para Emler, não há prova alguma de que pessoas com baixa autoestima sejam mais incapazes que pessoas com alta autoestima. Ao contrário: "Na verdade, pessoas com baixa autoestima podem até superar seus pares, porque eles sempre dão duro na tentativa de alcançar suas metas", afirma. O psicólogo Roy Baumeister vai além e afirma que excesso de autoestima seria, na verdade, um traço típico de líderes de gangue, assassinos e estupradores. Segundo ele, isso aconteceria porque pessoas com excesso de autoestima tenderiam a ser agressivas quando têm o ego ameaçado.

                              Vem de dentro

Mas todos os estudiosos do tema, independentemente da linha terapêutica, parecem concordar em um ponto: enquanto a genuína autoestima torna a pessoa menos vulnerável a julgamentos externos, a "pseudo autoestima" depende basicamente da admiração e da aprovação dos outros. O problema é que, como os fatores externos não podem ser diretamente controlados por nós, quem se torna dependente dessa aprovação não consegue manter por muito tempo a confiança em si, oscilando entre picos de auto-admiração seguidos de abismos de autodepreciação.

Talvez seja por isso que, além de coragem e realismo para lidar com emoções negativas, outro traço fundamental da autoestima é o sentimento de que somos responsáveis por nossos pensamentos e ações, fazendo com que possamos distinguir, com independência, nossos sentimentos autênticos daqueles que são oriundos do julgamento dos outros.

Na prática, isso não significa, contudo, que devamos ser frios a ponto de ignorar a crítica alheia. Para o neurocientista Dylan Evans, autor do livro Emotion: The Science of Sentiment ("Emoção: a ciência do sentimento", sem tradução brasileira), "algum grau de desconforto diante de uma avaliação negativa é fundamental para que possamos melhorar como ser humano". O problema é que, quando essa tristeza se transforma num monstro paralisante, é aconselhável buscar ajuda de um psiquiatra.

No dia a dia, há quem acredite que existe, sim, um antídoto contra a perda de confiança em nós: honestidade. Quem nos dá um exemplo disso é o monge Tenzin Gyatso, o Dalai Lama, que, apesar de ser considerado um ícone da humildade, garante que não perde a confiança em si sequer quando frustra a expectativa de pessoas que esperam milagres. "Quanto mais honestos, mais francos nós formos, menos medo vamos ter, porque não haverá nenhuma ansiedade quanto à possibilidade de sermos desmascarados ou expostos aos outros. Por isso, creio que, quanto mais honestos nós formos, mas autoconfiança teremos", ensina.


Livros
Teorias da Personalidade - Da Teoria Clássica à Pesquisa Moderna, Howard S. Friedman e Miriam W. Shustack, Pearson Prentice Hall
Emotion: The Science of Sentiment, Dylan Evans, Oxford
Desejo de Status, Alain de Botton, Rocco

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