segunda-feira, 14 de julho de 2014

" Quem sou eu ? "

Falar de nós mesmos é falar do ponto silencioso onde todas as nossas experiências têm origem.
Demitido, o rapaz examina seu currículo antes de enviá-lo na esperança de novo trabalho. Hum... eu não sou isso..., conclui. As atividades que realizou, organizadas em ordem cronológica, não o definem.

Assim é com todos. Nosso corpo muda sempre. As emoções flutuam, os pensamentos esvoaçam, as visões de futuro surgem e desaparecem, o passado é reconstruído momento a momento, o presente é difícil de definir. Mesmo os traumas, as experiências aflitivas ou sedutoras já vividas, passam. Ainda assim, me sinto sendo a mesma pessoa em meio a essas realidades flutuantes. Não me sinto como diferentes pessoas em diferentes momentos... Sinto ser o mesmo.

Mas então, se eu sou o mesmo, o que é que se mantém constante? O que é que nos dá a sensação de existência incessante, se todos os aspectos com os quais nos identificamos passam, são transitórios?

Nasci em Porto Alegre em 1949. Vivi até 18 anos em Rio Grande, RS, onde usava a bicicleta até para ir à praia, o Cassino. Aprendi ioga cedo, por influência de meu pai. Estudei apaixonadamente ciência e religiões em suas várias expressões, com fascinação pelo profundo. Fiz faculdade de Física, disciplina que lecionei na UFRGS a partir dos anos 70. Foi nessa época que surgiu o interesse pelo tema ambiental, que resultou em experiências de comunidades rurais. O aprofundamento do estudo da ciência amadureceu com a filosofia oriental. Me tornei aluno de Chagdud Rinpoche em 1993, que ampliou minha visão e me ordenou lama em dezembro de 1996. Sigo hoje com o coração comovido fitando a natureza livre das pessoas e de todos os seres.

Essas são coisas que aconteceram comigo. Mas será que é isso que sou? O que há de real e contínuo atrás desses mundos mutáveis? Hum... a natureza que cria! Que dá nascimento tanto à lucidez do olhar como às aparências deludidas e seus seres.

Falar de nós mesmos é falar do ponto silencioso e sem conteúdo prévio, origem de nossas experiências e existências flutuantes, e que segue livre, pronto para outras criações. Refúgio incessante, que não flutua. Único apoio certo para quem, com o olhar distante, fita sem ânimo o próprio currículo, no raro momento de liberdade onde não consegue descrever quem é.

Coluna ereta, respiração serena, olhos suaves, energia no corpo e na mente... apenas fluindo a presença incessante e luminosa em meio à infinita riqueza da delusão circundante.


Faça isso, logo, antes que o celular toque trazendo um novo sonho...




Padma Samten é lama budista. Fundou e dirige o Centro de Estudos Budistas Bodisatva, em Viamão- RS < Rio Grande do Sul >

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