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OBRIGADO, ALEMANHA!
ANTHERO SARMENTO FERREIRA
Médico e escritor
Quando eu poderia me imaginar torcendo contra a seleção brasileira? Jamais, eu supunha, até o início desta Copa do Mundo. Mas, as circunstâncias como ela ocorreu, desde o início do projeto, foram repugnantes.
Ora, todos sabemos que somos uma das nações com um dos maiores índices de pobreza do mundo (mortalidade infantil, desnutrição, analfabetismo, violência, corrupção, etc.).
Paradoxalmente, somos também uma das maiores economias do planeta. Ou seja, produzimos muita riqueza. E é justamente aí que entra a política do pão e circo. Trazer uma Copa do Mundo para o Brasil em ano de eleição era uma estratégia teoricamente perfeita.
O circo. Programas de “mesadas sociais” já implantados. O pão. Esse tipo de “programa social” não é novo. Remonta à Roma antiga, por volta do ano 100 d.C., quando o circo eram as arenas com os gladiadores e feras e o pão era o cereal gratuita e generosamente distribuído ao povo pelos governantes, obviamente para subjugá-lo à miséria. Voltando à riqueza, temos dinheiro farto para gastar numa Copa do Mundo? Bilhões de dólares foram gastos por um país que não tem saúde pública decente para seu povo, não tem educação básica, não tem segurança pública, sem contar outras deficiências típicas de país subdesenvolvido. A serviço de que ou quem?
Imaginemos se tivéssemos ganho a Copa… Tudo estaria plenamente justificado. As maracutaias com empreiteiras, os estádios fantasmas, a alegria do povo com o pão e o circo e os dividendos políticos para a próxima eleição. O 7 a 1 parece castigo divino.
Até o grande Felipão, de memoráveis façanhas no meu Grêmio e na seleção, amarelou, paralisou. Não conseguiu fazer uma substituição enquanto a Alemanha empilhava gols. Talvez isso sirva para absolver Barbosa, o goleiro, e o Dunga. Pode ser que o povo desperte de seu sonambulismo e se dê conta da enganação e do maniqueísmo a que é submetido. Como brasileiro, lamento pelo fiasco, pelo vexame, pela tristeza dos jovens.
Mas ainda somos os únicos pentacampeões mundiais e podemos nos organizar para vencer a próxima copa, a exemplo do que fez a própria Alemanha.
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E a Vida Segue," brasileiros....em sua brasilidade !
DIANA ENGEL GERBASE
Economista
A dor do David Luiz na entrevista após o jogo me chamou atenção. Comove, é sincera, mas tão ingênua quanto a de um menino de 7 anos que se sente responsável por salvar o planeta de um meteoro e chora depois do choque ao se dar conta que não era tão forte quanto pensava e que ele não é, afinal, um super-herói.
“Eu só queria poder dar uma alegria a meu povo, à minha gente que sofre já com inúmeras coisas [...] Desculpa a todo o mundo, desculpa aos brasileiros. Só queria ver meu povo sorrir Não me entendam mal. Não vejo problema nenhum nas lágrimas e na tristeza.
Dói, mesmo. No entanto, me salta aos olhos a crença subliminar e onipresente de que ídolos do futebol são salvadores da pátria, ícones da redenção a fazer par com uma massa que acredita em milagres e que personifica suas vitórias em uns poucos líderes.
Que importância é essa que se dá a esse campeonato e ao papel de um ou dois indivíduos ao ponto de um ser sair de campo se sentindo tão responsável por não colocar um sorriso na cara dos brasileiros?
Onde fica a responsabilidade do processo, da estrutura, do trabalho em equipe no meio disso tudo? Esse discurso é sintomático e é a perfeita caricatura da ingenuidade (e prepotência) individual no meio da insanidade coletiva que parece se espalhar muito além do futebol.
Nunca fiquei extremamente animada com a seleção, nem extremamente decepcionada a ponto de “me fazer sentir emoções como a muito tempo não sentíamos” como diz um texto por aí. Acho isso um exagero. Meus heróis estão em outros campos – diversos – e não me sinto menos brasileira em função disso. Pessoas comuns, mas que trabalham duro, em conjunto, tentam casar o idealismo e o pragmatismo e sabe que nenhum salvador vai vir resgatá-los se não fizerem sua parte.
Estes, sim, me alegram e me inspiram. A única coisa pior que essa síndrome do ídolo redentor é essa turma que acha que criticar é falta de patriotismo e lança textos e análises maternais, passando a mão na cabeça diante de um desastre óbvio, convidando à cegueira eterna.
É quase perder tempo dizer que entender os erros, analisar e rever papeis faz parte de qualquer processo de melhoria minimamente inteligente. Nunca gostei de milagres.
Quem confia muito na sorte, esquece de fazer o dever de casa e um dia tem azar. Espero que essa derrota e a reação a ela sirvam pra aprender alguma coisa sobre a forma como a gente encara nossos desafios – dentro e fora de campo. Futebol é ótimo, mas é só futebol e não substitui outras felicidades.
A vida tem desafios bem mais interessantes e recompensáveis.

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