sexta-feira, 6 de junho de 2014

" A última fumaça "

Moisés MMendes



Sou do tempo em que se fumava dentro de ônibus. Inverno, umidade, janelas fechadas e aquela fumaceira. Sim, nos anos 70 eu fumei em ônibus com crianças, idosos, gente espirrando. Fumei em avião. Em redações, em salas de reunião, na sala de casa. Empestei até o quarto, quando era solteiro.

É vergonhoso, ultrajante, mas apagavam (eu nunca apaguei) toco de cigarro em pratos com restos de comida. Fumei, suado e ofegante, em intervalos de partidas de futebol. Acordei sem cigarro dezenas de madrugadas e saí atrás de um boteco aberto, acendi um cigarro no outro, consumi até três carteiras num dia.

No dia 12 de setembro, completarei três anos sem nicotina. Achei que ficaria mais burro, que tudo perderia o sentido e que teria tremores por causa da fissura. Não consegui ficar mais burro e só tenho fissura minutos antes dos jogos do Grêmio. Mas fiquei 10 quilos mais gordo.

Penso agora no drama dos fumantes com o fim dos fumódromos e só lamento uma coisa: esses são espaços de convivência como nenhum outro. Em nenhum outro, há jovens, velhos, moços, mulheres de todas as idades, burros, feios, inteligentes, chatos, bonitos, interessantes e brilhantes num ambiente de total interação.

Quatro fumantes juntos são imbatíveis. Um é contra a Copa, a outra casaria com o Joaquim Barbosa, o terceiro acabou de se separar e a quarta é psicóloga amadora com terapia de grupo compulsória de hora em hora no fumódromo. O quinto, que não fuma mas fica escorado na porta, tem um filho black bloc e está certo de que o comunismo ainda é uma ameaça.

O fim dos fumódromos acaba com um folclore riquíssimo. Mente-se muito em fumódromos, canta-se, declama-se, chora-se. Namoros começam e terminam entre um cigarro e outro. Ideias geniais são geradas em fumódromos.

Desde que parei de fumar, nunca mais frequentei o Fumódromo Paulo Sant’Ana, aqui da Zero. Não me arrisco, não pela tentação da nicotina, mas da conversa.

Um dia, entre as mais de mil ideias que tive ali, imaginei uma crônica sobre o último e solitário ocupante do fumódromo. A direção teria reuniões com a Cipa, a comissão antitabaco e a Fifa para decidir o que fazer com o último fumante.

Até que um dia uma comissão iria à sala e pediria que o último fumante desse a última tragada e deixasse o fumódromo, porque o espaço seria fechado. Todos sairiam dali abraçados, chorando.

Não será mais assim. Com a lei que extingue os fumódromos, os últimos fumantes sairão em grupo. Na hora da última fumaçada, quero estar lá. Não para glamorizar um vício, mas para confraternizar pela última vez naquele espaço de paredes de vidro com os que se matam com tanto afeto e humor.

Para que mantivessem o espírito, os fumódromos deveriam se transformar em lugares em que ex-fumantes se encontrariam para comer chocolate e arroz de leite. É uma ideia que tive depois que parei de fumar. Claro que precisa ser aperfeiçoada. Vou ver com o Sant’Ana.

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