Colunista analisa rompimento com o governo, anunciado pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha
Soa estranho o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, falar em rompimento com o governo Dilma Rousseff. Ninguém rompe um laço que já está desfeito ou que nunca se consolidou. Desde que tomou posse na presidência da Câmara, Cunha age como um líder de oposição ao governo. Se está anunciando que rompeu, é porque as divergências subiram de patamar.
O que pode um presidente da Câmara enfurecido, além de colocar em votação projetos que não interessam ao governo? Pode mais do que imagina a nossa vã filosofia.
Encolerizado por achar que as denúncias contra ele na Lava-Jato são obra do governo, Cunha pode, por exemplo, fazer tramitar pedidos de impeachment, que estão congelados, convocar ministros próximos de Dilma e instalar as CPIs do BNDES e dos fundos de pensão.
Com a popularidade de Dilma em baixa, a economia passando por um momento crítico e a base aliada dividida, Cunha pode até não conseguir aprovar o impeachment, mas ele sabe como produzir estragos. O deputado age como se ignorasse que nem a presidente nem o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, têm controle sobre a Polícia Federal e sobre o Ministério Público. Esquece que, se tivesse poder para influir na Lava-Jato, Dilma tentaria salvar a pele dos próprios companheiros que estão encrencados. Entre eles, dois dos seus ministros.
Na entrevista em que anunciou sua saída do governo, Cunha aparentava estar acuado, mas disposto a cair atirando:
– Está muito claro para mim que esta operação é uma orquestração do governo. Essa lama, eu não vou aceitar estar junto dela.
O presidente da Câmara está convencido de que o delator Julio Camargo, que diz ter pago a ele propina de US$ 5 milhões, foi obrigado a mentir pelo procurador Rodrigo Janot.
Com o presidente da Câmara fora de si, cresce o papel do vice-presidente Michel Temer como fiador da estabilidade. Embora o PMDB planeje se afastar do governo para disputar a Presidência em 2018, seus aliados entendem que este não é o momento de abandonar o barco. Foi o vice quem sugeriu, por exemplo, adiar votações para depois do recesso, na tentativa de apaziguar os ânimos. Temer segue fazendo a divisão de cargos e de emendas, duas moedas importantes para a manutenção do apoio dos aliados.
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