segunda-feira, 20 de julho de 2015

" O aleijão moral "

Coluna

Cíntia Moscovich

Recebi uma mensagem que me censurava por reenviar e multiplicar pedidos de ajuda para animais maltratados ou perdidos. “Pare de ficar me mandando esse monte de cachorrinhos, gatinhos, cavalos e pássaros”, escreveu o remetente do e-mail. O restante do texto trazia uns desaforos e mais uma acusação amalucada sobre a minha pressão e a do meu marido, fatos que não reproduzo aqui por uma questão de decoro e higiene.

Eu tinha o autor da mensagem, que é médico e conhecido de bons amigos meus, como uma “pessoa do bem”, embora eu sempre houvesse achado suas posições políticas meio delirantes e apocalípticas. Mas pensava, na minha boba idealização, que o sujeito que escolhe a medicina é movido por uma sincera vontade de curar e de proteger do sofrimento. Para mim, os médicos teriam uma espécie de dom ou de iluminação, como se a obstinada sombra da morte lhes desse o entendimento sobre a precariedade de tudo e, automaticamente, uma disposição infinita para fazer o bem.

Descobri de maneira dolorosa que, exceto no caso dos vocacionados, o diploma da faculdade da medicina não faz com que uma pessoa encare a vida como valor absoluto. Descobri, ainda, que a existência do Bem depende de uma espécie de “elegância moral”, que pode ser resumida na capacidade de estabelecer vínculos de afeto e de empatia sem discriminação – desejar a saúde dos membros da família é coisa fácil; quero ver lutar pela vida de um paciente do SUS ou se preocupar com um cachorro que foi jogado pela janela de um carro para morrer na sarjeta. Amar o que é vivo e que vive fora do círculo de nossos afetos imediatos, isso eu acho que é a maior nobreza.

Hipócritas como ele, cujo raciocínio é esquemático e que acha que nada tem a ver com o sofrimento dos animais, tem um horizonte de afetos que não passa ali da esquina. São aleijões morais, com zero de preocupação pelo bem-estar de todos, bichos e gente. Eles são incapazes de qualquer gesto para ajudar e, como se fosse lógico, odeiam quem tenta aliviar o sofrimento alheio. Aviso que continuarei fazendo o que faço pelos bichinhos: é muitíssimo pouco mas sempre vai ser melhor do que nada.


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