Artigo
Rosane Tremea
Leia o artigo publicado em ZH deste sábado
Pode ser que esteja só na minha imaginação e não exatamente na memória, mas sempre jurei lembrar do dia 20 de julho de 1969.
Eu completaria seis anos dali a dois meses. Meu pai havia comprado nossa primeira TV: uma Philco a válvula, preto e branco, com uma caixa de madeira gigante. Acompanhava uma mesa da mesma dimensão, com tampo de madeira e estrutura de metal e rodinhas, o que permitia ao móvel/aparelho uma certa mobilidade pela casa. Não muita, o suficiente para que a antena no alto do telhado não precisasse ser mexida. Tinha sido adquirida mirando a Copa de 70 no México e só havia outra como ela na cidade.
Voltando ao 20 de julho: na minha memória (ou na minha imaginação), meu irmão mais novo e eu estávamos de férias e acometidos de alguma dessas doenças infantis – catapora, sarampo, caxumba... E isso nos dava direito a guaraná fora do gelo e fora de época (sim, só se tomava refrigerante no domingo e bem pouquinho, e sou muito grata por isso) e a ver TV sem a companhia dos pais, ocupados com trabalho e afazeres domésticos.
Então, naquele 20 de julho, lembro (ou imagino) a TV na porta do quarto e os astronautas pisando na Lua, um feito que está às vésperas de completar 46 anos.
O espaço, as viagens interplanetárias, os filmes e as séries (2001, Perdidos no Espaço, Guerra nas Estrelas, Gravidade… e outros tantos desde aquele época) só fizeram aguçar minha curiosidade e imaginação. E mais ainda numa semana em que, em poucos dias, uma sonda fotografa em detalhes Plutão, o distante e pobre planeta-anão rebaixado, e pesquisadores anunciam a descoberta de um possível sistema planetário parecido com o nosso.
E, numa semana como esta, de descobertas científicas e avanços incríveis, eu me pergunto: por que passados 46 anos daquele “grande salto para a humanidade” ainda temos crianças morrendo de meningite e obras inacabadas ou malfeitas capazes de deixar milhares de pessoas sem casa quando riachos e rios tomam de volta o leito que lhes foi tirado ou vomitam o lixo jogado neles? Por quê? Onde está o grande passo? O que a humanidade fez nesses últimos 46 anos?

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