domingo, 17 de maio de 2015

" O Império do EU "

Artigo Zero Hora 


RODRIGO LOPES
Editor de ZH e professor universitário
rodrigo.lopes@zerohora.com.br
6 de maio, 20h, Rua Fernandes Vieira, Porto Alegre: em atendimento a uma emergência na altura do número 500, uma ambulância do Samu vazia está estacionada em fila dupla com giroflex ligado. Logo atrás, há um ônibus.

 O pouco espaço que sobra da rua é insuficiente para o coletivo passar. O trânsito está parado. De repente, dois homens, indignados com o congestionamento, descem de seus veículos, tentam, sem sucesso, entrar na ambulância pela porta do motorista. Forçam a porta dos fundos. Também não conseguem. Pelo lado do carona, sim: invadem a ambulância e a deslocam por quase 200 metros. Trânsito liberado, os motoristas voltam a seus carros e são ovacionados pelos demais. Heróis.

12 de maio, 21h30min, Avenida Venâncio Aires, Porto Alegre: um taxista precisa largar o passageiro exatamente na frente da casa do cliente. Nem um metro a mais nem a menos. Há espaço à frente, mas o taxista para o veículo bem no local onde o cliente pede. Sobre a faixa de segurança.

14 de maio, 16h, esquina da Rua Andrade Neves com Borges de Medeiros. O sinal está verde para os carros, mas os pedestres se avolumam, em efeito manada, tomando a estreita via. É como um funil. O carro é obrigado a parar. Um dos pedestres, sentindo-se vitorioso, ainda dá uma batidinha no capô do motorista pra mostrar quem manda ali.

Testemunhei as três cenas acima. Com exceção da ambulância, que acredito que o senhor e a senhora nunca devem ter visto algo assim _ eu vi e gravei com meu celular (veja em zhora.co/ambulanciasamu) _, as demais são corriqueiras em Porto Alegre. Se tenho pressa, se preciso passar, azar se um paciente com crise cardíaca necessita de atendimento. Se preciso largar minha mãe, pai, marido ou mulher na frente de casa, azar do pedestre, que tenta cruzar a avenida. Se preciso atravessar a rua, ferre-se o sinal, o motorista, quem quer que seja. O importante sou eu, os meus interesses, o que eu quero!

Há quem reclame do lixo verborrágico das redes sociais. Ora, o que vemos no Facebook é espelho de uma sociedade doente, intolerante e egoísta. Se não concordo com o senhor, não torço para o mesmo time de futebol ou partido, xingo uma, duas, três vezes. Na última, o bloqueio das minhas redes sociais.

 Ao final do dia, estou feliz, completo, realizado, todos do meu círculo de leitura das redes sociais concordam comigo, em uma espiral de opiniões semelhantes que me levam a uma satisfação de ler só elogios. Até quando seremos intolerantes e egoístas? No Facebook ou na vida real. E até no meio de um congestionamento.

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