domingo, 17 de maio de 2015

" Duplos ou Cínicos ? "

Artigo Zero Hora


FLÁVIO TAVARES
Jornalista e escritor
Somos um país partido em dois. Tudo é dúplice: o que vale para uns, vale só para alguns. A última terça-feira, véspera de 13 de maio, foi o dia emblemático desse dualismo. Parecia até que voltávamos ao tempo da escravatura, com chibata para quem trabalha e benevolência para o malfeitor ou seus crimes.

No Senado, a sabatina ao jurista Luiz Fachin transformou-se em interrogatório de delegacia policial. Durante quase 13 horas, a miopia do fanatismo direitista esmiuçou a vida e ideias do futuro ministro do Supremo Tribunal como se faz com o larápio detido na esquina em atitude suspeita.
Em contrapartida, a CPI da Câmara dos Deputados que investiga o escândalo da Petrobras, indagou a doleira Nelma Kodama (já condenada a 18 anos de prisão) como se fosse uma estrela de Hollywood. Sorridente, a cabeça raspada (que dificultava ser reconhecida pela TV), ela ditou regras e comandou a festa. Contou até sobre os três anos em que foi amante do doleiro-mor Alberto Youssef, com quem movimentou R$ 221 milhões roubados à Petrobras. Para autenticar o relato, cantou a canção amorosa que o casal partilhava na alcova.
E a festa cresceu: a TV mostrou alguns deputados cantarolando com ela, em íntima parceria. Dona do ambiente, a musa-doleira levantou-se, inclinou-se sobre os seios fartos e, curvada, escancarou o traseiro e disse: “Aqui nos bolsos eu levava o dinheiro. Não na calcinha”.
Nelma foi presa pela Polícia Federal ao tentar embarcar para a Itália com 200 mil euros na calcinha.
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A Comissão de Constituição e Justiça reúne o melhor do Senado. Mas não foi minuciosa por isto, ao tratar o civilista Luiz Fachin (acatado em todas áreas jurídicas) como um delinquente, a quem se aperta para “confessar”. Bastaria confessar algo, mesmo ínfimo, para apresentá-lo (tal qual tentaram) como adepto da extinção da família e da ordem, ou cultor do aborto e da morte.
_ É um progressista! _, dizem dele, pejorativamente, como se o humanismo do progresso fosse ameaça. A reforma agrária (que ele defende) seria um risco, não um dos traços da organização social prevista na Constituição. Indagaram-lhe sobre as células-tronco, ignorando que o Supremo já decidiu sobre seu uso em pesquisas. Foi tratado como se o atraso fosse o núcleo do futuro.
Queriam obrigá-lo a dizer-se atrasado? E aí, ele seria aplaudido por ver a Terra como plana e imóvel no centro do Universo?
Em 2010, Fachin subscreveu um documento de apoio à candidata Dilma Roussef. O gesto, normal a todo cidadão, foi apontado como “parcial”, como se um jurista fosse estéril, sem opiniões…

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Somos duais ou somos cínicos, e atribuímos ao cinismo o poder de convencer com a invencionice ou a mentira?
No mesmo dia em que, no Palácio, o governador Sartori e produtores leiteiros brindavam com leite (em taça de champanha) anunciando a Expoleite 2015, o promotor Mauro Rockemback e outros membros do Ministério Público desbaratavam novo envenenamento do produto. Agora, o centro do crime é o norte gaúcho e é ainda mais brutal do que as adulterações de 2013: além de produtores e transportadores, integravam a quadrilha o intocável superintendente do Ministério da Agricultura no Estado, Francisco Signor, e fiscais agropecuários.
Também a mecânica atual é mais inescrupulosa: milhares de litros de leite apodrecido, com larvas visíveis, foram reaproveitados em empresas e cooperativas, depois de disfarçados com formol e similares…

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P.S. – No domingo passado, num lapso, em vez de citar o falecido deputado José Janene, do PP, como mentor do esquema corrupto que levou ao escândalo na Petrobras, troquei seu nome pelo do médico e ex-ministro da Saúde, Adib Jatene. Íntegro e incorruptível, Adib morreu em 2014.

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