quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

" O Brasil não é um lixo "

Artigo Zero Hora 

Jornalista, repórter de ZH
paulo.germano@zerohora.com.br
 
Essa conversa de que o Brasil é um horror, um paisinho de quinta, um amontoado de gente malandra e safada. Ouço e leio todo dia a mesma tese _ e todo dia ela me faz mal.

Se o brasileiro tem um defeito, se tem algo que o torna pior do que o americano, ou o alemão, ou o italiano, ou o japonês, trata-se de uma absoluta falta de amor-próprio. Um problema patológico, uma autoestima de rato. Nem Freud explicaria a convicção com que o brasileiro insulta o seu país. Por que tanto desprezo pela pátria?

Por causa da corrupção?
Ora, por favor. Se até no Vaticano, onde os santos são eleitos, é preciso um Papa cair para a roubalheira recuar; se até na Suíça, federação tão aclamada, a economia se alimenta do dinheiro mais sujo do planeta; se até na Itália, onde o Ocidente tomou forma, floresceram a máfia, a Camorra, Mussolini e Berlusconi; me diga, de onde vem essa ideia de que o Brasil é a sociedade mais podre do mundo?
Ah, é o “jeitinho brasileiro”, alguém dirá. Só que o jeitinho brasileiro não é só brasileiro, ele habita também o Uruguai e a Argentina, onde essa mania de obter vantagens driblando regras recebe o nome de viveza criolla _ o gol de mão de Maradona, na Copa de 86, é um simbólico exemplo de viveza criolla.
O brasileiro, vá por mim, não é mais safado do que ninguém.
Agora, claro, se você tomar de modelo a Suécia ou os Estados Unidos, vira covardia. O Brasil percorreu séculos de regimes arbitrários e governos tirânicos, convive há apenas 30 anos com a democracia. É natural, portanto, que sua gente ainda não tenha introjetado por completo valores democráticos avessos ao tal jeitinho. Nem por isso somos um bando de sem-vergonha. Pelo contrário: poucas democracias atravessam evolução tão evidente.

Nunca se investigou tanto a corrupção, as instituições têm independência, os saqueadores do erário vão para a cadeia, a população protesta por direitos, o jeitinho é cada vez mais condenado, surgem leis como a do Conflito de Interesses, a de Improbidade Administrativa, a de Acesso à Informação, a Lei Anticorrupção.
             O atual governo vai mal? Vai. 

Precisamos de educação? Sem dúvida. Mais segurança? Evidente. Pois que sigamos pedindo, lutando, gritando
Tudo o que conquistamos _ e o que vamos conquistar _ deve-se ao povo brasileiro. Não fale mal dele. Ele merece respeito. Você merece respeito.

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