sábado, 14 de fevereiro de 2015

" Dando o troco nas crianças "

Nossos Filhos 

Marcos Piangers: "Dando o troco nas crianças" Eduardo Uchôa/Arte ZH
Foto: Eduardo Uchôa / Arte ZH
Me vinguei das meninas esses dias. Estávamos no carro e, a caminho de casa, passei a perguntar insistentemente: “Já chegamos? Já chegamos? Já chegamos?”. Pra verem o que é bom pra tosse. A cada dois minutos perguntava “Já chegamos?”, e elas eram obrigadas a me dizer que não, que ainda não, que calma que já vai chegar. Foi uma ótima vingança.
Aí então, confiante com o sucesso desse primeiro experimento, ampliei minha área de atuação. Passava a manhã gritando “Tô com fome! Tô com fome!” e, quando saia o almoço, dizia que não queria comer. Pedia ajuda para fazer as tarefas mais simples. Se ninguém me ajudava eu gritava: “Mas eu não consigo!”. E fingia um choro que elas eram obrigadas a amarrar meus cadarços, por exemplo.
Passei a perguntar “Por quê?” pra tudo. Se contavam uma história do colégio, eu perguntava: “Por quê?”. E se uma explicava que era porque a professora de matemática passa muito tema de casa, eu mandava outro: “Por quê?”. E ela tinha que explicar que era porque o pessoal da sala não era muito bom de matemática. “Por quê?”. Porque todo mundo não prestava atenção na aula. “Por quê?”. Porque era um assunto que não interessava. “Por quê? Por quê? Por quê?”. E ela ficava irritada até gritar que não sabia, que ela não tinha que saber de tudo, meu Deus, pra que perguntar tanto assim?
E era ótimo dormir com a alma lavada.
Até que um dia senti um sorriso malandro na cara delas, como se tivessem descoberto algo que eu não sabia. Passamos o café da manhã todo nos olhando, eu desconfiado e elas rindo de alguma coisa. Tomei banho e fui trabalhar. Quando cheguei em casa, uma delas disse: “Já pro banho”. Mas o que é isso, quem manda nessa casa aqui sou eu. “Já pro banho!”, ela repetiu. E a outra gritou: “Se não tomar banho agora, vai ficar sem o celular”. Na janta, tive de comer tudo, até o brócolis, raspar o prato e colocar na pia. Levei mais de uma hora arrumando o quarto. “E escova os dentes bem escovados!”. Naquela noite fui pra cama antes das nove, sem direito à televisão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário