Somos mesmo criaturas contraditórias.
Devíamos amar essa chuva que desabriga pessoas, inunda vilas e cidades, umedece as roupas, as paredes e as almas dos vivos. Mas não. Ficamos todos entristecidos pelas famílias expulsas de suas casas, com suas crianças chorosas e seus animais de estimação. Também me comovo com isso. Mas a culpa não é da chuva nem de São Pedro e tampouco dessa pobre gente que mora em áreas suscetíveis de alagamentos, na maioria dos casos por não ter para onde ir. Fácil demais, também, é responsabilizar as autoridades e os próprios cidadãos, pelo mau hábito de lançar lixo em qualquer lugar, o que causa entupimento de esgotos e o assoreamento dos rios.
Então, de quem é a responsabilidade?
Da natureza é que não é. Chove desde o início dos tempos e é essa bênção que mantém a vida sobre o planeta. A chuva deveria ser sempre bem-vinda. O problema somos nós, todos nós, não apenas os moradores de áreas de risco. Não queremos mais sujar os pés. Isso mesmo, os alagamentos nas cidades – asseguram geólogos e urbanistas – devem-se principalmente à impermeabilização de extensas áreas.
É bom trafegar pelo asfalto, é ótimo caminhar em dia de chuva sem pisar na lama, é confortável não ter que varrer as folhas de árvores dos pátios e das calçadas. Mas o preço é este: quando a água chega, não tem como se infiltrar no solo, não tem raízes que a conduzam ao interior da terra. Então, se acumula, provoca deslizamentos, invade ruas, praças e casas. Não há sistema de drenagem que dê conta.
Nossas cidades impermeáveis são um convite às inundações.
Nem é preciso chover durante quatro anos, onze meses e dois dias, como ocorreu na emblemática Macondo de García Márquez. Basta uma semana de tempo feio, como esta que está terminando, para todos amaldiçoarmos a bendita chuva.
O papa Francisco, esse surpreendente argentino que conjuga humildade e sabedoria, divulgou há poucos dias uma encíclica sobre o meio ambiente e alertou para a iminência de guerras pela água. Se continuarmos a consumi-la irresponsavelmente, em breve estaremos brigando por ela.
Concluo, pois, esta pregação no molhado com aquele provérbio chinês que manda acender uma vela em vez de amaldiçoar a escuridão. Pise na lama, mas bendiga a chuva.
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