sábado, 3 de janeiro de 2015

" Viva o Velório "

Artigo Zero Hora


paulo.germano@zerohora.com.br
Jornalista, repórter de Zero Hora
Um desejo honesto para 2015: que você frequente mais velórios. Enterros, sepultamentos e cremações também. Cerimônias fúnebres em geral, que sejam bem-vindas. Viva os cemitérios, viva os funerais, viva os enlutados à beira do caixão.


Não estou rogando praga. Não quero que ninguém morra, longe de mim. Apenas espero que, no caso de alguém morrer _ e, repito, tomara que ninguém morra _, neste caso espero que você esteja lá, se despedindo de verdade. Tudo bem, poste sua foto antiga com o morto e um texto bonito no Facebook, diga a todos que sentirá sua falta, mas faça a homenagem como deve ser feita: tête-à-tête.
Não fui ao velório de uma professora, uns anos atrás. A Tia Dalva era uma velhinha que, no colégio, alertou minha mãe sobre a necessidade de eu consultar um oculista _ ela achava estranho eu escrever com a cabeça enterrada no caderno. Continuei vendo a Tia Dalva até os tempos da faculdade: morava perto de casa, sempre perguntava se meus sete graus de miopia haviam parado de subir. Uma boa pessoa.
Quando morreu, evitei o velório e fiquei culpado por uns cinco anos. Passei a sonhar com a velhinha morta, às vezes até ouvia a voz da velhinha morta, o que era meio chato.
_ Tá enxergando bem? _ perguntava a Tia Dalva de madrugada.
Não era uma maldição, nem medo eu sentia, era só meio chato. Por que não fui à porcaria do enterro dela? Por que não fui dizer aos filhos, aos netos que jamais conheci, a todos que choravam a morte da Tia Dalva o quanto ela fora marcante para mim? Deveria ter ido lá, encarado seu rosto pálido e duro, repousado minha mão sobre seus dedos entrelaçados e dito o que nunca disse:
_ Obrigado, Tia Dalva. Que grande professora a senhora foi.
Teria me feito bem. Porque, vamos ser francos, mais do que uma homenagem a quem morre, o velório é um desafogo para quem fica. Não tem outro jeito, só olhando para a cara do morto é possível concluir que, puxa vida, agora entendi, morreu mesmo. O funeral, portanto, é um rito de passagem para os vivos.
Aliás, espero que você tenha olhado bem para a cara de 2014 ao enterrá-lo. E que 2015 seja um ano cheio de vida, com nascimentos e renascimentos de toda ordem, mas com despedidas de verdade. Com despedidas como devem ser.

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