sexta-feira, 7 de novembro de 2014

" Alguém cuida de mim "





Você pode ver guris de 14 anos de idade dirigindo pelas ruas de Boston, desde que cumpram certas condições, como estar acompanhados dos pais. Aos 16, meninos imberbes vão e voltam da escola conduzindo seus próprios automóveis, embora estejam proibidos de guiar depois do anoitecer. Aos 18, aí, sim, eles ganham a licença completa.

Mas só podem beber aos 21, e nunca à direção. Estou me referindo a bebidas com álcool, evidentemente. Cabe a ressalva, porque, outro dia, comentei que bebida em excesso faz mal e meu filho disse que aquela informação o inquietava: ele havia bebido muito suco de laranja no almoço.

Como você é mais esperto do que um menino de sete anos, deve ter adivinhado que estou escrevendo sobre a noção de maioridade nessa esquina dos Estados Unidos onde vivo. Eles se preocupam muito com suas crianças, os americanos.

Se elas precisam, o Estado lhes dá não só educação gratuita, como assistência médica e alimentação. E os pais chegam a mudar de bairro ou até de cidade para que os filhos frequentem as melhores escolas. Mas, quando os rebentos atingem os 18 anos, espera-se que se virem por conta própria. Eles mesmos, os adolescentes, quando alguém pergunta se ainda moram com os pais, eles ficam constrangidos, juram que é temporário, que já estão saindo, não vai demorar.

Não temos de copiar os americanos, eles são eles, nós somos nós, mas há algo interessante nessa fórmula: é a ideia de que o investimento majoritário dos pais e do país em um indivíduo tem de ocorrer até que ele complete sua formação. Depois, ele supostamente saberá cuidar de si mesmo.

Ocorre que o Estado brasileiro olha muito para as universidades e pouco para o ensino básico e fundamental, e é ali, no ensino básico e fundamental, que se forma o cidadão. Se o Estado se concentrasse nas crianças, as correções de rumo que hoje são feitas pelas ações afirmativas seriam desnecessárias. O Estado tem de assegurar que uma pessoa chegue aos 18 anos de idade com boa saúde e com nível de instrução que a capacite a concorrer com quaisquer outros, de quaisquer classes sociais. Feito isso, já está muito bem feito.

Nós, os adultos, nós tínhamos de ser esquecidos pelo Estado. Os recursos e as energias deviam ser derramados sobre crianças e velhos. Nós? Azar o nosso.

O paternalismo histórico possuiu a nossa alma brasileira como um espírito do Mal. Semana passada, escrevi que o ditador Getúlio Vargas foi o pior presidente da história do Brasil. Muitos leitores se ofenderam e lembraram as “realizações” de Vargas. Uma tristeza. Tais realizações deveriam ser consideradas conquistas da sociedade, não favores de um herói dos pobres.

Em verdade, vos digo: se um ditador andar sobre as águas e, com o toque da sola de seus pés sagrados, transformá-las em vinho, ainda assim será um canalha. Todos os ditadores são canalhas.

Mas, não, o Bolsa Família não é uma distorção do paternalismo. O Bolsa Família é um necessário programa corretivo de desigualdades. Distorção do paternalismo foi demonstrada nas alegações do chamado “eleitor esclarecido” do PT para votar pela reeleição da presidente. Esse eleitor reconhece a caudalosa corrupção no governo, só que ele aceita todos os desvios, desde que haja uma suposta ajuda aos pobres. Como pode o eleitor esclarecido não perceber que a corrupção não ajuda ninguém, a não ser o corrupto?


O raciocínio, apesar de ser uma redução grosseira, é quase irresistível: para salvar o pobre, o Grande Pai faz alianças espúrias, mas necessárias à “governabilidade”; o Grande Pai classifica a corrupção como um defeito congênito da política nacional, alegando que todos são iguais a ele nos defeitos; o Grande Pai trata a democracia representativa como uma formalidade um pouco incômoda, que o impede de exercer toda a sua benevolência. E nós acreditamos, claro que acreditamos. É tão confortável pensar que alguém lá em cima zela por nós...

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