sábado, 17 de maio de 2014

" Triste realidade que a maquiagem não muda "

J. J. Camargo:

Peregrinação de mulher com tumor na mama mostra que o país trata câncer como uma doença crônica qualquer

 
J. J. Camargo: Triste realidade que a maquiagem não muda   Edu Oliveira/Arte ZH
Foto: Edu Oliveira / Arte ZH
Como era de se esperar, os consultórios dos mastologistas superlotaram, e as agendas de marcação de mamografias sucumbiram à demanda, a demonstrar, antes de mais nada, a impressionante audiência nacional do Fantástico.
 
Várias leituras podem ser feitas da repercussão daquele programa que, com um senso jornalístico apurado, acompanhou uma jovem mulher desde o momento em que identificou uma massa tumoral na mama e iniciou o périplo em busca do diagnóstico, até o encaminhamento terapêutico, pelos meandros burocráticos da saúde pública, sempre acompanhada da figura fidalga, didática e paternal do Dr. Dráuzio Varela, um expert em comunicação.
 
Em nenhum momento foi dito explicitamente, porque isso traria um negativismo indesejável à mensagem do programa, o quanto de lamentável atraso havia naquele diagnóstico porque, com um autoexame das mamas, um nódulo de 1,5 centímetro já é facilmente percebido, e foi.
 
Acontece que, ao identificar o nódulo, ela buscou o caminho ordinário, que devia ser eficiente, porque afinal ela teve a “sorte” de viver no estado mais rico do país. Mas não, a burocracia é uma praga que não respeita fronteiras nem PIBs. Demorou três meses (uma provável duplicação do tumor) para obter uma mamografia, que foi inconclusiva porque o aparelho era obsoleto, ou estava mal calibrado, e então foi solicitada uma ecografia da mama. Segundo a paciente referiu, em Barueri (que não fica no sertão do agreste, mas na grande São Paulo), a rotina é que a paciente se inscreva para o exame e aguarde em casa para ser chamada.
 
Nesta espera, ela teve a paciência de esgotar o ano de 2013, ou seja, mais umas três duplicações de células, visto que o tumor não tinha sido incluído no pacto da morosidade.
 
Quando finalmente desistiu de esperar e foi atrás dos seus direitos, o tumor já tinha cinco centímetros, ou um caroço de abacate de diâmetro. Como se o atraso não bastasse, ainda submeteram a pobre mulher a uma espera de duas semanas na expectativa do exame anatomopatológico que qualquer laboratório sério produz em três dias.
 
E, só depois disso, começou o tratamento que, segundo portaria recente, que se supõe tenha a intenção de acelerar o processo (benza Deus!), não pode demorar mais do que dois meses para ser iniciado a partir do diagnóstico. Ou mais uma duplicação de volume tumoral!
 
Não foi dito, mas é bastante provável que este tumor, classificado como estágio II-B, já tenha dado metástases nas glândulas linfáticas da axila, e possivelmente disseminado células pela corrente sanguínea.
 
Claro que isso não elimina a chance de cura, mas certamente vai reduzi-la, e implicará a necessidade de terapias complementares, mais sofridas, demoradas e onerosas. Nada disso diminui o mérito da iniciativa de estimular a prevenção e o diagnóstico mais precoce do câncer que mais afeta mulheres no Brasil mas, para quem é do ramo, foi inevitável reconhecer o quanto é deprimente depender do sistema público para sobreviver no país de todos, onde se comete o absurdo de tratar câncer como se fosse uma doença crônica qualquer.
 
 
                   *** a saúde falida,sem padrão FIFA,e o povo ???
                         votando equivocadamente... erroneamente...
                          ( Nota da blogueira )

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