quinta-feira, 20 de agosto de 2015

" Presidente Renan "

Artigo Zero Hora

MARCELO RECH
Jornalista do Grupo RBS
marcelo.rech@gruporbs.com.br

Foi tão rápido que nem percebemos. Numa semana, a presidência de Dilma estava sólida como uma gelatina e, na semana seguinte, vupt:  o governo reassumiu o ritmo das atividades políticas e econômicas em Brasília. Mas é melhor olhar duas vezes. É só impressão ou o poder já mudou de mãos e não nos demos conta?
De fato, não houve troca de faixa presidencial e nem caminhão de mudança esvaziando gabinetes, mas o poder _ entendido como a capacidade de ditar os destinos do governo _ foi sugado pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, em um dos movimentos mais ligeiros e bem-sucedidos da história recente do país. Jeitoso, polido, escolado na Universidade José Sarney de Política, Calheiros é o oposto de Eduardo Cunha, que ameaça se explodir ao acionar uma pauta-bomba de gastos públicos temida por grande parte da República. Já Calheiros pôs em ação a habilidade que o fez transitar O presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ)

de um dos mentores da candidatura presidencial de Collor a ministro da Justiça de FH e a sobreviver a procissões de escândalos nesta trajetória. Assim, de seu abrigo no Senado providenciou um tubo de oxigênio para o governo do PT, se tornou o avalista da governabilidade e estancou a marcha para tirar Dilma Rousseff do Palácio do Planalto.
Sem posse ou discurso inaugural e sem enfrentar as armas e as trincheiras da CUT, Calheiros chega ao poder supremo com apoio de um hábil articulador, o ex-presidente Lula, que convenceu sua sucessora a emprestar os anéis ao PMDB para manter os dedos. Em uma imagem de fritar convicções, Lula posou sorridente com seu ungido e boa parte do ministério paralelo de Calheiros, entre os quais Sarney e os senadores Jader Barbalho e Romero Jucá.
Claro, Calheiros não exerce o poder sozinho. Na realidade, o governo transitório em que estamos metidos está mais para um triunvirato: além do presidente do Senado, o poder é repartido com o vice-presidente Michel Temer e, naturalmente, a própria Dilma. A questão agora é saber quanto dura o regime de transição. Calheiros pode seguir mandando por anos a fio ou, se ficar amuado, voltar a comandar a resistência amanhã. Seja como for, trata-se de uma façanha enciclopédica: o político alagoano tornou-se o primeiro homem em uma democracia a incorporar oposição e governo ao mesmo tempo.

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