Atorcedora que chamou o goleiro de macaco vai reaparecer pedindo desculpas. Manifestações como a dela não resultam, como alguns pretendem, de convicção sustentada por pretensa orientação ideológica, política, religiosa ou antropológica de séculos passados. Claro que o racismo tem substância teórica e prática, mas não nesse caso.
Nos gritos da moça, aconteceu o contrário. O que houve ali foi uma manifestação de ingenuidade, desinformação, imaturidade, tudo combinado com a escassez de recursos para ter a compreensão do que significa tentar desqualificar um negro num país traumatizado por três séculos e meio de escravidão.
Então, não se diga que a moça é uma racista convicta. É apenas uma torcedora sob o comando de impulsos. É uma das tantas jovens embrutecidas por bobagens potencializadas pela redes sociais, que desorientam a puberdade hoje prolongada para além dos 30 anos.
Não há no gesto da moça nada mais pretensioso ou elaborado. Não é alguém que tenha avançado até uma enganosa compreensão do mundo, para finalmente se ver como um ser superior. Ou não andaria por aí, carregando sob o braço, como mostram as fotos na internet, um macaquinho de pelúcia com a camiseta do Internacional.
Uma moça infantilizada “denunciou” (para se exibir aos telões?) um homem negro que seria um macaco. Um macaco que defendia tudo o que os jogadores do Grêmio chutavam contra o seu gol. E que estava vencendo o jogo.
Não são poucos os perdedores que andam vendo macacos. É grande o desconforto com o aumento de negros médicos, engenheiros, que circulam em carros do ano, negros do Prouni e até os negros que subsistem com o Bolsa Família. Sem falar nos que decidiram andar de avião.
A segunda coisa que quero dizer é sobre uma aventada semelhança entre as expressões e os gestos da moça e as que se dirigem aos árbitros, como filhos da p.
Fdp é algo tão desqualificador? Uma prostituta deixa de ser pessoa ou mulher? A grande Rose Marie Muraro exaltou, há mais de meio século, a dignidade das prostitutas – não da atividade, na maioria das vezes explorada com violência, mas das mulheres que dela dependem.
Há alguns anos, fiz uma reportagem sobre ex-prostitutas. Ouvi uma moça criada por uma delas, a professora Jara Fontoura da Silveira. Quem acha que desqualifica alguém definindo-a como prostituta, que fale com a professora Jara, doutora em Educação Ambiental, na Universidade Católica de Pelotas.
Mas não há como negar que existe, sim, tentativa de desqualificação num ataque, com ofensa racista, a um negro que alguém considera “incômodo”.
Qualquer estudioso da escravidão nos diz que o processo de anulação do negro passava pela coisificação e pela animalização. Um dia, a guria da Geral do Grêmio ficará sabendo disso. Se conseguir largar o macaquinho de pelúcia.
É estranho que, na foto em que grita macaco, com a boca aberta, a torcedora tenha ficado com a expressão da famosa figura do Grito, da tela de Munch. Como se fosse assombrada pelo próprio assombro.

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