quinta-feira, 18 de setembro de 2014

" A descoberta do pedestre "


Artigo Zero Hora

DENILSON SILVA
Diretor-geral adjunto do Detran/RS
Caminhar é a forma mais antiga de transitar. A própria rua foi concebida para esse fim, antes de ceder espaço para os veículos e de a vida agitada e hiperveloz dos tempos atuais reduzir a importância do deslocamento a pé.
 

De fato, o pedestre foi historicamente negligenciado pela legislação. Os primeiros decretos que regulamentaram trânsito e transportes no país priorizaram a concessão de serviços de ônibus (1850), a construção de estradas (1852) e o regramento para carros, seges e outros veículos (1853).

Assim, o conceito de trânsito esteve sempre ligado aos veículos e motoristas. O primeiro departamento oficial criado pelo então Império para lidar com as questões do trânsito chamava-se Inspetoria de Veículos do Brasil, enquanto que o primeiro “código de trânsito”, de 1928, chamava-se Regulamento para Circulação Internacional de Automóveis no Território Brasileiro.

A legislação de trânsito no país teve que evoluir muito para incluir o pedestre no conceito de trânsito. Somente em 1941, um decreto-lei definiu trânsito como “movimento de pessoas, animais montados ou em tropa, veículos e outros meios ou aparelhos de transporte”. Mas incluir o pedestre no conceito de trânsito não é incluí-lo efetivamente (com segurança) no trânsito _ ainda hoje, ele disputa espaço com os veículos nas vias.

No entanto, esse modal parece ter sido finalmente descoberto. Nesta Semana Nacional de Trânsito, de 18 a 25 de setembro, o foco escolhido pelo Conselho Nacional de Trânsito para reflexões e ações é “Cidade para as Pessoas: Proteção e prioridade ao pedestre”. Não sem tempo, pois só recentemente as campanhas educativas começaram a considerar o pedestre como público-alvo. Escolinhas de trânsito e a própria imprensa não hesitam, ainda hoje, em tratar as crianças como “motoristas do futuro”, ignorando outras possibilidades de transporte e a própria autonomia de decisão das pessoas.
 
Em uma cultura assim, não é de espantar que os atropelamentos representem grande parte das mortes nas vias públicas.

Dentre os diferentes papéis assumidos pelas pessoas no trânsito, o de pedestre se destaca por sua possibilidade privilegiada de interação, já que seu ritmo é o humano, não o da máquina _ para não falar em maior contato com o entorno, salutar exercício físico e economia. Entre todas as formas de transitar no espaço público, a do pedestre é a única exercida por todos em algum momento. Somente isso deveria ser suficiente para fazer dele alguém merecedor do máximo de atenção e de projetos que priorizem a segurança.


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