quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

" Parecemos Zumbis "

Artigo ZH


ROSANE TREMEA[ jornalista e editora de ZH ]

Este é daqueles textos que começam com uma ressalva: antes de ser acusada de qualquer coisa, quero dizer que gosto muito de novidades e de tecnologia. Não sou do tipo adesista de primeira hora, mas faço questão de conhecer, de entender, de me adaptar, de aproveitar inovações.

Mas (e aí vem o “mas”) tenho ficado cada vez mais incomodada com o reinado (ou seria endeusamento?!) dos smartphones.
Li que são quase 40 milhões no Brasil, o sexto país que mais usa esse tipo de aparelho. Considerando os 200 milhões de habitantes, não é pouco. E eles parecem muito mais _ é só observar qualquer ambiente onde haja uma pessoa além de você mesmo teclando.
O pessoal da área de saúde anda preocupado com os problemas de postura que eles causam. Já não se trata das antigas tendinites de quem passou da máquina de escrever (que causava sérios danos às unhas!) para o computador. No final do ano, uma mulher teve diagnosticada uma “WhatsAppinite”, depois de teclar desesperadamente mensagens de Natal durante seis horas. Já se falava antes na “doença do polegar”, uma sobrecarga na musculatura e nos tendões das mãos causada pelo uso excessivo de smartphones. Outro efeito físico do (mau) uso gerou mais um termo: o “text neck” (pescoço de texto), para identificar pessoas, especialmente jovens, que reclamavam de dores cervicais, de cabeça e nos ombros. Também já li sobre aumento no número de atropelamentos de usuários distraídos pelas ruas do planeta.
Nem falo de outros problemas como queda de produtividade no trabalho, por exagero nos acessos às redes sociais, ansiedade, isolamento, da substituição dos livros e de leituras mais profundas por superficiais mensagens de autoria duvidosa…
O que me preocupa mesmo é a interferência na convivência. Dói ver um casal, frente a frente, cada um mergulhado no seu aparelho. Não terão do que falar? Já me disseram que esses, provavelmente, não se falavam antes. Será?!

E em reuniões de família?! Até estão lá os parentes em pequenos grupos, rindo e falando, mas na maior parte das vezes mostrando uns aos outros vídeos, fotos, novas piadas… Já me disseram que só se substituiu a forma de contar piadas. Será?!
Dias atrás, parei o carro, de madrugada, para deixar passar pela rua dezenas de pessoas que saíam de uma festa. Não exagero se disser que 90% delas estavam imersas nos celulares, talvez chamando táxis por meio de aplicativos, talvez fossem filhos adolescentes chamando os pais para buscá-los. Talvez. Mas a imagem, naquele lusco-fusco, era de dezenas de zumbis, pessoas que não olhavam para os lados, hipnotizadas pelas luzes brilhantes de seu próprio mundo. Um mundo em que há muita superficialidade e pouco lugar para os outros.

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