MOISÉS MENDES
O ministro da Fazenda deles se chama Yanis Varoufakis. Já se falou muito do líder do partido Syriza e novo primeiro-ministro, Alexis Tsipras. Mas agora, Varoufakis é o cara, ele é quem cuidará do que possa vir a ser a nova economia de um país que empobrece, desemprega os jovens e parece não ter saídas.
Se fossem colocados frente a frente, Yanis Varoufakis e Joaquim Levy não combinariam nem no figurino. O grego tem cabeça raspada e não usa gravata. Na primeira reunião do ministério de Tsipras, na quarta-feira, deu para vê-lo no Jornal Nacional vestindo uma de suas camisas esportivas coloridas, com a gola aberta.
Tsipras, Varoufakis e muitos dos que os cercam não usam gravata. Você pode achar que isso não significa nada, mas talvez signifique. O time de socialistas moderados e radicais, velhos e novos comunistas, maoistas, trotskistas, feministas, ambientalistas não quer carregar nós no pescoço. Formam um agrupamento de esquerdas que você – das gerações das utopias dos anos 60 e 70 – achou que nunca mais chegaria ao poder.
É como se o PSOL de Luciana Genro, mais parte do PSTU, do PCO, da esquerda do PV e do PT, do PC do B e avulsos que ainda não se agregaram a partido nenhum tivessem finalmente a chance de se juntar e mandar no Brasil. Claro que a trajetória dos gregos é mais antiga e consistente, mas essa é a comparação possível.
A Grécia espera do Syriza e de seus aliados o que as esquerdas sempre aguardam dos que dizem representá-la – no essencial, espera alguma autenticidade que garanta coerência mínima entre a campanha e o governo. É uma espera invariavelmente frustrante.
Economistas como Joseph Stiglitz e Paul Krugman dizem que o mundo – e não só os gregos – torce para que se concretize a possibilidade de pensar e agir fora do vasto círculo de crenças num capitalismo cada vez mais imperfeito, alquebrado e desigual.
Claro que Stiglitz e Krugman, cada um com seu Nobel, não são anticapitalistas. São apenas inconformados com a prevalência de ações que se sustentam (inclusive nos organismos multilaterais) no raciocínio dos defensores dos mercados sem regulação, na hegemonia do poder financeiro e nas tentativas de despolitizar a economia.
A experiência grega pretende abalar essas crenças. Se der certo, algo importante terá acontecido. Mas será preciso adequar retórica e poder, não tropeçar nos despachos que o conservadorismo largou pelas encruzilhadas e resistir ao uso da gravata.
A grande dúvida é se conseguirão governar sem concessões que desfigurem demais suas intenções e frustrem os que dizem hoje “eu sou Tsipras”. Se não der certo, teremos mais uma contribuição da Grécia à mitologia.
As esquerdas mundiais poderão contar que um dia, no início do século 21, levaram a sério a nova versão de um certo Prometeu, que usava o colarinho aberto e também se anunciava como alguém que pretendia apenas melhorar a vida dos gregos e, se possível, da humanidade.
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