quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

" A Água invisível "

Artigo Zero Hora


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LUIS FELIPE NASCIMENTO
Professor na Escola de Administração da UFRGS
 
No sítio do José havia uma cascata onde corria água em abundância. Ele abastecia a casa e irrigava a horta. Produzia verduras para vender na cidade. Quando veio uma seca, a cascata secou
 e José teve que buscar água num açude distante. Para compensar o aumento dos custos, ele aumentou o preço das verduras, e a consequência foi a redução das vendas.
José percebeu que iria quebrar e então foi na cidade em busca de soluções. Ficou surpreso quando soube que a cidade estava racionando a água, embora 37% da água coletada fosse desperdiçada. Contaram a ele que pouquíssimos prédios armazenavam a água da chuva. José resolveu pesquisar e ficou espantado quando leu num relatório da ONU que 72% da água disponível no Brasil é utilizada na irrigação de lavouras. A indústria é responsável por 22% e o consumo humano utiliza penas 6%. Portanto, se as lavouras do mundo reduzissem em 10% o uso da água, daria para dobrar o abastecimento da população mundial.
José conheceu o conceito de “pegada hídrica” e o significado de “água invisível”, aquela que está embutida nos produtos. Por exemplo, são utilizados 15,5 mil litros de água para produzir um quilo de carne bovina e 11 mil litros para produzir uma calça jeans. José se perguntou: “Por que o foco das atenções está em 6% do consumo?”. Ele sabe que as lavouras estão longe das cidades, mas mesmo assim elas disputam a água dos rios com as cidades.
De volta ao sítio, José construiu um açude, uma cisterna e otimizou o consumo de água na casa e na horta. Conseguiu uma certificação de baixo consumo de água na sua horta. Ele reduziu o consumo de água e aumentou seus lucros. Hoje no sítio não existe mais esgoto nem lixo, tudo é reaproveitado.
Perguntaram a José, se fosse ele o prefeito, o que faria? Ele disse: “Em 10 anos, todos os prédios teriam que recolher, tratar e reutilizar parte da água que consomem. Reduzindo umas garagens, terá espaço para os reservatórios de água. Ah! Também faria uma campanha para que os consumidores valorizassem a pegada hídrica dos produtos. Se os consumidores cobrarem, a indústria e as lavouras vão reduzir o uso da água”.

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