sábado, 13 de dezembro de 2014

" O suicídio segue como tabu para os médicos "

J.J. Camargo[ médico cirurgião torácico e diretor do Centro de Transplantes da

                                             Santa Casa de Porto Alegre RS
.... a tentativa de tirar a própria vida é, na maioria das vezes , um pedido de socorro ! ...
J.J. Camargo: "O suicídio segue como tabu para os médicos" Edu Oliveira/Arte ZH
Foto: Edu Oliveira / Arte ZH
O tema segue como um tabu para a sociedade leiga e, incrivelmente, para os médicos. Segundo o professor Antônio Nardi, da Academia Nacional de Medicina, até poucos anos atrás não havia nenhuma aula sobre o assunto no curso de psiquiatria da UFRJ, mesmo que se saiba que há cerca de 33 casos por dia no Brasil e que se tenham suicidado mais soldados americanos no Iraque do que morrido em confrontos militares.
Curiosamente, quando é inevitável falar do assunto, porque envolveu um fato histórico como no caso de Getúlio Vargas, raramente o tema é visto do ponto de vista médico, preferindo-se o viés político. Os dados epidemiológicos revelam que, entre os jovens, de cada 200 tentativas de suicídio, uma se concretiza. Entre pessoas com mais de 65 anos, o risco de morte é maior (quatro tentativas por suicídio).
Segundo o IBGE, a taxa de suicídio no Brasil gira em torno de cinco por 100 mil habitantes. A região Sul apresenta maior taxa, em torno de oito suicídios a cada 100 mil habitantes, e a Norte, a menor, com quatro por 100 mil habitantes.
Os homens se suicidam quatro vezes mais do que as mulheres, apesar de as mulheres tentarem três vezes mais. Talvez, isso se deva ao fato de que elas utilizam meios menos violentos, e se preocupem mais em evitar métodos que possam desfigurá-las.
Como a ideia suicida representa um pico agudo e máximo de depressão, o melhor tratamento, pela rapidez da resposta, segue sendo a eletroconvulsoterapia. A recomendação para reduzir a incidência é o tratamento farmacológico e psicoterápico daqueles pacientes com assumida tendência à depressão.
A tentativa de suicídio é, na maioria das vezes, um pedido extremo de socorro, e todas as ameaças devem ser valorizadas, visto que quase sempre se percebe tardiamente que, em algum momento, houve uma sinalização ignorada.
Todos nós, naqueles dias em que nada dá certo, já nos sentimos desesperados. Mas sobrevivemos. O grande dilema é o limite entre a superação do desespero e o recomeço, ou a submissão ao que circunstancialmente pareceu sem retorno e o suicídio.
Essas histórias trágicas são sempre desconcertantes, seja pelo inesperado, seja pelo planejamento metódico e calculista. Ninguém preveria o desfecho quando, no meio da tarde, ela transpôs a portaria do hospital de transplantes e foi flagrada pelas câmeras falando ao celular. Entrou no banheiro, encostou a porta e algum tempo depois se deu um tiro na cabeça com um revólver 22, e ninguém ouviu o disparo. Quando foi forçada a porta, porque se percebeu que estava bloqueada por um corpo inerte, ela estava morta. Ao lado do revólver, um bilhete perturbador: “Sou doadora de órgãos”.
Concluídos os trâmites legais, o corpo foi removido para o IML, onde seriam vasculhadas apenas as evidências materiais da tragédia, porque o desespero estava explícito no gesto tresloucado, e um último e comovente rastro de bondade ficara lá no chão, rabiscado naquele bilhete.

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