segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

" A pederastia está tão enraizada que a Igreja

 teme uma hecatombe”

Sara Oviedo Fierro (Equador, 28 de julho de 1952) foi eleita em 2012 vice-presidenta do Comitê dos Direitos da Criança na ONU, diante do qual compareceu o Vaticano no último dia 16 de janeiro. A socióloga equatoriana, que começou aos 13 anos a defender os direitos dos indígenas, das mulheres e das crianças, foi testemunha das respostas esquivas e da negativa dos porta-vozes da Santa Sé em fornecer dados e fatos concretos sobre os casos de abusos sexuais no seio da Igreja. Como coautora do duríssimo relatório divulgado após o comparecimento, no qual a ONU exige que a Igreja entregue os padres pederastas e proteja as crianças, Oviedo afirma nesta entrevista, concedida por videoconferência, que a questão da pederastia está “tão enraizada nas bases da Igreja” que suas autoridades têm medo de enfrentar o problema.

Até agora nunca ninguém havia conseguido interpelar a Santa Sé. Foi difícil conseguir o comparecimento do Vaticano?
O que fizemos foi cumprir com o procedimento de analisar todos os países que firmaram o tratado dos direitos da criança, com a diferença de que tínhamos a convicção de que era preciso falar da pederastia. O diálogo com a Santa Sé ocorreu num momento em que era factível. Existe uma maior abertura da Santa Sé e existe uma necessidade latente das vítimas e da sociedade de reconhecer essa questão.

O Vaticano cumprirá os compromissos?
Eu insisto em que conseguimos algumas coisas. A primeira é o reconhecimento do problema da pederastia em todo o mundo. Até agora nenhuma autoridade, como a ONU neste caso, havia constatado isso como um problema importante que existe e que deve ser tratado. E outra coisa é reconhecer a dor das vítimas, que tiveram em si essa sensação de culpa e de não serem ouvidas. O comitê foi valente e consistente, sei que eles sentiram em nossas palavras essa posição madura quando lhes pedimos que mostrem os dados que nunca forneceram, que prestem contas das ações que estão fazendo e que entreguem os sacerdotes criminosos à justiça comum.

Como avalia as respostas dos porta-vozes diante do comitê?
O comparecimento desse dia foi uma espécie de farsa. Eles admitiram como fato que há pederastas, que estão muito envergonhados e que estão tomando uma série de medidas para evitar que isso ocorra. O diálogo foi um longo braço de ferro. Nós insistíamos em conhecer os casos concretos e em indicar-lhes as medidas que deveriam ser tomadas. Eles diziam que sim, que é preciso fazer algo, mas não davam fatos concretos. Entregaram-nos uma lista de sacerdotes afastados do sacerdócio por pederastia. Em resumo, não acredito neles. Ou estão fazendo muito pouco ou não estão fazendo nada. Foi uma situação bem ambígua, muito confusa.

Como definiria a atitude deles?
Eu percebi muito medo, a insegurança típica de quem é pego em flagrante e de quem sabe que está defendendo o indefensável. Quem responde assim sabendo todo o mal que se fez a tantas vitimas humanas tem muito cinismo.

Os porta-vozes do Vaticano mentiram durante seu comparecimento?
Eu não acho que tenham mentido. Acho, sim, como dizem eles, que estão preocupados e que tomaram medidas tênues, mas o problema é esse: acho que o fazem para nos contentar e para que reduzamos a pressão. Usaram essa forma ambígua tentando que caíssemos no jogo e que no final disséssemos: “Que bom que vocês estão pensando em tudo isso e obrigada.” Mas não caímos, lhes dissemos claramente que não acreditávamos neles, com diplomacia e bom ambiente, sem gritos: “Não acreditamos nos senhores, não vemos o que estão fazendo. As vítimas continuam esperando respostas”.

A Igreja se sente impune?
Se analisamos as suas respostas nesse dia não vejo sintoma de que se sintam impunes, embora nos fatos tenham atuado dessa maneira, com a lógica de continuar protegendo-os (os pederastas). Se um militar é flagrado em situações desse tipo é entregue à justiça comum, não é possível entender porque eles não o fazem. A única conclusão que tiro é que a questão da pederastia é estrutural e que está tão enraizado nas bases da Igreja que se teme que se isso começar a ser enfrentado ocorrerá uma hecatombe que comprometerá todas as estruturas e suas autoridades. Pela proteção com que tratam o tema nos fazem pensar que seja muitíssimo maior.

Os porta-vozes do Vaticano se recusaram a interferir na liberdade religiosa, qual a sua opinião sobre isso?
Eu acho que isso foi uma saída pela tangente para poder reduzir a pressão. Quiseram dizer que não só estávamos sendo duros e injustos com a questão da pederastia, mas também que estávamos interferindo em outros assuntos como o aborto, a homossexualidade e a questão de gênero, mas eles sabem que não houve insistência sobre esses temas.

Como avalia o silêncio do papa Francisco depois do relatório?
Eu gosto das pessoas que falam um pouco tarde, mas com consistência e com a verdade. Parece-me coerente que não tenha falado, ele deveria falar com fatos e para apresentar propostas. Se falasse agora para dizer o que estão dizendo os porta-vozes da Santa Sé decepcionaria muita gente. Acho que está tomando o tempo necessário para poder oferecer respostas concretas.

Para as vítimas isso foi uma grande vitória. O que vem agora para elas?
As vítimas são as que têm a faca e o queijo na mão. Acho que nós cumprimos de maneira madura e consistente nosso papel. Agora cabe a elas fazer as denúncias em seus países de origem, retomar a luta e propor agendas bem claras para ver como conseguir que na prática se concretize aquilo que a Santa Sé reconheceu diante do comitê que é preciso fazer.

As associações mexicanas pedem que se julgue o Vaticano por crimes de Estado, acha que existem elementos para isso?
Eu não sei sinceramente quais são os elementos necessários para isso, a mim já não me cabe julgar isso.

O porta-voz do Vaticano diante da ONU disse que existe pederastia na Igreja da mesma forma que em outras profissões?
Justamente eles, como guias espirituais, são obrigados a dar o exemplo. Além disso, não é porque os outros o fazem que seja justificável, são eles que assumiram ser guias espirituais e que assumiram o celibato. A proteção aos sacerdotes criminosos criou ali um lugar quase patológico, com situações muito doentias onde a sexualidade humana está totalmente deformada.

Acredita que algum dia se fará justiça às vítimas?
Eu acho que o ser humano vai avançando e que essa humanidade vai colocar limites àqueles a quem é preciso colocá-los. Talvez nós não a vejamos, mas um dia será feita, sim, justiça.

A senhora crê em Deus?
É complicado. Eu acredito em Deus, mas no Deus dos pobres. A mim me custa muito acreditar na instituição da Igreja, que cometeu tantos erros e que está sempre do lado dos que detêm o poder. Não consigo acreditar nela.
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A entrevista é de Inés Santaeulalia e publicada no jornal El País, 15-02-2014.
Fonte: IHU online, 17/02/2014

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