Artigo Zero Hora
* FÊCRIS Vasconcellos (Jornalista de Zero Hora)
Quando eu era criança, fiz um passeio do colégio até a Praça da Matriz, em Porto Alegre.
Lá, a professora da época — cujo nome não lembro, mil desculpas — ensinou um grupo de pequenos estudantes de sete ou oito anos a diferença entre os poderes que tinham suas sedes no entorno. Nunca vou me esquecer de como ela explicou o simbolismo da parede sem janelas do Palácio da Justiça: "É para que eles não olhem para nenhum outro poder na hora de julgar e, por isso, não sejam influenciados". Achei aquilo mágico.
Cresci e cá estou, mais de 20 anos depois, assistindo ao Judiciário legislar e, muitas vezes, tomar as atitudes que se esperava que nossos representantes que são pagos para isso o fizessem. Nós elegemos um corpo de vereadores, deputados e senadores para que eles façam as leis defendendo os interesses da população. Contudo, no jogo político de troca de favores, de rusga oposição/situação, o interesse dos cidadãos se perde e ganha apenas o que querem algumas pessoas ou partidos.
O caso da proibição redundante do Uber em Porto Alegre, que aconteceu na semana passada, é apenas um exemplo, mas os jornais estão cheios deles diariamente. A maioria — e olha que normalmente a maioria não é muito ousada — pede mudanças mínimas que não são atendidas, para privilegiar o interesse de classes específicas. No caso do Uber — que, bem ou mal, pelo menos força a qualificar o serviço de táxi de Porto Alegre — de quem eram os interesses que os vereadores estavam defendendo durante a votação? Na briga pela revisão da meta fiscal de 2015 — que se resume a um cabo de guerra entre oposição e situação —, de quem são os interesses que um lado ou outro dos integrantes da Câmara Federal defendem?
Não me sinto representada pelas casas legislativas que eu ajudo a eleger. Não por grande parte de suas decisões, ao menos. Acho triste que precisemos abrir forçosamente janelas no Judiciário para que olhe e arrume algumas das falhas deixadas por nossos políticos. Quero ser representada por quem eu elejo para fazê-lo. É pedir demais?
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