sábado, 2 de maio de 2015

" Vai dar bolo " !



Escrevo antes de dormir, intrigado com o que ouvi à tarde de um colega que acompanha muito de perto a revolução tecnológica. Disse ele que já está em teste um algoritmo capaz de prever com exatidão o que será notícia amanhã, a partir do zum-zum-zum das redes sociais. Depois que consultei o preço de uma camiseta do Japão no Google e o uniforme da seleção nipônica passou a me perseguir por todos os sites que consulto, já não duvido de mais nada.

Algoritmo, decifra-me ou te devoro.

Decifro, depois de consultar a enciclopédia digital. É uma sequência de instruções que podem levar, às vezes automaticamente, à solução de um problema. Como a gente sempre pensa em computador quando imagina coisas que se resolvem sozinhas, os autores do conceito apressam-se a explicar que não se trata apenas de informática. Algoritmo, esclarecem, pode ser uma receita de bolo.

Consulto, então, minha esposa sobre o algoritmo do meu bolo preferido:

– Duas xícaras de farinha, duas xícaras de açúcar, quatro ovos e meia xícara de leite – me responde, sonolenta.

O resto eu sei, de tanto assistir à alquimia culinária, sempre com água na boca. Mistura-se tudo e leva-se ao forno pelo tempo necessário para criar aquela casquinha gostosa na cobertura. O cheiro que escapa durante o cozimento é uma verdadeira tortura, mas vale a pena acompanhar.

Esses ingredientes olfativos e emocionais, evidentemente, não fazem parte dos algoritmos utilizados na programação de computadores. Mas a definição serve: um algoritmo é uma sequência lógica de passos e instruções que devem ser seguidos para resolver um problema ou executar uma tarefa.

Não passa dia sem que um jovem pesquisador anuncie um algoritmo de futurologia, a partir da imensidão de dados existentes no multiverso das redes sociais. Tem até um que recolhe informações do Face e diz quando um namoro ou romance deve acabar. Ou seja: a coleta e a operação das informações obedecem à automaticidade da computação, mas o resultado interfere nas emoções.

Assustador isso, não?

Minha vacina contra essa tecnologia que ameaça namoros e profissões é um ceticismo adesista. Tomara que não vingue, mas, se vingar, a gente se adapta. Enquanto isso, prefiro seguir os meus instintos e prever a minha própria manchete para a manhã seguinte, no café da manhã:


– Vai dar bolo!

" Falar ou calar, companheira Dilma ??? "


sem ordem,sem progresso e sem Governo ...




Para qualquer lugar que se olhe, os números justificam a cisão entre PT e trabalhadores


O 1º de Maio, Dia do Trabalho, deveria ser uma data de gala para o Partido dos Trabalhadores. O PT está no Poder há mais de 12 anos, legitimamente eleito em quatro consultas consecutivas à população. Lula duas vezes. Dilma, mais duas. Por que então a presidente decide não fazer o pronunciamento tradicional em cadeia de rádio e televisão para 200 milhões de brasileiros? Por que não agradecer o voto de confiança dado a ela há apenas alguns meses – que já parecem uma eternidade?

Medo de um panelaço pior que o do Dia da Mulher. Panelas novas, panelas importadas, panelas velhas, panelas arranhadas. Medo do barulho infernal que pode emergir de residências caras, apartamentos modestos ou barracos. Medo da reação dos trabalhadores, não importa quanto ganhem. Medo da desilusão dos que perderam o emprego. A taxa de 6,2% de desocupação é a mais alta desde maio de 2011. O total de desempregados aumentou 23,1% em relação a março de 2014. As contas públicas registraram o pior trimestre em 17 anos.

O governo nega medo de panelaço ou de vaia. Dilma prefere gravar e divulgar alguns vídeos com mensagens nas redes sociais, segundo o ministro da Comunicação, Edinho Silva. O PT não gostou dessa desculpa tecnológica. Dirigentes petistas acham “um absurdo” e criticam a “covardia” de Dilma. Lula também pressiona a companheira. Há duas semanas, ele apelou em reunião com sindicalistas: “Dilma, se tem gente para te defender para sair dessa enrascada, é esse pessoal aqui”.

Qual enrascada? Para qualquer lugar que se olhe, os números justificam a cisão entre o PT e os trabalhadores. Tivemos o pior desempenho da história da caderneta de poupança, com os saques superando os depósitos em R$ 23 bilhões. O salário acaba antes do mês. Brasileiros raspam suas economias. É a maior carestia em 12 anos. A inflação e a desaceleração econômica aumentam as demissões e diminuem o poder de negociação salarial. A renda média do trabalhador foi reduzida em 2,8% em março – a maior queda em um mês desde janeiro de 2003, segundo o IBGE.

Em 2003, em seu primeiro Dia do Trabalho como presidente, Lula fez um discurso na Igreja da Matriz, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Foi uma fala de improviso, coisa inimaginável para Dilma. “E eu tenho, na minha cabeça, cada discurso que fiz na minha vida, eu tenho na minha cabeça cada compromisso que eu assumi em praça pública, eu tenho na minha cabeça programas de governo e eu tenho na minha cabeça que, se falhar, quem falhou foi um pedaço da história deste país e, possivelmente, iremos passar muitos anos para que a gente possa reconstruir a esperança que brotou no nosso país.” Premonição?

Lula dizia querer ser lembrado pela qualidade de vida de homens e mulheres. “E sobretudo pela qualidade da educação e da saúde que a gente quer implantar neste país.” Para tanto, o governo precisa “ter a habilidade de envolver a sociedade brasileira para se tornar cúmplice do governo”. “Podem ficar certos que todo 1o de Maio, às 9 horas da manhã, o presidente da República estará aqui para prestar contas do que estamos fazendo neste país”, afirmou Lula em 2003, pedindo que “Deus abençoe todos nós”.

Doze anos depois, onde está a qualidade na educação e na saúde? Doze anos depois, por que Dilma evita falar em público ou na televisão? Não quer prestar contas? A sociedade foi, sim, cúmplice do governo e acreditou no PT, como queria Lula. O PT teve a bênção de Deus, mas se deixou corromper pelo diabo.

A sociedade só não se sente cúmplice da corrupção e da incompetência que roubaram bilhões dos trabalhadores e de suas famílias. Agora, o ajuste fiscal, necessário como um antibiótico com efeitos colaterais negativos, tira bilhões do seguro-desemprego, da pensão por doença e morte e do abono salarial. O corte de R$ 18 bilhões em benefícios sociais foi reduzido para R$ 7,7 bilhões por resistência do Congresso. Onde está o corte necessário e moralizador nos surreais 38 ministérios? É ou não “corte na carne”?

Neste Dia do Trabalho, Lula e a CUT querem que Dilma condene a terceirização aprovada na Câmara. Na segunda-feira passada, Lula disse que, no 1º de Maio, “tranquilamente, a companheira Dilma vai vetar (a terceirização das atividades-fim das empresas)”. Se falar, a presidente dirá que não é a favor nem contra, muito pelo contrário. Dirá que apoia a terceirização para aumentar chances de trabalho e produtividade. Dirá que rejeita mexer nas conquistas trabalhistas. Dirá, como o presidente do Senado, Renan Calheiros – quem diria –, que não dá para liberar geral a terceirização, num momento em que o Estado aumenta impostos e juros.

Neste feriadão, o povo não quer mesmo ouvir Dilma. Não foi apenas o trabalho que se tornou precário. Foi a presidente.

" A Corrupção Nossa de Cada Dia "

Artigo Zero Hora


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PAULO KROEFF
Presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência/RS

Sim, claro, condenamos veementemente a roubalheira desenfreada que segue se desvendando na Petrobras, e a criminalização dos responsáveis.
Também apoiáramos a condenação dos “mensaleiros” e sua prisão, apesar do desplante de alguns se declararem “mártires” de uma trama orquestrada pela mídia.

 A desculpa às vezes apresentada de que aquilo era “simplesmente” caixa dois eleitoral, no qual todos os partidos se refestelavam, foi desmontada assim que uma ministra do Supremo Tribunal Federal relembrou que caixa dois também é crime.

Então, todos condenamos corruptos e corruptores, e seus imensos desmandos. Mas será que temos clara consciência de que estes roubos e crimes não têm suas raízes embrionárias em grandes malfeitos?
Começa-se com “pequenos” deslizes que são rachaduras que iniciam a corrosão do sistema pessoal de valores.

Pode ser um “furo” numa fila ou a ocupação indevida de uma vaga prioritária de estacionamento. Surrupia-se essa destinação social das vagas de pessoas idosas, de mulheres grávidas e de pessoas com deficiência. E as “desculpas”, dentre as quais, “era só por uns minutinhos”, são injustificáveis. A geral impunidade desses atos estimula sua continuidade.

Outros poucos exemplos são a nota fiscal solicitada a maior, para o ressarcimento do valor de um almoço, ou, ainda, um recibo não fornecido, em conluio de profissional com cliente, para fraudar o imposto de renda. Finge-se que isso também não é tirar o leite das criancinhas, nem suas creches, nem o dinheiro da saúde ou da educação. Apresenta-se como justificativa de que “isso é dinheiro que iria, de qualquer forma, para a corrupção institucionalizada”.

Esses tolerados “pequenos” deslizes são a corrupção nossa de cada dia que abre caminho para as futuras malas de dinheiro que virão… e muito mais!

Conclusão: Ou nos pautamos, convictos, por um sólido sistema pessoal de valores, que não precisa de fiscalização externa, ou viveremos uma farsa, rapidamente abandonada quando estivermos convencidos de que não seremos flagrados em nossos desmandos maiores. 

                         É assim de simples!

" A Vida Que Vive "

Artigo Zero Hora


RODRIGO LOPES
rodrigo.lopes@zerohora.com.br
Editor de ZH e professor universitário

A cena era dura, porque dura é a morte. Mas, naquela ocasião, em uma estrada empoeirada, entrada de Porto Príncipe, a morte ganhava um toque de delicadeza: o cadáver de uma mulher, um dos 316 mil mortos do terremoto que devastou o Haiti, em janeiro de 2010, era transportado na traseira de uma caminhonete. Meus olhos foram imediatamente atraídos para o rosa de suas unhas dos pés a contrastar com a aridez do cenário.
Corta a cena! Retrocedamos três anos, agosto de 2007: saída do vilarejo de Pisco, interior do Peru. Depois de uma madrugada de trabalho, acompanhando o resgate dos corpos do interior de uma igreja destruída por outro terremoto, vejo um caminhão aproximando-se do meu carro. Ao redor, mulheres, crianças e cães correm para alcançar sacos de comida atirados por voluntários. Choro de emoção.
Voltamos aos nossos dias. Observo a tragédia do Nepal antevendo um ciclo jornalístico conhecido: no primeiro dia, o estupor do desastre. Pessoas correm para um lado e outro, mortes e destruição por todos os lados, resgates; no segundo, a ajuda internacional começa a chegar ao país arrasado, começam os saques; no terceiro, aparece o risco de epidemias. É preciso enterrar os mortos urgentemente. Metrópoles se tornam cidades de caixões. Ou esburacadas por valas-comuns. Cumprem-se as famosas 72 horas, tempo máximo que os especialistas preveem que uma pessoa é capaz de sobreviver sob escombros. Nos quarto e quinto dias, quando o assunto começa a desaparecer do noticiário, surgem os milagres. Imagens como as do bebê Sonit Awal, de cinco meses, retirado dos escombros de Muldhoka, a leste de Katmandu. O rosto está coberto de poeira de escombros, é quase difícil identificar se seria um bonequinho de brinquedo ou um ser humano. Olhinhos fechados. Está vivo.
Se a ciência no século 21 ainda não é capaz de prever terremotos _ tsunamis são mais fáceis _, resta convivermos com esses fenômenos. Não é a natureza que está em lugar errado. Somos nós que construímos cidades onde a vida urbana um dia pode ser aniquilada: Anatólia, San Andreas, fissuras entre placas tectônicas que um dia, infelizmente, vão matar populações na Turquia e na Califórnia. Uma consolação: mesmo no horror, aparecem a delicadeza de unhas pintadas, a solidariedade do homem do caminhão de comida e os bebês que contrariam as estatísticas. Vida que insiste em seguir vivendo.

" O cenário a ser evitado "

Editorial Zero Hora



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O Brasil tem um exemplo lamentável do que não pode se disseminar pelo país, no contexto da degradação do setor público, enquanto crescem as demandas não atendidas e os conflitos decorrentes de gestões ineficientes. É o que vimos no Paraná, durante esta semana, com o agravamento do confronto entre um Estado fragilizado por seus erros e setores do funcionalismo público resistentes a mudanças. No caso específico, a contrariedade é manifestada por professores receosos com alterações na cobertura da previdência social.
É justo que os diretamente envolvidos procurem avaliar os impactos em suas vidas e no futuro do próprio sistema previdenciário. Para a população paranaense, que sustenta o Estado, e para os brasileiros em geral, que acompanham a evolução dos confrontos, o que importa é dispor de informações suficientes para a compreensão de um fenômeno alarmante. No Paraná, o Estado depauperado chegou ao seu limite, amplificando atritos políticos, o desgaste da autoridade e o aumento da desconfiança entre quem lidera e quem é liderado. Nesse conflito, marcado pelo injustificável excesso policial, o funcionalismo é apenas um dos protagonistas, pois o desfecho dos impasses interessa a todos.
Enganam-se os que observam o caso em questão como uma situação com circunstâncias bem específicas e confinadas a um Estado. O que os paranaenses enfrentam configura o estágio avançado da mesma crise que consome recursos e energias de outras unidades da federação, entre as quais o Rio Grande do Sul. O descontrole das contas públicas, que desequilibrou por completo as finanças do governo de Beto Richa, é parte do mesmo conjunto de enganos cometidos por outros governantes estaduais e municipais. É um cenário que reproduz a mesma situação enfrentada pela União, às voltas com a tentativa de equalizar receitas e despesas num ajuste fiscal até agora frustrado.
Correções pontuais não serão suficientes para reparar os danos de décadas de desleixo, do adiamento de reformas do Estado, da reavaliação de estruturas arcaicas e da concessão de privilégios. Os Estados ainda têm a chance de evitar o que ocorre hoje no Paraná. Desde que não ignorem uma realidade que acaba por punir não só governantes e servidores, mas todos os que os sustentam e deles esperam o cumprimento das atribuições das instituições públicas.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

O RIO GRANDE DO SUL - rejeita Dilma

http://veja.abril.com.br/multimidia/video/dilma-afunda-no-estado-adotivo

o Rio Grande do Sul

Dilma bate recorde de rejeição "em casa". Segundo levantamento do Instituto Paraná Pesquisas, a rejeição da presidente está na casa dos 80% no Estado do Rio Grande do Sul. 

Os tucanos Geraldo Alckmin e Aécio Neves liderariam o cenário se enfrentassem hoje o petista e ex-presidente Lula. Assista ao 'No Alvo', com Joice Hasselmann.



" CORRUPTO BRASIL SIL SIL "

Triângulo perigoso envolve Toffoli, ministro do STJ e empreiteiro

O ministro Dias Toffoli, do STF, nunca vem escoltado por boas notícias. A capa de VEJA desta semana estampa uma preocupante proximidade entre o ministro e o empreiteiro Leo Pinheiro da OAS, segundo relatório da Polícia Federal. "Quando os escândalos de corrupção se aproximam da cúpula do PT, o Supremo Tribunal Federal parece não estar interessado em apurar o caso", diz o colunista de VEJA Augusto Nunes. Entenda o caso no 'Giro Veja', com Joice Hasselmann.

" Diziam que o ano não ia ser bom "


MARCOS PIANGERS



Que maravilha tem sido este ano, cheio de feriados em dias de semana. E a maioria perto do final de semana, o que significa folga prolongada. Mesmo no Dia do Trabalho, vejam vocês, estamos agora dormindo até tarde, leremos este jornal apenas perto do meio-dia. Que maravilha é um feriado caindo numa sexta-feira.

Melhor que isso só um feriado caindo na quinta-feira. Melhor do que isso só a ponte de Laguna ficando pronta. Porque quem não gosta de feriado é marido de mulher feia. Ou o cara que mora com a sogra. Esse fica até tarde no trabalho e reza pro feriado cair no domingo.

É claro que existem aquelas pessoas irritantes que amam o trabalho. Que tipo de gente mais desagradável. Essas pessoas com trabalhos maravilhosos me revoltam. Como aquele cidadão que passa óleo nas modelos internacionais, para que a pele das fotografadas fique brilhante e saudável.

Ou aquele gordinho da TV a cabo, que faz um programa de viagens e está sempre em um lugar diferente do mundo, sempre feliz demais. Ou comentaristas esportivos, pagos para assistirem a jogos de futebol e dizerem quem jogou melhor. Ou essas pessoas que ficam uma hora por dia falando bobagem no rádio e ainda são pagas pra isso. Revoltante, não há outro adjetivo.

Porque para a grande maioria dos viventes o trabalho é sofrimento. Trabalho é terno, trânsito, lugar pra estacionar. É bandejão e impressora que estraga. É a catraca da entrada do escritório, que leva três segundos pra liberar depois que você passou o crachá. Cada vez que você entra tem que esperar três segundos. Cada vez que sai, também. Em algum tempo, você terá perdido um dia inteiro, 24 horas esperando a catraca do escritório abrir.

Cansei de conhecer pessoas empolgadas com o novo emprego, felizes com os desafios. Para estes: burocracia! É o que merecem. Façam-nos preencher em detalhe um relatório sobre o que esperam do novo emprego, onde se veem daqui a cinco anos. Obriguem-nos a preencher novamente este relatório de três em três meses. Tornem obrigatória a troca da senha do e-mail corporativo de 15 em 15 dias. Proibida a entrada no escritório de bermuda.


Proibido o acesso ao Facebook no escritório. Proibido ouvir música. Proibido celular. Cada ambiente de trabalho é uma indústria especializada na fabricação de apaixonados por feriados. E que maravilha é um feriado quando cai numa sexta-feira.

" A Calçada de Plástico "




Há exatos 20 anos, em maio de 1995, acompanhei uma delegação de empresários catarinenses em missão pela bela Itália. Era uma viagem de trabalho, mas acabou sendo das mais prazerosas que fiz na vida. Um dia, conto mais a respeito. Por ora, quero falar de um episódio ocorrido numa cidade industrial do norte da Bota. Não lembro que cidade era. Lembro que os empresários italianos apresentavam aos brasileiros uma máquina de reciclar plástico.

O plástico velho entrava por uma ponta e saía por outra transformado em calçadas novas. Isso mesmo: lajotas de plástico furadinho, que seriam encaixadas no chão a fim de serem usadas como calçadas baratas e de fácil instalação.

Os italianos mostravam-nos com orgulho uma das calçadas montadas. Caminhamos sobre ela. Então, me agachei, enfiei o indicador no orifício de uma das placas e a levantei.

– Elas não ficam presas? – perguntei.

– Não. É assim mesmo – respondeu um dos italianos.

Balancei a cabeça: – Não vai dar certo no Brasil.

Eles se espantaram: – Por quê?

– Porque a turma vai arrancar isso e levar embora.

Os italianos ficaram embasbacados. Queriam saber por que catzo os brasileiros fariam uma coisa dessas com a calçada em que eles próprios pisavam. Ninguém soube explicar muito bem, mas os brasileiros concordaram comigo, disseram “é, no Brasil não vai funcionar”, e o negócio não foi fechado. Bem.

Você sabe por que no Brasil esse tipo de iniciativa não funciona? Sabe por que orelhões são depredados e tampas de lixeira roubadas? Por que as pessoas sujam as ruas? Por que picham os monumentos?

Porque, para elas, nada daquilo a elas pertence. Para os brasileiros, tudo que é público pertence a uma entidade chamada vagamente de “eles”.

“Eles” ninguém explica o que seja, mas é o Estado. Os brasileiros sentem-se fora do Estado, abaixo dele. Por isso, culpam o Estado por todas as suas vicissitudes. Afinal, aquela entidade superior teria poder para resolver os problemas. Não os resolve porque não quer.

Na França, Luís XIV, o Rei Sol, dizia: “O Estado sou eu”. E era mesmo. Mas, dois Luíses depois, os franceses fizeram a revolução, separaram o corpo do rei de sua cabeça e disseram: “O Estado é nosso”. Hoje, esse é um dos maiores dramas franceses. Como o Estado é deles, eles exigem o usufruto do Estado, e sangram o Estado, e o Estado não aguenta mais.

Na Rússia, o Estado também era do czar. Mas os bolcheviques fizeram sua revolução e avisaram ao povo: “Agora, vocês são do Estado”.

Nos Estados Unidos, os pioneiros chegaram à Costa Atlântica e decidiram começar tudo de novo, juntos e em harmonia, sem ninguém acima deles. Assim, todos concordam em cumprir o acordo social, que é o seguinte: todos têm de cumprir a lei.


Seria o ideal, mas os americanos do Sul trouxeram homens negros da África e os escravizaram. Como a proclamada terra da liberdade suportaria a contradição da escravidão? Não suportou. Dilacerou-se na maior guerra civil do planeta, em que morreram mais de 600 mil pessoas. Os negros foram postos abaixo do Estado, e é assim que ainda percebem a realidade. Os negros americanos não se sentem parte do Estado. Exatamente como nós, brasileiros. Mas a melhor fórmula é a dos velhos colonos ingleses. É dizer: “O Estado somos nós”

" Dia do Trabalho"



Dia do trabalho

A história do trabalho humano é das partes mais lindas e interessantes da história da humanidade. Talvez seja mesmo a parte mais digna, honesta e bonita. Estão aí pirâmides, muralha da China, estádios à beira de rios, livros, bibliotecas, jardins, templos, catedrais, obras gigantes, pequenas casas em aldeias, represas, edifícios, arte, artesanato, tudo feito quase sempre por milhões de anônimos, geralmente mal remunerados.

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Desde que Adão comeu a maçã e Deus o mandou ir atrás e suar um monte para comer, até o ócio criativo, o direito à preguiça, o lazer cultural e outras modernidades laborais, passando por lutas sindicais e revolução industrial, muita coisa aconteceu nestes milênios, especialmente a partir de 1886. Em Tempos Modernos, Chaplin deixou seu recado sobre o novo mundo trabalho, com suas linhas de produção, suas correrias e falta de humanismo.

Tripalium, instrumento de ferro ou de madeira com três pontas, usado antigamente na lavoura para separar cereal, teve sua utilização decaída e virou instrumento de tortura e, aí a triste origem da palavra trabalho, até hoje muita associada com pecado, punição, esforço, tortura, abuso e violência. No Brasil do século XXI, o trabalho escravo é objeto de uma PEC. Triste, mas não podemos deixar isso de lado, esquecer essa chaga no Dia do Trabalho. Desculpem.

1886, primeira grande paralisação de empregados nos EUA. 1889, Paris, enorme movimento de operários. 1891, 8 horas diárias de trabalho. Na Inglaterra da Revolução Industrial a frase revolucionária, verdadeira lição de vida e de luta: 8 horas de trabalho, 8 de diversão, 8 de descanso e 8 shillings por dia. Meu pai me ensinou esta frase, quando eu tinha uns dezoito anos, mas sem os 8 shillings, que as oito de trabalho eram de estudo.

1º de maio no Brasil virou feriado nacional só em 1924 com o Presidente Artur Bernardes. Nos outros países foi bem antes, como de costume nestas coisas. Nossa CLT, não por ocaso, foi promulgada no histórico 1º - 5- 1943. De lá para cá muitas conquistas, muitos avanços, especialmente no âmbito do trabalho doméstico, um setor que evoluiu muito, calmamente, sem tumultos, sem problemas maiores. Domésticos constituem a maior categoria profissional do Brasil.

Claro que há muito ainda por acontecer nas relações de trabalho no Brasil. Temos que evoluir. Tomara que aconteçam coisas boas. Muito diálogo produtivo entre as forças do capital e do trabalho seria um ótimo, desejável caminho. Não é fácil, nunca foi fácil a conversa entre o capital e o trabalho, nestes séculos de luta. Mas seria o melhor. Vamos torcer pelo melhor.

É sempre bom lembrar que na vida a relação com o trabalho é das mais longas que temos e é das que podem nos dar mais alegria e satisfações. É uma espécie de casamento com uma parte importantíssima da gente, um relacionamento com nossos setores produtivos e criativos, por aí. Que seja bom. Para nós e para os que estão perto.

a propósito...


O ideal seria que todo mundo trabalhasse com a seriedade e a alegria de uma criança brincando. Não é fácil. Pouquíssimos conseguem. Mais comum em áreas artísticas, de criação, atividades que envolvem sonhos infantis, aspirações profundas, e vocações inatas, difícil explicar. Bom pensar que mesmo num mundo onde a alta tecnologia por vezes aliena e faz os trabalhadores, solitários, conviverem até demais com as telas e o silêncio, sempre haverá momentos de pausa, olhar, conversa, abraço, cafezinho, chá, chimarrão e convívio indispensável. Se não houver, melhor exercer o direito à preguiça, ir para a praia e viver à base de peixe com banana.

" Uma reflexão necessária "

Artigo Zero Hora

CLEUSA REGINA HALFEN
Desembargadora, presidente do TRT da 4ª Região (RS)

No primeiro dia do mês de maio é celebrado, em vários países, o Dia do Trabalho. Há questão de 10 dias, no entanto, a Câmara dos Deputados aprovou um conjunto de emendas ao PL 4.330, que objetiva regular a terceirização, fato que não traduz qualquer motivo de comemoração para os trabalhadores.

Pelo texto encaminhado ao Senado, foi aprovada a terceirização em qualquer atividade da empresa (atualmente a legislação prevê a possibilidade de terceirização nas contratações em trabalho temporário; serviços de vigilância; serviços de conservação e limpeza; e serviços ligados a atividades-meio).

A possibilidade de terceirização das atividades-fim, aliada a medidas como a diminuição, de 24 para 12 meses, do prazo para que um trabalhador que detinha vínculo de emprego retorne à empresa na condição de terceirizado, e a “quarteirização” (subcontratação de terceirizada por terceirizada), revela quadro extremamente nocivo ao trabalhador, segundo manifestações unânimes dos juízes do Trabalho de primeiro e segundo graus, de norte a sul do país, bem como do Tribunal Superior do Trabalho.

Malgrado os defensores do PL indiquem possíveis benefícios como a melhoria na produtividade das empresas, pela maior agilidade na gestão da mão de obra, a segurança jurídica oriunda da regulamentação ou o salutar acirramento da competitividade, os indícios de retrocesso social mostram-se muito mais contundentes.

É consenso entre os magistrados do Trabalho que a nova legislação produzirá nefasta redução das garantias sociais mínimas, especialmente inevitável diminuição das médias salariais, aumento da rotatividade e abrupta contração do mercado de trabalho pelo incremento das jornadas _ pois os terceirizados costumeiramente trabalham mais horas, ficam menos tempo nos empregos e recebem salários inferiores.

Esperemos que o Senado se mostre sensível à grave ameaça de precarização das relações de trabalho contida no PL 4.330 e relembre os princípios que inspiraram o Legislativo a gestar os direitos trabalhistas incluídos na Constituição da República.

" NÃO À VIOLÊNCIA DE RICHA E AO ARROCHO DE DILMA "

Artigo Zero Hora


BERNADETE MENEZES
Funcionária pública, da direção nacional da Intersindical

O que aconteceu no Paraná é inaceitável! Às vésperas do 1º de Maio, um verdadeiro massacre contra professores, acompanhado pelo governador Beto Richa (PSDB), que assistia e torcia do alto de seu gabinete, como mostram vídeos nas redes sociais. 

Está claro! Este é o método para impor o arrocho comandado pelo governo Dilma e aplicado a ferro e fogo pelos governos estaduais e municipais. Impedem o povo de ocupar “A Casa do Povo” e cortam direitos dos trabalhadores para garantir o pagamento da dívida pública. Ou seja, ataca os pequenos e garante lucros fabulosos para os ricos. Tudo isso com a garantia dos maiores juros do mundo, que ontem passaram a 13,25%. Um escândalo!

Assim foi a votação na Câmara do PL 4330, que amplia as terceirizações, precarizando o trabalho. PL, este, condenado inclusive pelos ministros do TST.

 As Medidas Provisórias 664 e 665 atacam, entre outros direitos, o seguro-desemprego, justo quando as demissões aumentam em todo o país. Além da entrega de patrimônio público construído com nosso dinheiro, como aeroportos, portos e poços de petróleo.

Infelizmente, o 1º de maio em todo o mundo será contra o ataque a um patamar civilizatório que nós trabalhadores conquistamos nos últimos dois séculos em todo o mundo. Com muita luta, perda de vidas, feridos, prisões, exílios e repressão.

Se compararmos nossa luta com uma corrida de revezamento, nossa geração está passando um bastão de direitos pela metade para a juventude que entra no mercado de trabalho. São ataques à previdência, aumento de horas de trabalho, terceirizações, “acidentes de trabalho”, sucateamento dos serviços públicos, adoecimento dos trabalhadores, trabalho escravo e muitas coisas mais.

Mas, isso não está ficando sem respostas. A juventude tem ido às ruas nas principais capitais do mundo. O povo grego tem reagido à altura fazendo auditoria da dívida pública e dizendo que o povo não vai pagar esta conta. Aqui não é diferente.

 As mobilizações de 2013. A greve dos professores do Paraná e de outros cinco Estados reflete o que disse uma jovem do Grêmio do Julinho em uma manifestação “Lutamos porque não queremos ser uma geração terceirizada!”.

" Nós, os Indios "...e tudo sempre vira em pizza,em desmandos,e em nada ..." isso se chama BRASIL !

Artigo Zero Hora


MOISÉS MENDES
Jornalista
moises.mendes@zerohora.com.br


STF revoga prisão de empreiteiro da Lava Jato e determina regime domiciliar

Soltaram os empreiteiros presos em Curitiba. Deveriam ter soltado? Há quem acredite que eles estavam presos apenas para que virassem delatores. Foram quase seis meses, e a maioria aguentou.
Não se imagina que o clube do superfaturamento tenha o peito de se reunir de novo para trocar charutos e obras e acertar a propina de Pedro Barusco, o único ladrão avulso. Até porque Barusco não deve estar precisando de mais nada.
Os empreiteiros só voltarão para a cadeia se os advogados cometerem barbeiragens. Se forem advogados medianos e buscarem informações com a turma impune do mensalão tucano, adiós cárcere.
Pelo que se deduz do que dizem alguns juristas, é mais fácil o ex-governador Eduardo Azeredo ser condenado em primeira instância em Minas, pelo mensalão do PSDB, do que um empreiteiro voltar para a cela.
Não há dúvida de que o juiz Sérgio Moro irá condená-los. Mas aí teremos os recursos. Leiam o que diz o jurista Dirceo Torrecillas Ramos, professor da USP, ouvido pelo jornal O Globo: se forem condenados, eles vão aguardar em liberdade, enquanto apelam ao Supremo; isso pode demorar muitos anos e possivelmente muitos já estarão até mortos.
Você acreditou que finalmente agora seria diferente, que pegariam os grandes corruptores. Não entusiasme tanto as crianças, os amigos e os colegas.
Corruptor brasileiro tem a chance de morrer antes da condenação. Seus operadores também. O doleiro Youssef é velho conhecido da Justiça. Há uma década, foi processado por corrupção, fez delação e foi solto ao apontar a bandidagem do famoso caso Banestado, do Paraná.
O juiz Moro homologou o acordo de delação de 2004. Mas Youssef voltou a lavar dinheiro para quem aparecesse com dinheiro sujo. Moro está de novo diante de Youssef, que voltou a dedurar todo mundo. Moro condenou Yousseff, em setembro do ano passado, a quatro anos de cadeia, pelos crimes lá do primeiro processo. E também o condenou, na semana passada, a nove anos de prisão pela lavagem na Petrobras.
Você tem o direito de imaginar que Yousseff e Moro se encontrarão para sempre, de tempos em tempos, reproduzindo a sina de bandido e mocinho de faroeste.
E nós, os índios, o que fazemos? Nós ficar aqui na colina com a cara de Cavalo Abobado.

" Momento Desafiador "

Editorial Zero Hora


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Ao contrário do que ocorreu nos quatro anos de seu primeiro governo, a presidente Dilma Rousseff optou por mudar sua forma de comunicação com os trabalhadores neste Dia do Trabalho, inclinando-se agora a recorrer mais às redes sociais. A intenção está ligada ao temor dos chamados panelaços, mas reflete acima de tudo o fato de o governo ter pouco a dizer e nada a celebrar nesses primeiros quatro meses da nova administração. Ainda assim, como ensinam os melhores empreendedores, crises como a atual constituem-se também em momentos de desafios e oportunidades. As responsabilidades são do governo, mas o desafio de aproveitá-las com eficiência é de todos os brasileiros.
Neste ano, o balanço inevitável para todo trabalhador numa data de grande simbolismo como o 1º de Maio é particularmente desanimador. Mesmo com uma estimativa de retração da atividade produtiva de 1,1% neste ano, a taxa básica de juros alcança níveis só comparáveis ao de dezembro de 2008, quando a economia global enfrentava a sua maior crise. A taxa elevada demais, no momento em que a economia encolhe de forma preocupante, é consequência de uma inflação muito acima da meta. Em meio ao aumento do custo de vida, dos juros e do recuo da atividade produtiva, o trabalhador enfrenta inevitavelmente o temor do desemprego, que em março já se elevara a 6,2%, prenunciando um período de angústias e sacrifícios para toda a sociedade.
Obviamente, tantos números desfavoráveis a consolidar uma realidade que contraria as promessas de campanha e compromete muitos dos avanços sociais e econômicos registrados nos últimos anos têm um potencial para gerar frustração e até mesmo revolta. Ainda mais que as razões para a situação ter chegado a este ponto vão muito além da crise internacional, alegada pelo governo. Em grande parte, as explicações estão num somatório de interesses eleitoreiros e de descaso com o rigor fiscal, cujas consequências agora recaem sobre todos os brasileiros.
Ainda assim, com as instituições democráticas funcionando a pleno, sem tréguas no combate à corrupção, o país mantém a esperança de que logo terá condições de superar a turbulência e pleitear um novo período de desenvolvimento. O desafio não é só do governo: é de todos.