sábado, 28 de novembro de 2015

" Conflito Urbano "

*Lícia Peres*socióloga


O conflito entre taxistas e motoristas do Uber descambou para agressões inaceitáveis. Logo iniciado o novo serviço, taxistas impediram a saída de um carro que transportaria um passageiro. Poucos dias depois, um motorista do Uber foi agredido a socos e chutes por um grupo de taxistas, precisando ser hospitalizado.
Há coisas que precisam ser analisadas nos seus diferentes ângulos. O Uber veio para aumentar a oferta de condução em nossa cidade. No caso, são pessoas ofertando serviços particulares que fariam o papel do táxi.
Há o lado dos taxistas, que, justificadamente, reclamam que, enquanto eles cumprem todos os requisitos para trabalhar nos seus carros, aos do Uber nada é exigido.
Precisamos ver também a questão importante do desemprego, que está aumentando a cada dia. Hoje temos 9 milhões de desempregados, e grande parte desse contingente é composto por jovens.
No Brasil, em período de desemprego alto, as pessoas, tradicionalmente, passam a recorrer à informalidade: fazem "bico", viram camelôs etc. É a estratégia da sobrevivência que o nosso povo conhece e pratica. Esse lado não pode ser ignorado. Qualquer pessoa sensata sabe que existem ordens incumpríveis.
São inaceitáveis as declarações do dirigente da EPTC, ao anunciar que passaria a usar o aplicativo, fingindo ser um cliente, para flagrar os motoristas clandestinos, efetuar prisões e apreender seus veículos. Na verdade, uma armadilha que só é justificável para prender bandidos.
A Câmara Municipal, em tumultuada sessão, decidiu proibir o Uber na cidade, decisão que será encaminhada ao prefeito José Fortunati.
Hoje, quando não quero dirigir, uso apenas o teletáxi, pois eu e várias pessoas conhecidas já tivemos problemas com taxistas. Ou ficam zangados se a corrida é curta, ou ouvem rádio muito alto, ou não mantêm os carros limpos. Por isso, há um desejo de ter maior possibilidade de escolha, um direito do usuário.
Essa questão que diz respeito à mobilidade urbana precisa ter uma solução imediata: exigência de alguma normatização para que o novo serviço possa ser oferecido, e punição severa aos que usam a violência como forma de resolver conflitos. Assim Porto Alegre sai ganhando.
Nunca foi tão difícil ser otimista. Nunca foi tão importante ser otimista.

Artigo Zero Hora
* Marcelo Gonzatto <repórter de ZH >
Talvez houvesse clima semelhante nos anos de chumbo da ditadura, quando o país ansiava por liberdade e o planeta vivia a dois minutos para a meia-noite — parâmetro utilizado para medir o risco de uma catástrofe nuclear provocada pela Guerra Fria. Mas, hoje, para onde quer que se olhe no Brasil e no mundo, há algo fora do lugar.
O planeta parece haver se tornado o palácio sinistro que Bin Laden sonhou, a administração Bush alicerçou e, daí por diante, foi sendo construído por muitas mãos a cada facada, bomba ou disparo de metralhadora. O Estado Islâmico só precisou se ocupar de pendurar os quadros nas paredes — e nem precisamos falar das imagens que eles retratam.
Em uma metáfora climática lamentável, mas bastante adequada, 2015 é o período mais quente já registrado na história. É o mesmo ano em que testemunhamos, abismados e inertes, a lama de Mariana escorrer de uma barragem mal guarnecida, arrasar vilarejos, matar e desalojar pessoas e transformar mais de 500 quilômetros de um dos principais rios do país em um canal sujo e sem vida.
O termo "lama", em outra metáfora lamentável, mas bastante adequada, costuma designar os sucessivos escândalos de corrupção que sacodem o país. Para piorar, violência em alta e economia em baixa. Dá vontade, como planejou Delcídio Amaral, de pegar um Falcon 50 e sumir por aí. Só não se sabe para onde: afinal, para onde quer que se olhe, há algo fora do lugar.
Em períodos assim, é fácil ceder ao ódio, ao egoísmo, ao pensamento mágico, ao fundamentalismo religioso, ao conservadorismo moral — o que ajuda a explicar, em parte, os comentários de internet e a atual composição do Congresso. Mas ceder ao ódio, ao egoísmo, ao pensamento mágico, ao fundamentalismo religioso, ao conservadorismo moral é recorrer justamente à fórmula que nos meteu nessa enrascada.
A democracia voltou ao país e o mundo não sucumbiu diante da catástrofe nuclear iminente, ainda que o processo de redemocratização não esteja completo, e o relógio que mede o risco da hecatombe tenha sido atrasado, mas não desligado. Mais uma vez, é preciso confiar em que as coisas vão melhorar. Mesmo que seja difícil, nunca foi tão importante ser otimista.

" Pelo retorno à normalidade "

Editorial Zero Hora
A prisão do senador Delcídio Amaral e o dilema político vivido pelo Senado para chancelar a decisão do STF não podem servir de motivo para a paralisação dos trabalhos legislativos no momento em que o país depende do ajuste fiscal para sair da crise. 
Pelo retorno à normalidade Gilmar Fraga/Arte ZH
O desafio do governo e das lideranças parlamentares é retornar o mais rapidamente possível à normalidade, deixando o episódio criminal para a Justiça, para o Ministério Público e para a Polícia Federal.
O momento é de compreensível pânico no Congresso, especialmente entre os investigados pela Operação Lava-Jato. Na lista inicialmente divulgada pelo Ministério Público Federal, há 13 senadores e 24 deputados, incluídos os dois presidentes das casas legislativas. Mas a maioria dos parlamentares continua com legitimidade para apreciar matérias que exigem imediata definição.
A principal delas é a aprovação da meta fiscal de 2015, que autoriza União, Estados e municípios a fecharem o ano com um déficit de R$ 119 bilhões. O projeto, que precisa ser aprovado em sessão conjunta, deveria ter sido votado na última quarta-feira, quando estourou o escândalo em torno do senador Delcídio Amaral. Também o governo teme que o Congresso traumatizado acabe recolocando na ordem do dia a pauta do impeachment.
Só que não se trata de salvar o governo ou o mandato dos parlamentares ameaçados pela Lava-Jato. Trata-se, isto sim, de salvar o país, de superar uma crise econômica que exaure as forças do setor produtivo e causa desemprego crescente. É por isso que deputados e senadores têm que superar a perplexidade e unir esforços no sentido de levar adiante o ajuste fiscal, destravando o Legislativo e proporcionando condições para que a nação supere este episódio turbulento de sua história.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

' A Malandragem corre livre,na Política do BRASIL "

Ministros ficaram desconcertados com acesso de Esteves a delação sigilosa


O documento de delação tinha inclusive anotações manuscritas de Cerveró. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, anotou que o fato "revela a existência de perigoso canal de vazamento, cuja amplitude não se conhece". Ele define como "genuíno mistério" o fato de que documento "guardado em ambiente prisional, com incidência de sigilo, tenha chegado às mãos de um banqueiro privado em São Paulo".

O INIMIGO...

Há tempos que, por trás da aparência algo heroica da Operação Lava Jato, crescem desconfianças de que autoridades com acesso privilegiado à investigação revelem ilegalmente dados sigilosos a investigados e outros interessados.

MORA AO LADO

Elas se somam às acusações de que policiais instalaram grampos ilegais em departamentos da própria Polícia Federal para investigarem uns aos outros.

EM TODAS

banqueiro André Esteves era tão próximo de Lula que, quando visitava o ex-presidente no Hospital Sírio-Libanês quando ele se tratava de um câncer na laringe, subia ao quarto do petista por um elevador privativo.

DILMA, NÃO

Amigo também do senador Aécio Neves (PSDB-MG), Esteves não escondia de ninguém que tinha votado nele para presidente em 2014. Ele foi inclusive a jantares de apoio ao tucano. O banqueiro gostava de Lula -mas não do governo de Dilma Rousseff.

" Só falta mandar matar "


vinicius torres freire

Está na Folha desde 1991. Em sua coluna, aborda temas políticos e econômicos. Escreve de terça a sexta e aos domingos.
"O Rei Tiago I, da Inglaterra, dizia que só respondia a Deus. Nossos políticos são piores: não respondem nem a Deus",[ Roberto Romano ]


Mais opções
A gangue do senador Delcídio Amaral, do PT, e do banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, pretendia fraudar o Supremo Tribunal Federal e o processo da Lava Jato, dar fuga a um condenado e corromper quem fosse empecilho a tais planos. Além do mais, desviava documentos sigilosos da investigação (os comprava?) e traficava influência. Tudo para acobertar roubanças no mundo do petróleo estatal e paraestatal.

Esse ramo da máfia do petrolão planejava ou cometia mais crimes neste novembro, 20 meses depois do começo da Lava Jato, depois de prisões e condenações em penca. Em suma, não estavam nem aí.

Assim, é razoável considerar que há grande risco de outra gangue ou figura graúda e talvez psicopática do mundo da Lava Jato estar em ação para enterrar crimes. Talvez literalmente. Agora, dado o grau de sordidez a que já se desceu, falta apenas alguém mandar matar testemunha, policial, procurador ou juiz.

ECONOMIA DO CRIME

Está mais do que claro agora como um programa de intervenção econômica criou as condições para a nossa precoce maldição do petróleo, antes mesmo de haver petróleo bastante. Trata-se aqui, claro, do plano iniciado no governo Lula e levado a cabo sob Dilma Rousseff de reinventar a roda podre, uma paródia grotesca, ainda que reduzida, do "desenvolvimentismo" da ditadura de Ernesto Geisel.

Antes que viciados em debates binários de redes sociais protestem, não se trata de condenar em geral políticas industriais; que o grande setor privado, vide bancões do mundo, cometem crimes puramente privados. Isto posto, note-se que as várias intervenções, modelos e leis petrolíferas de inspiração dilmiana fazem parte do cardápio já histórico de fracassos, ineficiências e criação de ambientes propícios à corrupção.

Políticas que criam quase-monopólios ou oligopólios, com reservas de mercado, protecionismos e exigências irrealistas de produzir com conteúdo nacional, degringolam em caixas-pretas. Em ambientes obscuros, sem concorrência, propícios ao mofo da corrupção, da propina, do tráfico de influência. Esquemas que favorecem, no que têm de menos nocivo, mas ainda assim grave, o desperdício de recursos escassos e de energia produtivas em negociações de favores com o poder público.

Um desses polos de descalabro e exemplo concentrado dos erros listados acima foi a Sete Brasil, empresa da qual é sócia o BTG Pactual, banco de André Esteves, além do Bradesco, do Santander, da própria Petrobras e fundos de pensão. Diga-se de passagem que o negócio do qual Esteves é acusado por ora nada tem a ver com Sete.

Em resumo, a Sete foi criada para contratar a construção e a operação de plataformas de exploração perfuração de petróleo para a Petrobras, 28, no valor de US$ 30 bilhões; dependia de resto de crédito do BNDES para ficar de pé. Estaleiros pagavam propinas a gente da Sete e a políticos para conseguir contratos, um dos canais grossos de dinheiro da Lava Jato, mas nem de longe o único.

Esse sistema tem de ser desmontado. Colonizou o Estado, espalhou corruptos por toda a parte da elite política até o centro; se encastelou para se defender e, para tanto, transformou os cidadãos em reféns da roubança e paralisaram a economia e o governo do Brasil. 

" A Tragédia de Mariana , Minas Gerais " = brasil !



artigo zero hora

Mauro Gomes de Moura: a tragédia de Mariana

Secretário de Meio Ambiente de Porto Alegre, ex-diretor técnico da Fepam

Iotti: assim caminha a humanidade! Iotti/Agencia RBS

Editorial do jornal Zero Hora ("Catástrofe ambiental"), 
sobre o rompimento da barragem em Mariana, aponta para a falta de recursos humanos e de infraestrutura dos órgãos públicos — não só da área ambiental — para agir adequadamente a fim de se evitarem tragédias ambientais. 
Convém ressaltar que, pelo princípio do "poluidor-pagador", consagrado na área ambiental, quem polui é o encarregado de adotar os meios necessários para evitar a ocorrência do dano e também de reparar os danos. 
Aos órgãos públicos, cabe a tarefa de avaliar se o empreendimento potencialmente poluidor pode ser implantado e qual o grau de risco. Isto porque não há um empreendimento que não tenha riscos. E estes podem ser avaliados por métodos científicos e aceitos pelos meios técnicos e acadêmicos.
Quando existe impossibilidade de avaliação científica do risco, ou seja, quando há ameaça de danos sérios ou irreversíveis à sociedade e ao meio ambiente, o princípio da precaução, aplicado nos licenciamentos ambientais, indicará o indeferimento do licenciamento ambiental. Em empreendimentos de grande impacto ao meio ambiente existe o licenciamento através de Estudo de Impacto Ambiental (EIA-Rima), em que há, inclusive, a obrigação da participação da sociedade civil organizada no processo de licenciamento ambiental. Basta licenciar com seriedade.
A tragédia de Mariana, a catástrofe ambiental no Vale do Cuiabá-Petrópolis (com quase mil mortos) e a mortandade de peixes no Rio dos Sinos em 2006 são fatos com a mesma origem: o desinteresse dos governos no exercício da proteção ambiental que nossos filhos e netos merecem e o desejo obstinado de licenciar empreendimentos sem fiscalizar adequadamente e sem ter políticas que garantam a qualidade ambiental. 
E o exercício da proteção ambiental não se dá apenas no licenciamento ambiental.
Neste contexto, órgãos como a Fundação Estadual de Meio Ambiente (Fepam) e a Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Porto Alegre (Smam) são sistematicamente criticados por manter rigor nos licenciamentos e na fiscalização. O que para empreendedores pode ser considerado excesso de burocratização, para os servidores que priorizam a segurança dos cidadãos, é a garantia de que desastres ambientais, como de Mariana, possam ser evitados.
A facilitação do licenciamento ambiental em curso em alguns órgãos ambientais, sem gestão ambiental e adequado reforço de fiscalização (e fiscalizar impõe recursos como, por exemplo, laboratórios especializados em avaliação de impactos ambientais), e o Projeto de Lei Federal nº 8062/14, no qual uma licença de operação valerá por até 10 anos, devem ser avaliados com os devidos cuidados para que tragédias ambientais da magnitude de Mariana não voltem a ocorrer.

" Voto impresso E DEMOCRACIA "

Artigo

Antônio Augusto Mayer dos Santos  

 [ ADVOGADO E CONSULTOR ]


A urna eletrônica materializa o progresso. Coíbe várias modalidades de fraude, acelera os resultados e torna mais fácil o ato de votar. Justamente por reunir essas virtudes é que o voto impresso vingou com a derrubada do veto presidencial à Lei nº 13.165/15. Para sacramentar essa garantia e ampliar "a legitimidade do voto eletrônico", aguarda-se a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição nº 113/15. Os porquês são vários.
Não há discussão sobre a reforma política que não traga o assunto à baila. Acentua-se o debate em torno de mecanismos que melhor conciliem a segurança do voto com mais transparência nas eleições. Os partidos não conseguem desenvolver programas próprios para proceder à conferência das assinaturas digitais das urnas espalhadas pelo país. O sistema por elas adotado, conhecido como Direct Recording Electronic, não permite que os eleitores confiram o que foi gravado no Registro Digital do Voto nem os partidos de proceder numa contagem ou recontagem de votos.

 Em maio de 2007, professores da Universidade de Brasília recomendaram a integração tecnológica de todos os procedimentos, desde o cadastramento do eleitor à totalização dos votos, e apontaram vulnerabilidades na identificação dos eleitores no momento da votação.
Diversos estudos referem que a eficiência propagada não é suficiente quando as instituições habilitadas para a fiscalização não dispõem de preparo técnico e orçamentário necessários. Foi a falta de transparência que ensejou a proibição de similares na Holanda, após mais de uma década de uso, e a declaração de inconstitucionalidade pelo Tribunal Constitucional Federal da Alemanha em 2009 ao argumento da carência de comprovação pública. Na Índia, especialistas provaram que o sistema era fraudável.
Economias poderosas como Alemanha, EUA, Japão e Inglaterra não podem ser alvejadas por abdicar de urnas eletrônicas ou demonstrar desinteresse pelas brasileiras. Não se está cogitando do retorno ao voto manual ou daquelas intermináveis apurações em ginásios. A demanda é somente por mais informação e possibilidades de controle em nome e função da democracia conforme concluiu o relatório da PEC nº 113/15.

" Esses Podres Poderes "

Artigo Zero Hora
Clóvis Malta[ jornalista de Zero Hora ]


De tão acostumados com a desfaçatez da paisagem à nossa volta, nem nos surpreendemos mais quando um pensador célebre como o colombiano Bernardo Toro nos visita e diz não ver saída, nesse ou em qualquer outro país, sem um sistema educacional de qualidade idêntica para ricos e pobres. Mais: que, na Suécia, país civilizado, o herdeiro do presidente da Volvo pode frequentar a mesma escola do filho de um pescador. 
E, aí, quando homens públicos começam a tombar às pencas bem do alto, nos resta lembrar de um Caetano Veloso irado na música Podres poderes: "Será que esta minha estúpida retórica terá que soar, terá que se ouvir por mais zil anos?"
Abraham Lincoln, há pelo menos um século e meio, disse que, quem quiser pôr à prova o caráter de um homem, só precisa lhe dar poder. Sem essa chave capaz de abrir todas as portas, não haveria tantos megalômanos por aí se achando no direito de calar quem tem potencial para prejudicá-los, e mesmo obstruir uma investigação judicial, oferecendo desde avião de luxo para cruzar o Atlântico até mesada para a família. Mas será que, de diferentes maneiras, também não contribuímos para deformar essa capacidade como forma de afirmação ou de auferir vantagem?
É claro que há os poderes instituídos. Deles, precisamos cobrar que ajam mais a nosso favor, de todos, e menos dessas pessoas que se julgam capazes de comprar tudo. Mas o que dizer do prazer, quase sempre momentâneo, que alguns sentem ao fazer alguém esperar pela oportunidade ser atendido num local público? Pior: quantas vezes, em casa, no trabalho ou na rua, agimos como verdadeiros tiranos? Quase não nos damos conta, mas manda quem paga, leva quem fala mais alto, impõe-se quem veste roupa mais cara.

E não há quem, mesmo agindo assim, ainda se porte como juiz diante do homem público que viaja ao Exterior com as despesas custeadas por banqueiro interessado em favores do setor público? Pior: sentencia-o ao sabor da raiva ou até insiste nuns mas e nuns poréns, dependendo se quem está usurpando o poder fecha ou não com sua visão de mundo.
Poder só tem sentido quando é usado para o bem, o que exige uma mudança cultural impossível sem educação de qualidade para todos, como a defendida pelo filósofo colombiano. Poder verdadeiro não é o concedido a políticos corruptos e a seus parasitas, como os desmascarados agora. É o que tira o foco da lente de nossos interesses individuais e o direciona para os dos outros, para a compaixão, para a solidariedade, para as coisas simples, para mudanças realmente transformadoras, que virão não dos governantes, mas de nós mesmos.

" Choque De Justiça "

EDITORIAIS ZERO HORA
Choque de justiça Gilmar Fraga/Arte ZH
O Brasil jamais passou por uma situação assim: num dia o cidadão é poderoso, detém um mandato parlamentar ou a presidência de um banco, e no outro está na cadeia. 
Evidentemente, a premissa para isso é a de que o cidadão tenha efetivamente culpa em cartório e que seja investigado com estrito respeito às leis e à Constituição. Trata-se de um choque de Justiça nunca visto na história deste país. Se os processos do mensalão e da Lava-Jato pareceram, num primeiro momento, obras de procuradores ousados e magistrados destemidos, a chancela do Supremo Tribunal Federal e do próprio parlamento para as investigações e as prisões deixa a esperança de que estamos mesmo migrando para uma cultura de maior seriedade e integridade no trato com a coisa pública.
Essa mudança de mentalidade deve-se, principalmente, à maior vigilância dos cidadãos brasileiros sobre seus representantes. Como se constatou na votação aberta sobre a legalidade da detenção do senador Delcídio Amaral, na última quarta-feira, também para a corrupção a luz do sol continua sendo o melhor desinfetante. Conscientes de que estavam sendo observados, os parlamentares deixaram de lado o espírito de corpo e votaram, em sua maioria, de acordo com as expectativas da sociedade.
Não há milagre nesse processo. Não será de um dia para o outro nem por obra de algum messias da moralidade que o Brasil vai passar do atual estado de degradação de valores para a perfeição em matéria de honestidade e cidadania. Mas os avanços registrados nos últimos anos são significativos, considerando-se desde as leis que responsabilizam gestores públicos até a conscientização de princípios democráticos como a liberdade de expressão e a defesa do consumidor.
Quando as instituições funcionam, a corrupção diminui e a democracia se fortalece.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

" Dilma se cala ..." * El País =BRASIL "

Furacão Delcídio volta a mergulhar Governo Dilma no centro da crise



Prisão de líder do Governo no Senado embaralha mais uma vez o tabuleiro político de Brasília e promete estender para 2016 as incertezas e surpresas da Operação Lava Jato. Dilma se cala

Não há analista político no Brasil que se arrisque hoje a fazer previsões de mais de uma semana sobre os rumos da crise em Brasília. Os mais ousados podem até ensaiar análises de maior fôlego, de um mês ou até um semestre, mas sempre com a mesma ressalva: tudo pode mudar por conta da Operação Lava Jato



Nesta quarta-feira, a operação que surgiu de uma investigação sobre lavagem de dinheiro embaralhou o tabuleiro político do país mais uma vez, com a prisão do líder do Governo Dilma Rousseff no Senado, Delcídio do Amaral (PT), e do banqueiro André Esteves, do BTG Pactual. O Governo da presidenta Dilma Rousseff, que desfrutava de um certo alívio com as pressões pelo impeachment arrefecendo até pelo menos o ano que vem, voltou a mergulhar na crise e pode ter ainda menos chances de aprovar qualquer medida no Parlamento neste ano.

Adicionar legenda
O Senado era considerado uma ilha de tranquilidade para o PT, ao contrário da Câmara, onde a base governista é bastante frágil. Até ofuracão Delcídio. A prisão do líder do Governo na Casa inaugurou as detenções da Lava Jato no âmbito da Procuradoria Geral da República, de onde o procurador-geral Rodrigo Janot comanda as ações. Desde adivulgação da "lista do Janot", esse é o primeiro grande evento da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF). Marca uma nova fase e ameniza o receio daqueles que imaginavam que, fora da Curitiba dojuiz Sérgio Moro, a operação não seguiria com o mesmo ímpeto.
De acordo com o regimento interno do Senado, a votação em que os senadores decidirão se acatam ou não a decisão do STF de prender Delcídio por interferência nas investigações da Lava Jato é secreta. Mas os governistas foram derrotados e a votação será nominal, mas não havia ocorrido até a publicação desta reportagem.
A prisão do senador volta a colocar o Governo Dilma Rousseff e principalmente o PT no centro da Operação Lava Jato. O caso de fundo que levou o senador petista à prisão é a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, fechada durante o Governo Lula e enquanto a então ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff presidia o Conselho de Administração da Petrobras. O senador Humberto Costa (PT) admitiu que o Palácio do Planalto "está preocupado" com a questão, mas disse que "nós temos aí assuntos muito importantes que estão pautados e não queremos que essa pauta seja interrompida por esse fato".
O PT divulgou nota para dizer que "nenhuma das tratativas atribuídas ao senador têm qualquer relação com sua atividade partidária, seja como parlamentar ou como simples filiado"; "por isso mesmo, o PT não se julga obrigado a qualquer gesto de solidariedade", segue a mensagem. Já a presidenta Dilma não comentou o assunto, e o Palácio do Planalto se limitou a informar em nota que a escolha do novo líder no Senado será feita na próxima semana. Dilma se preparava para um dia de reuniões tranquilas quando se deparou com a notícia-bomba de que seu principal representante no Senado tinha acabado de ser preso no hotel em que mora em Brasília, o Golden Tulip. Foi o sinal de que, apesar da calmaria prevista para os próximos dias, com o arrefecimento do pedido de impeachment e o foco quase exclusivo em Eduardo Cunha, tinha ido para o espaço.
As audiências que seriam abertas à imprensa, como uma prevista com a seleção brasileira de handebol feminino, se fecharam. Entre membros do Governo, a justificativa em tom de brincadeira era que ela havia acabado de se deparar com uma nova doença, a gripe Delcidis, e, por essa razão, não queria dar declarações públicas. Assim, ao invés de se preparar para a viagem a Paris, onde participará da COP-21, na próxima semana, e uma visita de Estado ao Japão, a presidenta teve de apagar o incêndio que acometeu o Legislativo. Reuniu-se com quatro vice-líderes, ministros e conselheiros políticos para analisar as responsabilidades do caso.
Com a prisão de Delcídio e a Lava Jato avançando sob o núcleo político a cada dia, a crise só tende a se amplificar, ainda mais levando em conta que há outros dez senadores investigados pela Polícia Federal pelo mesmo escândalo. Para a consultoria Eursia, as prisões de Delcídio, Esteves e do pecuarista José Carlos Bumlai, próximo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sugerem que os investigadores estão focando seus esforços em torno da Petrobras. Segundo os analistas da consultoria, essas prisões devem levar a novas informações, agravando as consequências da Operação Lava Jato para a estatal. Consequentemente, é de se esperar o prolongamento das indefinições políticas e surpresas para o Governo a partir das investigações — talvez essa seja a única certeza da política brasileira para o próximo ano

" Um criminoso dirigismo estatal "

Sebastião Ventura Pereira da Paixão Jr
Artigos Zero Hora
A 21ª fase da Operação Lava-Jato prendeu um suposto amigo íntimo do ex-presidente Lula, aproximando-se, como nunca antes na história deste país, do núcleo duro do poder político.
 Caída a noite e nascido o dia, as novidades do ontem ficaram velhas em questão de instantes. Em pronunciamento surpreendente, a colenda Suprema Corte, por unânime decisão colegiada, referendou a inédita prisão cautelar de um líder do governo no Senado, bem como de conhecido banqueiro brasileiro. E amanhã, quem será?
No entreato dos aconIotti: leve-me ao seu líder Iotti/Agencia RBStecimentos, fatos, cada vez mais impressionantes, surgem com brilho e nitidez. Aqui, não faço juízo de valor, restringindo a análise ao exercício crítico da realidade posta. Por assim ser, do mensalão ao petrolão, parece estar claro que as instituições políticas foram cooptadas por complexas organizações criminosas que, através do conluio doloso entre o público e privado, acabaram por desnaturar o capitalismo liberal para um perigoso sistema de ilícito dirigismo estatal de favores.
Nesse sistema doentio, a burocracia e os aparelhos de governo passam a servir canalizados interesses empresariais que, alinhado ao grupo dirigente dominante, quebram a livre concorrência econômica, criando um sistema de poder para fins oligopolistas. Para tanto, através de empréstimos públicos subsidiados, criam gigantes conglomerados negociais que, em troca de lucros fartos, pagam dízimos partidários graúdos, corrompendo, geneticamente, a estrutura política nacional. Em outras palavras, o tão festejado "capitalismo de Estado" usa o apelido capitalista para ser privadamente autoritário.
Sim, muito há ainda a ser feito, mas o processo em curso é promissor. Na busca de uma sociedade mais digna, o Poder Judiciário, o Ministério Público e as forças policiais podem muito, mas não podem tudo. 

Objetivamente, quem muda a essência da política democrática é o exercício sério, diário e responsável da cidadania ativa. Portanto, precisamos de uma urgente mudança comportamental que nos liberte da letargia cívica. Ser cidadão é agir concretamente e fazer a diferença. Quer, então lute. Ou preferes o movimento da manada manobrável?

Delcídio Amaral propôs fuga de Cerveró para o Paraguai; ouça os diálogos Conversas interceptadas garantiram que STF decretasse prisão de senador e empresário por tumultuarem processo

25/11/2015 - 12h44min | Atualizada em 26/11/2015 - 08h38min
Delcídio Amaral propôs fuga de Cerveró para o Paraguai; ouça os diálogos JONATHAN CAMPOS/AGÊNCIA DE NOTÍCIAS GAZETA DO POVO/ESTADÃO CONTEÚDO
Ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró foi preso em janeiroFoto: JONATHAN CAMPOS / AGÊNCIA DE NOTÍCIAS GAZETA DO POVO/ESTADÃO CONTEÚDO
Nestor Cerveró sairia direto do Paraná para o Paraguai. É o que mostram as gravações feitas pelo filho de Cerveró, Bernardo, com monitoramento da Polícia Federal (PF) e autorização da Procuradoria-Geral da República (PGR).
A oferta de fuga pelo Paraguai foi feita pelo advogado de Cerveró, Edson Ribeiro, numa conversa da qual participaram o senador Delcídio Amaral (PT-MS), seu chefe de gabinete, Diogo Ferreira, e Bernardo Cerveró. A gravação foi feita em um hotel em Brasília, semana passada, e repassada por Bernardo à PF. Ouça abaixo trecho da gravação, obtida pela sucursal da RBS em Brasília:
Veja o que mostra trecho dos diálogos:
Senador Delcídio: Não, mas a saída pra ele melhor é a saída pelo Paraguai...
Bernardo Cerveró: Mercosul...
Advogado Edson: Mercosul, porque o pessoal tem convenções no Mercosul, a informação é muito rápida.
Delcídio: É?
Edson: É.
Edson: E, ao inverso… Seria melhor, porque ele tá no Paraná, atravessa o Paraguai...
Delcídio: A fronteira seca...
Edson: (…) Entendeu, e vai embora, eu já levei muita gente por ali, mas tem convênio, quando você sai com o passaporte, mesmo... O caminho a seguir seria a Venezuela e, depois, de barco ou avião até a Espanha.
Aí cogitam de levar Cerveró do Paraguai à Venezuela e, depois, de barco ou avião até a Espanha:
Delcídio: Hoje eu falo, porque acho que o foco é o seguinte, tirar; agora, a hora que ele sair tem que ir embora mesmo.
Bernardo: É, eu já até pensei, a gente tava pensando em ir pela Venezuela, mas acho que... Deve, se sair, sair com tornozeleira, tem que tirar a tornozeleira e entrar, acho que o melhor jeito seria um barco... É, mais porque aí chega na Espanha, pelo menos você não passa por imigração na Espanha. De barco, de barco você deve ter como chegar...
Edson: Cara, é muito longe.
Delcídio: Não, não...
A etapa final da fuga, fica acertado, seria num jato particular de pequeno porte:
Edson: Não sei o custo disso, vou apurar tudo isso. Eu tenho amigos que têm empresa de taxi aéreo, entendeu, ver com eles qual o custo disto, a gente bota no avião e vai embora.
Diogo Ferreira: Mas estes de pequeno porte eles cruzam?
Edson: Vai até... Hã...
Diogo: Estes de pequeno porte eles cruzam?
Bernardo: Deve parar na Madeira, alguma coisa assim.
Edson: Depende, se você pegar um...
Delcídio: Não, depende do avião.
Edson: Citation.
Delcídio: Não, não Citation tem que parar no meio... Tem que pegar um Falcon 50, alguma coisa assim...
Diogo: Mas para na Venezuela...
Delcídio: Aí vai direto, vai embora...
Edson: Se for direto, ótimo.
Delcídio: Desce na Espanha.
Diogo: Sai daqui, já desce lá.
Delcídio: Falcon 50, o cara sai daqui e vai direto.

Os diálogos foram considerados escandalosos pela PGR. No pedido de prisão, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, escreveu:
"Haveria de chegar, como efetivamente chegou, o momento de submeter a questão ao Supremo Tribunal Federal. No caso concreto, o cabimento da prisão preventiva do Senador Delcídio Amaral é cristalino. Ele está agindo com desenvoltura, em arco temporal relevante, para evitar que sejam produzidas, na Operação Lava Jato, provas contra si e um banqueiro investigado, inclusive com participação em planejamento de fuga de pessoa denunciada que pode vir a estar sob vigilância eletrônica. Ele está, ademais, maculando a reputação do Supremo Tribunal Federal e a honradez de Ministros nominalmente identificados."