domingo, 30 de agosto de 2015

 


PRAZER DAS PALAVRAS | Cláudio Moreno

Turismo

OS JAPONESES E OS CHINESES usavam o pincel para aplicar a tinta na página em branco 

Caro leitor, escrevo diretamente da Sicília. Entre o azul do Mediterrâneo e o verde intenso dos laranjais, nosso ônibus vai serpeando pelas estradas da ilha, ligando os pontos que conservam as marcas da mitologia e da cultura clássica. Saímos de Taormina, com o seu inigualável teatro greco-romano, subimos, com o respeito que merece, o impressionante monte Etna, debaixo do qual Hefesto, o deus ferreiro, continua avivando o fogo de suas forjas, e chegamos a Siracusa, terra de Arquimedes. 

Ali, na fonte Aretusa, meu primeiro contato com os papiros – não os de enfeite, mas os de verdade, criados ao sabor dos ventos que vêm da África, balançando suas cabeleiras verdes, curvando suas longas hastes para se aproximar uns dos outros como se fossem poetas conver-sando (a bela imagem, é claro, vem da pena de Guy de Maupassant).

Foi o esperto povo egípcio quem descobriu que podia processar esses juncos (pois é exatamente isso o que eles são) para produzir folhas homogêneas, flexíveis, densas o suficiente para receber a tinta sem borrar. Este avô não tinha ainda todas as qualidades do neto que viria a nascer, o papel, mas permitiu que o homem antigo conhecesse, desde então, o prazer insubstituível de expressar por escrito seus pensamentos e suas emoções.

Os japoneses e os chineses, por exemplo, usavam o pincel para aplicar a tinta na página em branco, os egípcios e os romanos preferiam escrever com um pedaço de junco com a ponta cortada em bisel (e quem diz junco, aqui, diz cana, de onde proveio a nossa caneta, da mesma forma que da costela e do caderno saíram a costeleta e a caderneta). Em Latim, chamavam-se de calamus (do Grego kálamus) essas hastes de mais ou menos 20 centímetros, com a ponta cuidadosamente aparada e fendida, à semelhança das penas de nossas canetas modernas.

De Siracusa, fomos visitar o Etna, um dos mais poderosos vulcões ativos do Hemisfério Norte, onde o guia fez questão de enumerar as tantas calamidades que suas erupções produziram na parte leste da Sicília – o que deu a mim, modesto guia na selva dos dicionários, a oportunidade lembrar ao leitor que calamidade vem do Latim calamitas, palavra que antes de designar, como hoje, um desastre de grandes proporções, primitivamente se referia a qualquer flagelo que arruinasse as lavouras de grão ainda por colher, deitando e jogando no chão as hastes da planta – o nosso já conhecido cálamo.

Mas vamos adiante: saindo de Agrigento, quase chegando a Selinunte, nosso ônibus parou num modesto restaurante na beira da praia onde tive a felicidade de comer um inesquecível prato de calamares fritos – sem me importar nem um pouquinho em saber que o nome desse saboroso molusco vem de calamarius, nome que os romanos davam para o recipiente em que se guardava a tinta e onde se mergulhava o cálamo de escrever. 

Pois é, meu caro leitor: de Taormina a Selinunte, passando pelo Etna, por Siracusa e por Agrigento – ou do cálamo ao calamar, passando pela calamidade, tudo isso é bom turismo, que nos dá cultura e prazer.

" E os que estão soltos ? "



30 de agosto de 2015




José Janene era um deputado rico e influente do PP do Paraná. Foi quem indicou Paulo Roberto Costa, um dos famosos delatores da Lava-Jato, para a direção de Abastecimento da Petrobras. Janene, da quadrilha do mensalão, era compadre do doleiro Alberto Youssef, outro delator, operador da lavagem de dinheiro no esquema de propinas do reduto do deputado na estatal. O esquema de Janene teria sido a origem da corrupção da Lava-Jato.

Poucas pessoas conheciam Janene como Paulo Roberto Costa – que devia ao padrinho a indicação a cargo tão importante e que roubava para ele – e como Youssef, parceiro de copa e cozinha e movimentador do dinheiro arrecadado sob as ordens do compadre.

Youssef voltou a dizer, na CPI da Petrobras, na terça-feira, o que já havia dito ao Ministério Público em março – Janene lhe falava da propina mensal que uma empreiteira de Furnas, a estatal de energia, destinava ao então deputado Aécio Neves, do PSDB de Minas Gerais. Uma mesada modesta, de US$ 100 mil a US$ 120 mil, paga entre 1996 e 2000.

E Paulo Roberto Costa contou, na acareação com Youssef na CPI, na mesma terça, que o senador pernambucano Sergio Guerra, então presidente nacional do PSDB, recebeu R$ 10 milhões da empreiteira Camargo Corrêa, em 2009, para melar uma CPI que investigaria as falcatruas na Petrobras.

Costa disse ter sido procurado por Guerra e pelo deputado Eduardo da Fonte, do PP de Pernambuco, e orientado sobre como deveria fazer o pagamento. E fez. E a CPI não saiu.

Mas Janene morreu em 2010 e Guerra morreu no ano passado. Os corruptos tucanos, pelo que contam Youssef e Costa, não são investigados, ou driblam as investigações e a Justiça, ou morrem antes.

Não há tucanos corruptos presos, nem o ladrão avulso Pedro Barusco, que diz ter roubado sozinho na Petrobras durante cinco anos de governos do PSDB. Se não pegam corrupto tucano vivo, imagine se pegarão corrupto tucano morto.

Você conhece aquele parente, colega ou amigo que diz torcer pela Justiça, para que no final o bem vença todos os males, desde que os delatores só apontem o dedo para as gangues petistas. Delatores são sempre desqualificados quando delatam tucanos.

Mas você, que confia na Justiça e aplaudiu Joaquim Barbosa no julgamento do mensalão, certamente confia no ministro do Supremo Marco Aurélio Mello. Marco Aurélio sempre foi criticado por ter assinado o habeas corpus que, em 2000, tirou da cadeia o banqueiro Salvatore Cacciola.

Cacciola, do banco Marka, fora mimado com um estranho socorro do Banco Central, em 1999, e por isso estava preso. Foi libertado e fugiu para a Itália. Em entrevista recente a Roberto D’Avila, na GloboNews, Marco Aurélio respondeu com uma pergunta ao questionamento do repórter sobre a decisão de soltar Cacciola: e os outros do mesmo caso, que continuam soltos?

Cacciola, disse o ministro, pelo menos foi devolvido ao Brasil, preso e cumpriu pena. Mas quantos do mesmo caso continuam por aí? É a dúvida. Quantos, do governo FH, que prestaram socorro a Cacciola e a outros flagelados, num momento de total descontrole cambial, continuam impunes? Por onde andam? – é a pergunta do ministro.

Parece que todos continuam vivos. Daqui a algum tempo, teremos os balanços, inspirados na pergunta de Marco Aurélio, dos desfechos do caso Marka, da Lava-Jato, do mensalão mineiro, de Furnas, das propinas do metrô de São Paulo e de tantos outros episódios, não só para saber quem foi preso e julgado, mas para que se saiba quantos conseguiram escapar e continuarão soltos.

" A Teoria do Cachorro Molhado "


SÁBADO, AGOSTO 29, 2015

 


30 de agosto de 2015 | N° 18279 


Gatos não gostam de banho, é sabido. O meu detesta. Outro dia o deixei numa pet shop para uma ducha completa e, duas horas depois, meu telefone tocou: eram os funcionários se desculpando, pois não haviam conseguido cumprir a missão. Haviam colocado o Nero numa jaulinha aguardando sua vez, e quando a vez chegou ele virou um tigre. Um tigre com dor de dente e pedra no rim, ninguém conseguiu encostar na fera. Saiu da pet shop tão imundo como entrara. 

Quando a coisa aperta, o jeito é apelar para fórmulas caseiras. No dia seguinte, estávamos eu e minha filha conversando na cozinha quando vimos que Nero havia saltado para dentro do tanque da área de serviço a fim de lamber algumas gotas de água que sobraram por ali. Nem ao menos traçamos um plano verbal: bastou uma troca de olhares entre mim e ela para sabermos o que deveria ser feito. Me aproximei, abri a torneira bem devagarzinho e deixei cair um filete sobre a cabeça do bichano. Para nossa surpresa, não houve reação. 

Então passamos um sabonete líquido de uma forma meio disfarçada, como se estivéssemos fazendo um cafuné, até que tivemos que abrir mais a torneira para retirar o sabonete, e aí começou a selvageria. Pouparei você dos detalhes, já bastam as notícias catastróficas dos jornais. O que posso dizer é que Nero se sentiu traído, violentado, agredido, surrupiado em seus direitos. Mostrou as garras e jurou ódio eterno à família.

No entanto, o ódio eterno não durou nem três minutos, graças ao seu recurso de secagem instantânea. Não foi preciso enxugá-lo com uma toalha, ele preferiu fazer o serviço sozinho enquanto andava pela casa. Usou a teoria do cachorro molhado, que serve para gatos também: uma boa sacudida resolve.

Bem que podia ser assim conosco, seres de duas patas. Quer se livrar do que não lhe serve, quer tirar de cima um encosto, quer liberar-se do que é pegajoso, grudento, insatisfatório? Uma boa agitada na cabeça, tronco e membros, como se estivesse recebendo um passe. Pronto. Igualzinho como a gente faz quando sai da piscina, quando encontra refúgio numa marquise para fugir da chuva, quando escapa de uma nuvem de poeira. Abanar-se, arejar a roupa do corpo com umas puxadinhas, agitar os cabelos de um lado para o outro, até que o que não lhe pertence descole de você.

Funciona com água, poeira, fuligem, areia. Mas deveria funcionar também para mágoas, maus pensamentos, paranoias. Uma chacoalhada e xô, vai tudo embora, nos deixando zero bala de novo. Sem precisar da ajuda de Freud, Lacan, Jung, apenas adotando a teoria do cachorro molhado. Tente, às vezes a gente consegue. Uma boa sacudida e o ódio eterno por tudo e todos não excede mais do que três minutos.

sábado, 29 de agosto de 2015

" Há uma solidão que faz bem aos negócios " * A dos INTROVERTIDOS "


O sucesso não é determinado por características de personalidade, mas é importante saber tirar partido delas. 
Se é introvertido, não se aflija: saber estar sozinho 
pode ser uma vantagem competitiva.


Estar sozinho e gostar de estar sozinho. É daqueles que procura ouvir-se no espaço que conhece melhor – o seu – em silêncio? E que ao mesmo tempo tem uma equipa de 50 ou 100 pessoas para gerir? Não se aflija: a gestão também sai a ganhar com a introversão. (E não, não estamos a falar de timidez.) Sabe quem é Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook? Aos 31 anos tem uma fortuna pessoal estimada em 34 mil milhões de euros,segundo a Forbes. E sim, é introvertido.

Se, quando pensa num empreendedor, ou gestor de sucesso, vê alguém muito efusivo, aberto e com uma vida social muito preenchida, pense melhor. O sucesso não é consequência exclusiva dos extrovertidos. Nem dos introvertidos. Mas depende da forma como cada um deles lida com as características que os inserem ou afastam da vida social – que são, no fundo, vantagens competitivas. Sem querer estereotipar, pensemos apenas em características comuns: porque não usar cada uma delas para progredir?

Susan Cain, autora do livro “Silêncio – O poder dos introvertidos num mundo que não para de falar” lançou este ano, nos Estados Unidos, o Quiet Leadership Institute, uma consultora que pretende ajudar as empresas a retirar proveito das características dos colaboradores mais introvertidos. E ajudá-los a crescer.

Ao The Wall Street Journal, Susan Cain disse que os introvertidos não estão interessados em liderar por glória pessoal e que o seu foco está em criar algo no mundo, e não em si mesmos. “Os bons empreendedores são capazes de dar a si próprios a solidão que precisam para pensar e agir criativa e originalmente – para poderem criar algo onde antes não existia nada”, disse. Não têm medo da solidão.

Beth Buelow, fundadora  do site The Introvert Entrepreneur, acrescentou que os introvertidos tendem a pensar muito antes de decidirem o que quer que seja – e antes de a comunicarem aos outros. Enquanto os extrovertidos tendem a construir a maior parte da suas ideias no discurso e na interação com os outros.
Os melhores líderes de negócios não são necessariamente os melhores oradores, mas são os melhores ouvintes, aqueles que fazem as perguntas certas”, disse.
Para Pedro Barbosa da Rocha, psicólogo especialista em stress e bem-estar na Oficina de Psicologia, nenhuma destas características é, por si só, determinante para o sucesso de uma organização. Mas devem ser utilizadas de maneira diferente, pelas pessoas, que também são diferentes. Se por um lado, a solidão ajuda a analisar e a ponderar, por outro, a extroversão ajuda a reagir.
Se estivermos perante uma tarefa que requer rapidez de raciocínio e de resposta, uma pessoa extrovertida pode ter algum tipo de vantagem. Mas se estivermos numa situação em que existe tempo para recolher todos os dados para tomar uma decisão fundamentada, talvez o introvertido tenha uma maior vantagem”, diz ao Observador.
Porquê? Porque uma pessoa introvertida “vive com maior tranquilidade os silêncios”, explica. Porque é mais analítica, introspetiva e observadora. “Pode ser uma vantagem quando estão em causa decisões estratégicas, que vão além dos demais diretores da empresa. Porque são mais neutros em relação ao impacto da opinião do outro“, explica.

Laurie Helgoe, autora do livro “Introvert Power: Why Your Inner Life is Your Hidden Strength” (sem tradução para português), acrescenta que os introvertidos tendem a ser mais críticos, porque são mais realistas quando analisam a informação que lhes é dada, e não se deixam levar facilmente por “distrações felizes,” como o reconhecimento dos pares ou o número de seguidores que têm no Twitter.

Pedro Barbosa da Rocha explica que o ideal é que haja um equilíbrio – não ser 100% introvertido ou extrovertido e saber aproveitar e canalizar cada uma das características para o sucesso das equipas e da organização. E aqui insere-se outro conceito: o de inteligência emocional. “Um extrovertido com inteligência emocional tem sensibilidade para saber quando tem de se calar e ouvir mais os outros, por exemplo”, diz.

E no meio está a virtude.

As vantagens de ser um líder mais introvertido

  • Capacidade de trabalharem, desenvolverem tarefas e tomarem decisões sozinhos. Lidam melhor com a solidão e conseguem ser produtivos e atingir objetivos desta forma. Não precisam tanto do contexto social para ganharem energia para produzirem;
  • Podem ser mais capazes de fundamentarem as suas opiniões, porque debatem-nas consigo próprios. Demoram algum tempo a debatê-las e só as comunicam quando estão seguros do que têm para dizer;
  • Por serem mais compenetrados e introspectivos, são bons observadores, explica Pedro Barbosa da Rocha. Porque observam muito antes de emitirem opiniões ou tomarem decisões. Para estarem seguros das suas opiniões.

As vantagens de ser um líder mais extrovertido

  • Perante uma tomada de decisão rápida, podem ter maior capacidade de reação, explica Pedro Barbosa da Rocha;
  • Têm maior capacidade de dinamização das redes sociais, porque se sentem mais confortáveis socialmente. O que também pode ser mais vantajoso na relação com os clientes ou consumidores;
  • Podem trabalhar melhor em equipa e fazer com que essa equipa tenha melhores resultados.
  • REPORTAGEM POR  Ana Pimentel
  • Fonte: O Observador, 28/08/2015

" Agosto e a vida que segue ... "

Artigo Zero Hora

Rosane Tremea
Jornalista, editora de ZH
rosane.tremea@zerohora.com.br

Eu teria bons motivos para não gostar de agosto. Não falo desses fatos que deram a má fama ao mês, como o suicídio de Getúlio Vargas, a renúncia de Jânio Quadros ou o acidente que matou Juscelino Kubitschek, só para ficar na história nacional. Meus motivos seriam pessoais: no ano passado perdi uma pessoa querida no dia 27, no ano anterior sofri um acidente no primeiro dia do mês, dois anos antes fui alvo de um traumático assalto à mão armada, no dia 7.
O oitavo mês do ano, aquele criado por decreto do imperador César Augusto, está quase no fim (calma, só faltam dois dias) e não dá para dizer que foi dos melhores. Salários de funcionários públicos atrasados, números da economia do Estado, do Brasil e do mundo com péssimos indicativos etc, etc, etc. Cheguei mesmo, por esses e por meus próprios motivos, a pensar em engrossar o coro dos que atribuem a esses 31 dias do ano aquela pecha de “agosto, mês do desgosto” ou “mês do cachorro louco”, como se dizia na minha infância interiorana.
Mas eu ainda prefiro pensar que agosto é o mês em que me safei sem um arranhão de um acidente grave, em que escapei sem sequelas de um assalto que poderia ter sido trágico. E também faço questão de comemorar o mês como o do aniversário de um dos meus cinco irmãos (no dia 28, data também do nascimento do santo considerado um dos doutores da igreja e que emprestou ao mano o nome do meio, Agostinho) e do meu amigo Nílson Souza (na segunda, 31, quase escapando para setembro), que de vez em quando me provoca para escrever neste espaço.
E, especialmente hoje, dia 29, ficará marcado como o dia da formatura de um dos meus oito queridos afilhados, o Ramiro. Então, para mim, e espero que para você também, agosto é mês da vida que segue, e que se renova. Prefiro não acreditar em desgostos e cachorros loucos. Que venha o resto do ano e da vida.

" Imposto Extorsivo "

Editorial Zero Hora

É inequívoco que os contribuintes brasileiros não suportam e nem aceitam mais tributação, especialmente quando veem máquinas públicas excessivas e ineficientes, mal geridas e com acúmulo de privilégios. 
É neste contexto que a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul precisará examinar o projeto de majoração das alíquotas do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), apresentado pelo governador José Ivo Sartori para atenuar a crise do Estado.
 Ao impor um sacrifício desses aos contribuintes, o governo e os parlamentares teriam que oferecer como contrapartida o redimensionamento da máquina administrativa, que é onerosa e pouco eficiente.
Seja qual for o caso, aumento de imposto é uma alternativa de interesse apenas do poder público que, assim, consegue atenuar um problema emergencial de caixa. Todos os contribuintes, sejam eles pessoas físicas ou jurídicas, saem perdendo, pois os preços aumentam e as empresas passam a vender menos ainda. No caso do ICMS, o artifício é ainda mais perverso, pela sua característica de gerar efeitos em cascata. Em consequência, a economia é prejudicada, o que tende a reduzir a arrecadação a médio e longo prazos.
De nada adianta o Piratini impor uma medida fácil e recorrente como o aumento de impostos se não conseguir imprimir mudanças radicais na estrutura da máquina administrativa. O que o Estado precisa é rever vantagens até hoje inatacadas de outros poderes, modernizar seu sistema previdenciário e reduzir uma estrutura que não condiz com a gravidade da crise. Sem isso, o que vai ocorrer, mais uma vez, é a imposição de sacrifícios apenas para os contribuintes, sem a necessária perspectiva de melhoria nos serviços públicos.
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Por que os impostos no Brasil são tão altos?

O Brasil possui uma das maiores cargas tributárias do mundo. Estamos acima da média tributária mundial, de 27,1%, e da média latino-americana, de 28,1%. Aqui, o imposto médio sobre uma empresa é de 34% sobre a receita anual e os impostos brasileiros sobre o setor privado são superiores aos cobrados em países como o Chile, México e Uruguai. E, ao contrário de outros países, o Brasil vem apresentando um aumento nas taxas desde 1998, chegando a 32,6% em 2009.
Uma das principais causas para o aumento da carga tributária brasileira está no aumento dos gastos públicos. Após a estabilização do Real, o Brasil reduziu a emissão de moeda e, para financiar os gastos foi preciso aumentar a carga tributária. Pagamos imposto sobre quase tudo. Pagamos a tributação sobre sua renda, que é o imposto de renda mais o INSS. Pagamos a tributação sobre os patrimônios, principalmente o IPTU e o IPVA e pagamos também tributação sobre consumo, os tributos que estão embutidos no preço dos produtos e dos serviços, sendo estes os que mais são sentidos pela população.
Se colocarmos em números, em média, são 18% de tributos sobre a renda, 3% sobre o patrimônio e 23% sobre o consumo. Chegando a um total de 44% do rendimento apenas para tributação. O grande problema não está no pagamento e sim na falta do retorno dos impostos pagos pela população.
Entre os países integrantes do G8, os Estados Unidos, Canadá, Japão e Rússia têm impostos mais baixos que o Brasil. Estamos na última posição, abaixo inclusive do Uruguai e Argentina, na posição dos países que investem em serviços como educação, saúde e segurança, em resposta aos tributos pagos pelos contribuintes. Ou seja, somos o país que menos devolve a população em serviços públicos o valor de impostos que se paga, conforme afirma o Índice de Retorno de Bem Estar à Sociedade (IRBES).
Em um contexto federativo, não há uma distribuição igualitária das receitas tributárias, de modo que inexiste um sistema justo em favor das unidades federativas economicamente mais frágeis ou menos privilegiadas, o que dificulta o acesso, por parte do cidadão, aos serviços públicos com o padrão mínimo de qualidade e que deveria ser disponibilizado através da cobrança desses impostos.
Se compararmos com os países europeus, lá a tributação é mais justa, uma vez que ocorre principalmente sobre a renda, para depois recair sobre as contribuições sociais e por último sobre o consumo. Infelizmente, temos uma carga tributária de país europeu, acima de 30% da renda, mas uma estrutura fiscal que privilegia mais os ricos do que as classes média e baixa, visto que a tributação sobre o consumo pesa mais sobre a população de menor renda, ou seja, faz com que quem ganhe menos acabe pagando mais tributos, pois não se tem como diferenciar tributação sobre alimentos que é pago pelo pobre ou pelo rico, já que ela é exatamente a mesma – o que acaba tornando o sistema tributário injusto.
Devemos construir a consciência que os impostos têm a finalidade de fomentar o desenvolvimento social e de financiar os serviços públicos, e quando aplicados de forma correta – em educação, saúde, saneamento básico e tantos outros serviços necessários à população – proporcionam um desenvolvimento econômico-social que nos levará ao grupo dos países desenvolvidos, onde economia e qualidade de vida são equivalentes. Cabe a nós cobrar que as aplicações sejam feitas de forma coerente.

" A Contribuição Repudiada "

                                Editorial Zero Hora


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O governo reapresentou uma ideia já repudiada, com a ameaça de recriar a CPMF, para testar reações conhecidas. Os contribuintes rejeitam de forma categórica a ressurreição de um imposto que durou 10 anos e foi extinto em 2007 porque não conseguiu oferecer suporte à melhoria da saúde pública. A nova manobra inclui uma sutileza, representada pela mudança de nome do imposto, que passaria a se chamar Contribuição Interfederativa da Saúde (CIS). A palavra saúde pode ser apenas mais uma disfarce, como ocorreu quando da vigência da CPMF, porque a tal contribuição se presta a todo tipo de desvio, tapando furos nas contas públicas das mais variadas áreas.
Além das principais entidades empresariais, que não admitem a elevação da carga tributária num momento de recessão econômica, também as lideranças políticas do Congresso se voltam contra a medida. A ideia de destinar um percentual da arrecadação exclusivamente para a saúde até seria aceitável se o país estivesse em melhor situação e se os contribuintes tivessem a garantia de que os recursos não seriam desviados. É paradoxal que um governo pretenda sobrecarregar a população exatamente no momento em que são divulgados números alarmantes sobre o tamanho da recessão econômica.
Contribuições ditas provisórias, que acabam se perpetuando, devem deixar de existir como recurso mais cômodo ao alcance dos governantes. Não é essa a saída para a crise da saúde, nem pode ser esse o pretexto para, em nome de carências em um setor essencial, aumentar a arrecadação federal. Equilibrar orçamentos às custas de mais tributos é atentar contra a competitividade das empresas e o já abalado poder de compra da população.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

<< Recessão mais profunda e prolongada >>


por Beth Cataldo



Na formulação de seu plano de voo para atravessar o ano de 2015, o governo projetou um período de desaceleração econômica que se estenderia até dezembro, quando já seria possível detectar sinais de melhoria na atividade econômica. E contava com uma franca recuperação para o início do próximo ano. Os dados divulgados hoje pelo IBGE de queda de 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre, ante os três meses anteriores, mostram que a atividade econômica se deprimiu mais do que o previsto e a recuperação também será mais lenta. 


Na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, a queda acentua-se para 2,6%, depois que foram ajustados os números do primeiro trimestre deste ano, que agora registram uma redução de 0,7%, e não de 0,2%, em relação ao último trimestre de 2014. Nesse contexto negativo, e que supera as projeções de analistas divulgadas nesta semana, chama atenção o tombo da construção civil, com uma retração de 8,4% na comparação entre o segundo e o primeiro trimestre deste ano. Contaminado pela queda no consumo das famílias, o comércio apresentou uma redução de 3,3% na avaliação dos mesmos períodos. 



A caracterização de uma recessão técnica, depois de dois trimestres consecutivos e negativos, nem precisaria aguardar os números oficiais para se confirmar. Os sinais de que o país está mergulhado na recessão estão visíveis para todos. O aumento do desemprego, o adiamento de investimentos e a queda nos índices de confiança dos consumidores e empresários compõem esse quadro desalentador. Ainda mais quando se lembra que a economia brasileira cresceu 7,5% há pouco menos de cinco anos, alimentando a expectativa de que o país caminhava para um novo patamar de desenvolvimento.  



A perspectiva agora não é de um rápido ajuste, como aconteceu em 2009, na esteira da crise financeira global desencadeada nos Estados Unidos, e que apontou uma reversão no ano seguinte. Com um governo profundamente fragilizado do ponto de vista político, as soluções para o resgate da economia permanecem obscuras e incertas. O melhor termômetro para se avaliar esse clima desestimulante pode ser encontrado na oitava queda trimestral consecutiva da Formação Bruta de Capital Fixo, que mede o nível de investimentos na economia. 



A queda desse indicador, comparando-se o segundo trimestre com o primeiro de 2015, foi de 8,1% e recaiu sobre uma base já reduzida. Em relação ao PIB, a taxa de investimento recuou para 17,8%, abaixo do mesmo período do ano anterior, quando o patamar era de 19,5%. O gráfico divulgado hoje pelo IBGE mostra que o país conseguiu sustentar uma taxa de investimento ao redor de 20% do PIB desde 2010 até 2013 e desde então não consegue reagir. 



São dados que comprovam a perspectiva de que a recessão brasileira, desta vez, será mais duradoura, estendendo-se para 2016, como já indicam as estimativas de mercado. Sem investimentos, não é possível criar as condições para retomar o crescimento econômico. Nesse ambiente, o fracasso do ajuste das contas públicas – a grande tarefa prevista para 2015 – joga as expectativas dos agentes econômicos ainda mais para baixo. A resposta ensaiada pelo governo de retorno da CPMF, para garantir as receitas necessárias no próximo ano, mostra que a saída para a economia brasileira ainda está longe de ser encontrada.  
Atualizado em 28/08/2015 12h06

Setor público tem pior resultado da história para julho e na parcial do ano

Segundo Banco Central, houve déficit primário de R$ 10 bilhões em julho.
Na parcial do ano, foi registrado superávit de R$ 6,2 bilhões.


Alexandro MartelloDo G1, em Brasília
As contas de todo o setor público, incluindo o governo, estados, municípios e empresas estatais, registraram nova deterioração em julho. No mês passado, segundo informações divulgadas pelo Banco Central (BC) nesta sexta-feira (28), foi contabilizado um déficit primário (receitas menos despesas, sem contar juros) de R$ 10,01 bilhões.
RESULTADO PRIMÁRIO
Para meses de julho, em R$ bilhões
3,814,435,496,55,316,2710,772,411,5313,785,562,28-4,71-10,01Ano 2002Ano 2003Ano 2004Ano 2005Ano 2006Ano 2007Ano 2008Ano 2009Ano 2010Ano 2011Ano 2012Ano 2013Ano 2014Ano 2015-10010-2020
Banco Central
Já no acumulado dos sete primeiros meses deste ano, foi registrado um superávit primário – a economia feita para pagar juros da dívida pública – de R$ 6,2 bilhões. Ambos os resultados, o de julho e a parcial deste ano, são os piores para estes períodos desde o início da série histórica, em dezembro de 2001.
Déficit em 12 meses
Com o fraco resultado das contas públicas de janeiro a julho deste ano, houve, em 12 meses até julho, um déficit primário de R$ 50,99 bilhões, ou 0,89% do Produto Interno Bruto (PIB), também o pior resultado da série histórica para este indicador. O PIB é a soma de tudo o que é produzido no país.

"A trajetória em julho e ao longo do ano dos resultados fiscais estão fortemente impactados pelo nível da atividade econômico, resultado de uma economia em recessão. Tudo mais constante, isso se traduz em uma menor arrecadação fiscal. Fatores são fundamentais para o desempenho das contas fiscais neste ano", avaliou Fernando Rocha, chefe-adjunto do Departamento Econômico do Banco Central.
Estados ‘salvam’ parcial do ano
Os números do Banco Central mostram que, no acumulado dos sete primeiros meses deste ano, os estados e municípios tiveram desempenho bem melhor do que o governo federal e foram os grandes responsáveis pelo resultado positivo de R$ 6,2 bilhões de todo o setor público.

De janeiro a julho, os estados e municípios registraram um superávit primário de R$ 16,12 bilhões, enquanto as empresas estatais tiveram um resultado positivo de R$ 1,97 bilhão. O governo, por sua vez, teve um déficit primário de R$ 7,95 bilhões até julho.
“Registramos um superávit muito forte dos governos regionais [estados e municípios] no acumulado do ano. Estados e municípios também são afetados pelo mesmo desempenho da atividade econômica, mas registraram no ano um superávit. Em termos dos resultados fiscais, há uma sazonalidade [variação conforme a época do ano] e eles tendem a ser mais favoráveis na primeira metade do ano e ligeiramente menores na segunda metade do ano", acrescentou Rocha, do BC.
Déficit nominal
Quando se incorporam os juros da dívida pública na conta, no conceito conhecido no mercado como "nominal", que é acompanhado com atenção pelas agências de classificação de risco na determinação da nota dos países, houve déficit de R$ 502 bilhões em 12 meses até julho, o equivalente a expressivos 8,81% do PIB. Trata-se, também, do pior resultado da história.

Meta do governo
No mês passado, o governo formalizou a a redução da meta de superávit primário de suas contas para todo este ano – procedimento que já era esperado pelos analistas do mercado financeiro devido, principalmente, pela redução da arrecadação. O superávit primário é a economia que o governo faz para pagar os juros da dívida pública. Para todo o setor público, o que inclui ainda os estados, municípios e estatais, a meta fiscal para este ano caiu de R$ 66,3 bilhões (1,2% do PIB) para R$ 8,7 bilhões (0,15% do PIB).

Para tentar atingir as metas fiscais, além de aumentar tributos sobre combustíveis, automóveis, empréstimos, importados, receitas financeiras de empresas, exportações de produtos manufaturados, cerveja, refrigerantes e cosméticos, o governo também atuou na limitação de benefícios sociais, como o seguro-desemprego, o auxílio-doença, o abono salarial e a pensão por morte, medidas já aprovadas pelo Congresso Nacional.
Além disso, efetuou um bloqueio inicial de R$ 69,9 bilhões no orçamento deste ano, valor que foi acrescido de outros R$ 8,6 bilhões em julho. As principais rubricas afetadas pelo contingenciamento do orçamento de 2015 são os investimentos e as emendas parlamentares.
Dívida líquida do setor público cai
Segundo números do Banco Central, a dívida líquida do setor público (governo, estados, municípios e empresas estatais) recuou de R$ 1,96 trilhão em junho, ou 34,6% do PIB, para R$ 1,95 trilhão em julho deste ano – o equivalente a 34,2% do PIB. A dívida líquida considera os ativos do país como, por exemplo, as reservas internacionais - atualmente ao redor de US$ 370 bilhões.

Segundo Fernando Rocha, da autoridade monetária, a queda da dívida líquida em julho deste ano o que é explicada pela alta do dólar no período. No mês passado, o dólar avançou 9,4%. Como as reservas internacionais estão cotadas em moeda estrangeira, a alta do dólar tem efeito positivo sobre esse endividamento do país.
Dívida bruta sobe para 64,6% do PIB
No caso da dívida bruta do setor público, uma das principais formas de comparação internacional (que não considera os ativos dos países, como as reservas cambiais) – conceito também acompanhado pelas agências de classificação de risco – o endividamento brasileiro subiu em julho.

Em junho, estava em 63,2% do PIB (R$ 3,58 trilhões), passando para R$ 3,68 trilhões, ou 64,6% do PIB, em julho deste ano, também o pior resultado da história. Alguns bancos já projetam a dívida bruta em 70% do PIB nos próximos anos.