sexta-feira, 25 de outubro de 2013

" Dois ismos que não rimam "


 


Regis Filho/Valor / Regis Filho/Valor
Nobre: "Lula disse que não se faz política com o que se quer, mas com o que se tem.
Para reformar o sistema político, vamos precisar fazer política com o que se quer"

As manifestações de junho foram objeto de muitas interpretações, mas a primeira a ser publicada como livro foi "Choque de Democracia: Razões da Revolta", lançada em e-book pelo filósofo e cientista político Marcos Nobre, professor da Unicamp e pesquisador do Cebrap. Quando os manifestantes saíram às ruas, ele trabalhava em um livro mais amplo, destinado a interpretar os últimos 30 anos pela perspectiva de seu conceito de "pemedebismo".

"Imobilismo em Movimento" (Companhia das Letras, 208 págs., R$ 36) trata do período da redemocratização, com a formação do chamado "Centrão", o mito da governabilidade que se estabeleceu após a queda de Fernando Collor, os períodos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva e o início do governo Dilma Rousseff. No último capítulo, figura a tese, já presente no e-book, segundo a qual o que ocorreu em junho foi uma explosão do sentimento de que se tornou insuportável o descompasso entre o funcionamento do sistema político e as aspirações da sociedade, que, em oposição ao antigo nacional-desenvolvimentismo, Nobre denomina "social-desenvolvimentismo".

"A ideia é expandir a perspectiva sobre o período pós-redemocratização, para sistematizar a experiência de quem não viveu a ditadura e a hiperinflação", diz Nobre. A motivação para o recorte de leitura foi uma investigação sobre o "conservadorismo à brasileira". Encasteladas no sistema político, não escapam inteiramente desse conservadorismo nem as novidades do cenário político, como a aliança entre Marina Silva e Eduardo Campos e a ascensão da nova geração de políticos.

Valor: O senhor usa o termo "pemedebismo" há anos. Como foi a cunhagem desse conceito?
Marcos Nobre: A ideia do pemedebismo me veio em 2009, quando ficou claro que existe uma cultura política que domina o sistema e é fundamental para entender o conservadorismo brasileiro. Há um argumento, partilhado pela direita e pela esquerda, de que a sociedade brasileira é conservadora. Isso legitimou o conservadorismo do sistema político: existiriam limites para transformar o país, porque a sociedade é conservadora, não aceita mudanças bruscas. Isso justifica o caráter paquidérmico da redemocratização e da redistribuição da renda. Mas não é assim. A sociedade é muito mais avançada que o sistema político. Ele se mantém porque consegue convencer a sociedade de que é a expressão dela, de seu conservadorismo. Na Constituinte, em 1987 e 1988, nunca se viu tamanha participação da sociedade. A elite conservadora entrou em pânico, temendo um processo incontrolável de democratização. Toda a história republicana brasileira é a de colocar obstáculos para a democratização da sociedade.

"A sociedade é muito mais avançada que o sistema político.
Ele se mantém porque consegue convencer
a sociedade de que é a expressão dela"

Valor: O pemedebismo pode ser entendido como a versão pós-redemocratização de um modus operandi tradicional no Brasil?
Nobre: Há parentescos com outras formas do conservadorismo na história, mas agora é um conservadorismo na democracia. A origem está no fato de que a ditadura militar estabeleceu dois partidos, juntando correntes antagônicas dentro do MDB. O bipartidarismo forçado levou à constituição desse sistema de vetos, obrigando correntes diversas a conviver dentro da estrutura partidária. No século XX, foram 19 anos de democracia, mas com partidos postos na ilegalidade, tentativas de golpe. Ninguém vive 21 anos de ditadura impunemente. É só manter um regime democrático durante um tempo mínimo, que a democracia aprofunda. O que acontece com 30 anos de democracia num país? As pessoas saem na rua. Como um sistema político elitista lida com isso? Se a democracia permanecer, o pemedebismo tem data para acabar. Mas isso envolve uma série de reformas institucionais. Vai ser preciso garantir para uma oposição de verdade as condições de sobreviver e reproduzir seus quadros fora do governo. É encontrar base social e institucional para que uma oposição possa se organizar.

Valor: O senhor diz que o ímpeto reformador dos anos 1980 foi canalizado para o PT, que depois abriu mão dele para ocupar o pemedebismo pela esquerda...
Nobre: O PT votou contra a Constituição em 1988, mas assinou. Cinco anos depois, defendeu-a com unhas e dentes contra a revisão. Por que uma mudança tão rápida? Por que Lula, em 1989, chegou ao segundo turno com 16,08% dos votos. As forças sociais foram se organizando em torno do PT. Não havia, antes, uma frente unida de movimentos, tanto é que o "Centrão" conseguiu barrar muita coisa. O PT ocupou esse lugar porque o governo Fernando Henrique propôs uma acomodação ao sistema: deixou-o funcionando como estava, mas dirigindo-o para transformações econômicas. Estabeleceu dois polos, com o PSDB de um lado e o PT do outro. No meio, o pemedebismo. Quando Lula chegou ao poder, as forças sociais tinham duas missões. A primeira, reformar o sistema político. A segunda, reduzir as desigualdades. Em 2005, Lula avisa que não pode fazer as duas coisas. Para reduzir as desigualdades, tem de fazer um pacto com o sistema. E foi tão bem-sucedido que o outro polo desapareceu.

Valor: E o que aconteceu com aquele ímpeto?
Nobre: Ele ficou claro nas revoltas de junho: há um descompasso entre a cultura política democrática da sociedade e o sistema político. A sociedade é bem mais polarizada que o sistema e não vê sua polarização refletida nele. As pessoas ficam chocadas pela agressividade dos protestos de junho, pela quantidade de opiniões divergentes. Mas democracia é isso. O medo da polarização é um mito antigo e conservador. A polícia exerce violência brutal na periferia. No ano passado, tivemos 1.300 políticos assassinados, além de líderes do Movimento Sem-Terra. A polarização está no cotidiano das pessoas no sentido mais brutal da palavra. Polarização faz parte da democracia e as pessoas aprendem a conviver com isso. É na discussão que se criam regras da convivência. Não tem outro jeito, senão a velha repressão.
AP / AP
"A sociedade é bem mais polarizada que o sistema político e não vê sua polarização refletida nele",
diz Nobre (na foto, manifestação de professores no Rio de Janeiro)
Valor: Existe algo desse impulso nos 20 milhões de votos de Marina Silva em 2010? A Rede Sustentabilidade incorpora parte dele?
 
Nobre: A ausência de identificação de polarizações reais se reflete em válvulas de escape eleitorais. Marina chegou a um nível de votação em 2010 que é mais que isso. Quando Lula desligou a polarização, ficou só um condomínio pemedebista com o PT como síndico. E a oposição passa a ser gestada de dentro do governo: Marina veio do PT. Se todo mundo está dentro do governo, a oposição também está. Como Eduardo Campos. Essa votação virou um movimento que agitou a base da sociedade. E é um movimento dirigido para o sistema político. As organizações inovadoras das revoltas de junho, como o Movimento Passe Livre, Comitês Populares da Copa e outros, não são dirigidas ao sistema. Falam para a sociedade, a partir da sociedade. A Rede foi o primeiro movimento com base social efetiva dirigido ao sistema político.

Valor: A aliança Marina-Campos representa uma modificação importante desse sistema?
 
Nobre: A questão é se vai significar repolarização. O sistema pode ser polarizado e ainda assim permanecer pemedebista, como foi no governo Fernando Henrique. Mas repolarizar é essencial para que o sistema represente politicamente um mínimo das polarizações sociais. Já seria um passo importante. Vai acontecer? Vamos ver em 2014. Ao menos, a pasmaceira vai se mexer um pouco. O que precisa ser mudado no longo prazo é a cultura pemedebista, voltar a ter situação e governo. Não é possível um sistema político em que todo mundo é governo, seja qual for o governo. Não tem democracia saudável se for assim. É o conservadorismo brasileiro.

Valor: Quando Marina Silva, com mensagem ambientalista, teve 20 milhões de votos, o movimento seguinte do governo do PT foi se aliar ao ruralismo.
Nobre: Essa é a grande novidade do governo Dilma. O ruralismo sempre foi hostil ao PT. O governo Lula fez de tudo pra atrai-lo. Agora, a aliança se consolidou, justamente porque Marina está do outro lado. Isso é o pemedebismo: quando um partido abre mão de bandeiras históricas para fazer um acordão com o sistema. Certamente, Campos aceitou que Marina afastasse Ronaldo Caiado da aliança, mas não vai aceitar que afaste o ruralismo enquanto tal. Se setores ruralistas quiserem ficar na aliança, vão ficar. E Marina vai ter que engolir.

"As pessoas ficam chocadas pela agressividade dos protestos. Democracia é isso. O medo da polarização
é um mito conservador"

Valor: Que desdobramentos vê para as manifestações de rua?
 
Nobre: Uma pauta que veio para ficar é o papel da polícia na democracia. Espero que seja possível reformar a polícia, última instituição ainda não atingida pela redemocratização. Outro elemento importante é a discussão sobre prioridades orçamentárias. O sistema estabelece as prioridades orçamentárias, mas não são as da sociedade. A resposta do sistema político às revoltas de junho foi uma tentativa de usar as ruas para passar suas pautas. O governo tenta passar pautas que são suas há tempos, como o Mais Médicos. O Congresso diz que as pautas são as suas. E segue o cabo-de-guerra entre os dois principais partidos da aliança, PT e PMDB.

Valor: O governo do Rio está aumentando as apostas, ao prender 70 pessoas de uma vez.
 
Nobre: É a aposta mais estúpida e antidemocrática que um governo pode fazer. É a resposta de um governo acuado. Ficou claro em junho que, quando a repressão se abatia, a manifestação aumentava. Parte da motivação era garantir o direito de manifestação. O sistema político, além de não nos representar, ainda bloqueia manifestações com o braço repressivo. O caso Amarildo é emblemático. O sistema aposta no apoio da população à repressão, mas houve a movimentação para mostrar que a violência policial acontece todo dia, mas não aparece. Esse jeito de funcionar da polícia é inaceitável. Não acho que essa atuação antidemocrática tenha respaldo generalizado da população.

Valor: O senhor anuncia a chegada de um pemedebismo repaginado e rejuvenescido. Como avalia a nova geração da política?
Nobre: Escrevi isso para falar da criação do PSD por Gilberto Kassab. Há não só uma troca geracional em curso, mas o pemedebismo incorpora elementos do social-desenvolvimentismo. Kassab, quando prefeito, nunca desfez o que Marta Suplicy fez. É o pemedebismo que reconhece que o social-desenvolvimentismo veio para ficar. A diferença é a maneira como lida com a população. Continua sendo a maneira tradicional de fazer política. A nova geração como um todo já incorporou o avanço democrático. São pessoas que se formaram na democracia. Mas são figuras pragmáticas: se acostumaram ao ambiente pemedebista. Lula disse que não se faz política com o que se quer, mas com o que se tem. O que temos é o pemedebismo. Para reformar o sistema político, vamos precisar fazer política com o que se quer.

Valor: Tanto o centralismo quanto o federalismo são apontados, em momentos diferentes, como fontes do pemedebismo. Por que, hoje, o federalismo representa a possibilidade de reduzi-lo?
Nobre: Na década de 1980, a crise econômica, associada à morte de Tancredo Neves, deu aos governadores um peso enorme. A primeira coisa que Fernando Henrique fez para estabilizar o país política e economicamente foi tirar poder dos governadores. Centralizou recursos e fez uma renegociação de dívidas cruel. O aumento da carga tributária de 25% para 32% foi distribuído desigualmente em favor da União. Esse processo, fundamental para a estabilização, foi usado por Lula para desligar a polarização. Os governadores são dependentes do governo federal. Um elemento para existir uma verdadeira oposição é dar mais recursos e autonomia aos Estados e municípios. Como teremos uma democracia sem assembleias estaduais e câmaras de vereadores ativas?
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Reportagem por Diogo Viana / Para o Valor de São Paulo
Fonte: Valor Econômico on line, 25/10/2013

" A geração que vai mudar o mundo "


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Aos 23 anos, a paulista Lala Rudge é referência para adolescentes e garotas na sua idade com dicas de moda, beleza e life style pela internet. Ela começou a postar fotos de si própria no Instagram e em um blog há três anos. Hoje, é seguida por quase 400 mil pessoas na rede social de fotos e seu diário
virtual recebe 80 mil visitas diárias. O blog possui dez anunciantes e, para ter um banner estampado nele por um mês, a empresa interessada tem de desembolsar entre R$ 5 mil e R$ 30 mil. Com o sucesso, Lala abandonou a faculdade de direito e é disputada por grifes de moda para prestigiar eventos e desfiles.
Pesquisa realizada em 27 países revela que os jovens de hoje apostam no poder da tecnologia, acreditam que podem fazer a diferença e são muito otimistas. Saiba como eles estão transformando a maneira de se relacionar,
trabalhar, fazer política e negócios
Eles são otimistas, acreditam que podem fazer a diferença, têm espírito empreendedor e são ultraconectados. Também podem ser descritos como narcisistas, excessivamente confiantes e um tanto mimados. O retrato dos jovens nascidos entre os anos 1980 e 2000 depende do ângulo escolhido e da lente utilizada. Mas a juventude de hoje, que cresceu embalada pela maior revolução tecnológica dos últimos tempos, a internet, vem transformando o seu tempo com uma eloquência que não se via desde os anos 1960 e 1970, quando a garotada fez barulho pela liberdade sexual e contra os regimes ditatoriais e as guerras. Educados sob o lema “yes, you can” (sim, você pode), interligados pela rede mundial onde compartilham ideais e ambições, eles estão mudando a forma de se relacionar, trabalhar, fazer política e negócios.

Uma pesquisa feita em 27 países, inclusive o Brasil, com 12 mil jovens de 18 a 30 anos traçou o perfil da Geração Milênio. Salta aos olhos a crença no poder da tecnologia (leia quadro), capaz, na visão deles, de transpor barreiras de linguagem, de facilitar a conquista de um novo emprego e até de reduzir as diferenças sociais. Na enquete, intitulada Telefónica Global Millennial Survey, encomendada pela multinacional de telecomunicações espanhola, os brasileiros se destacam pelo otimismo: 81% acreditam que os melhores dias do País estão por vir, contra 67% da juventude no mundo, e 87% esperam ter dinheiro o suficiente para se aposentar de forma confortável – a média mundial ficou em 61%. Também vale ressaltar que 80% dos nossos jovens creem que podem se destacar na sua comunidade (no mundo o percentual ficou em 62%) e apostam no empreendedorismo. Para 47% dos brasileiros entrevistados, ser dono do próprio negócio é muito importante, contra 22% na média geral. “Essa geração quer mudar o mundo como o Mark Zuckerberg, do Facebook, criando algo grande e ganhando muito dinheiro”, resume a psicóloga Maria Célia Lassance, do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
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A estudante de moda Jordana França é um exemplo do jovem empreendedor. Aos 22 anos, nunca pensou em ter patrão. Recém-chegada de um intercâmbio na Itália, ela acaba de inaugurar, com o apoio financeiro da família, seu primeiro empreendimento, a loja de roupas de ginástica Move Fitwear. “Preciso ser um sucesso. E rápido”, diz. Jordana toca o negócio que fatura cerca de R$ 30 mil por mês, mas também gosta de fazer as vezes de modelo e posta fotos de si própria no Instagram da loja. Os planos para o futuro já estão delineados: “Em seis meses quero abrir outra unidade, lançar minha coleção de peças e vendê-las pela internet”.

“Há um desejo muito grande de se arriscar longe do caminho convencional traçado dentro de uma empresa”, diz Marcela Butazzi, consultora da MB Coaching especializada em carreira para jovens. Em seu escritório, Marcela ouve queixas diante da promoção rápida que não veio ou do salário que não cresceu exponencialmente. “Antigamente, o sujeito primeiro acumulava experiência no mercado. Hoje, ele quer experiência e reconhecimento simultâneos”, explica. Em 2012, uma pesquisa da agência de recrutamento Cia de Talentos sondou 40 mil jovens em todo o País. O sonho de 56% dos entrevistados era não ter patrão e metade revelou a intenção de montar uma empresa no prazo máximo de seis anos.
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O desejo de tornar-se uma marca é outra característica desta geração. Jovem, bonita e bem-nascida, a paulista Lala Rudge, 23 anos, virou referência para adolescentes e garotas da sua idade ao dar dicas de moda, beleza e life style pela internet. Ela começou a postar fotos dela mesma no Instagram e em um blog há três anos. Hoje, seu diário virtual recebe 80 mil visitas diárias. Para ter um banner estampado nele por um mês, a empresa interessada tem de desembolsar entre R$ 5 mil e R$ 30 mil. Lala, que deixou a faculdade de direito para desbravar o mundo virtual, possui dez anunciantes. Os convites recebidos constantemente para figurar na primeira fila de desfiles são um termômetro da sua influência. Grifes como Cris Barros, Mixer e Daslu, entre outras, fazem questão da presença dela em seus eventos.
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Mesmo gigantes do varejo, como a Riachuelo, estão de olho nas blogueiras fashion. No fim do ano, a marca irá lançar uma coleção assinada por dez personalidades da moda, entre elas duas blogueiras. “Elas são grandes formadoras de opinião”, afirma Marcella Kanner, gerente de marketing da Riachuelo. “Temos um núcleo de mídias sociais que acompanham, entre outras coisas, blogs e sites dessa turma.” Para Veranise Dubeux, da Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio de Janeiro, pesquisadora desse público nas áreas social e de consumo, a juventude atual tem uma maneira peculiar de lidar com a pressão para se destacar e ainda ter qualidade de vida. “Ela compartilha isso usando a felicidade como meio de promoção, mostrando sempre coisas agradáveis nas redes sociais.” É nessa passarela que Lala desfila. Seu Instagram é seguido por 396 mil pessoas. “Jovens como eu não querem trabalhar para os outros”, diz ela, hoje dona de uma grife de lingerie localizada no badalado shopping Iguatemi, em São Paulo.
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Carreiras tradicionais em grandes empresas continuam atraindo os profissionais do futuro, mas a relação entre o jovem talento e o chefe experiente mudou drasticamente. Flexibilidade de horários, plano de carreira e maior acompanhamento profissional são fatores decisivos na hora de preencher vagas. Uma pesquisa da Amcham, a Câmara Americana de Comércio, ouviu 87 gestores de recursos humanos e mostrou que 34% deles já haviam criado algum plano específico para reter funcionários da Geração Milênio. Este mês, 8.185 brasileiros até 31 anos foram entrevistados pela Clave Consultoria de Recursos Humanos e o LAB SSJ, consultoria especializada em soluções de aprendizagem corporativa, que queriam entender o que esses profissionais procuram na hora de escolher uma empresa e o que os faz permanecer nela. O estudo, intitulado “Atração e Retenção de Jovens”, mostrou que os fatores mais importantes para a atração dessa mão de obra são a boa perspectiva na carreira futura (69,3%) e a possibilidade de desenvolver novas habilidades (60%). O que retém esses jovens são os desafios constantes e responsabilidades relevantes (39,1%) e a existência de um gestor que os apoie e lhes dê autonomia para realizar o trabalho (31,1%).
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Hoje, é comum ver empresas oferecendo acompanhamento profissional a pessoas de 25 anos. “Os dilemas foram antecipados”, explica a consultora Adriana Marques, da Sociedade Brasileira de Coaching. “Quanto mais possibilidades de carreiras, maior é a quantidade de dúvidas e menor o comprometimento com a companhia.” Uma das marcas da Geração Milênio é não temer as novas experiências profissionais. Estatisticamente, eles tendem a permanecer em uma empresa por dois ou três anos, enquanto os Baby Boomers, seus pais, ficavam entre cinco e sete anos, de acordo com a pesquisadora americana Peg Streep, que irá lançar um livro sobre o tema em dezembro.

O engenheiro carioca Augusto Acioly, 29 anos, formado há quatro, está em seu quarto emprego. Há três meses, conseguiu realizar o sonho de viver no Exterior e foi morar em Milão, na Itália. Funcionário da multinacional francesa Anotech Energy, ele presta consultoria a uma gigante italiana do ramo petrolífero. Antes, trocou três vezes de patrão. Ficou seis meses no primeiro emprego, depois passou dois anos em uma empresa de onde saiu para ganhar três vezes mais. A experiência, porém, durou apenas oito meses. “Saí porque o chefe não enxergava que poderíamos crescer juntos, como alguém que pode agregar. Quando vi que não teria espaço para crescer, procurei outro lugar”, diz. “Uma das mudanças possibilitou que eu adquirisse experiência em gerenciamento, pois sempre havia atuado na parte técnica da profissão.” Como não poderia deixar de ser, quase todas as oportunidades de trabalho de Acioly surgiram via Linkedin, a rede social profissional.

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Na pesquisa da Telefónica, temas como educação e desigualdade social também estão em alta na cartilha de interesses da Geração Milênio brasileira. Esses dois fatores foram citados como os que mais afetam o País e receberam 24% dos votos, seguido de saúde, com 17%. Não surpreende, então, que nas manifestações de junho – todas coordenadas pelas redes sociais – as principais bandeiras fossem melhorias no ensino, na saúde e no transporte. Muito antes dos protestos, a estudante catarinense Isadora Faber, 14 anos, já denunciava a precariedade do sistema educacional público do País. No ano passado, ela ganhou notoriedade ao criar a fanpage Diário de Classe, no Facebook, na qual mostrava como funciona uma escola pública na visão de quem a frequenta. Seus posts ecoaram pelo País e a colocaram no centro das atenções. “Se não fosse a internet talvez eu não tivesse feito nada”, diz ela. Com a repercussão, a casa da adolescente foi apedrejada e ela recebeu uma ameaça de morte.

Isadora, porém, seguiu em frente e, hoje, é referência para empresários, educadores e gestores públicos que frequentam as palestras dela pelo País. No mês passado, a estudante catarinense lançou o site de sua ONG que, entre outras propostas, servirá de canal de denúncias sobre a situação de escolas de todo o Brasil. A postura de Isadora está alinhada com o pensamento de 54% dos brasileiros ouvidos na pesquisa da Telefónica, para quem melhorar o acesso e a qualidade da educação é uma maneira de fazer a diferença no mundo. “A maioria dos jovens de hoje quer resolver questões sociais que, eles acreditam, foram deixadas pelas gerações anteriores”, afirma o sociólogo Ronald E. Riggio, professor de liderança e psicologia organizacional da Claremont McKenna College, na Califórnia.
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Da mesma forma, a questão ambiental tem um apelo inédito para a juventude. Proteger o meio ambiente é citado por 45% dos brasileiros como a maneira de fazer a diferença mundialmente e 70% acreditam que a questão da mudança climática é muito urgente. O pernambucano Lucas Tiné, 21 anos, tornou-se ativista ambiental três anos atrás, em meio à discussão da votação do novo Código Florestal. Depois de alguns debates via internet, ele e o grupo que criou decidiram ir às ruas do Recife fazer coleta de lixo e educar a população sobre a causa. “Percebi uma destruição do meio ambiente gigantesco em minha cidade”, diz ele, que chegou a cursar jornalismo, mas hoje é flautista. Tiné está presente em várias mídias sociais e lança mão delas para difundir suas ideias. “As redes são a maior porta para o debate porque dão o maior e mais rápido feedback atualmente”, acredita. “Meu trabalho de formiguinha pode se converter em um trabalho do formigueiro todo muito mais rápido.” É com essa crença que eles constroem a própria história e transformam o mundo.
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foto: Rafael Hupsel)/ag istoé
fotos: montagem sobre foto de kelsen fernandes;
Leo Caldas; Masao Goto Filho /ag. Isto É
Fonte: Telefónica Global Millennial Survey: Global Results
Reportagem por Rodrigo Cardoso, Mariana Brugger e Andres Vera
Fonte: http://www.istoe.com.br/reportagens

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

" O Direito, o sentimento e a justiça "

ARTIGOS - Cauê Vieira*
A notícia em pauta nos meios de comunicação desde a última sexta-feira, qual seja, o resgate dos beagles do interior de um campo de testes no interior de São Paulo, avança diuturnamente com a manifestação das mais variadas opiniões, muitas antagônicas, mas algumas complementares às outras.

Ontem, neste mesmo espaço, um ilustre professor de Direito resumiu a notícia sob o viés sentimental, empático, concluindo que manifestações como aquela havida na cidade de São Roque seriam nada mais do que projeções de um desejo, confundidos, sob o ponto de vista jurídico, com direitos até então inexistentes.

Permito-me, contudo, divergir do colega articulista, não sem buscar complementar sob o ponto de vista racional o inegável caráter sentimental existente por detrás de qualquer batalha.

O Direito, por ser uma ciência social, não pode ignorar a salutar mutabilidade de conceitos da população. Se até tempos atrás era socialmente aceitável a experimentação animal, com práticas abomináveis como a vivissecção, dentre outras, a ponto de a legislação tratar do tema sob o viés permissivo, as demonstrações populares diárias nos levam à conclusão de que o senso comum mudou.

Basta conectar-se com qualquer rede social para verificar a cada vez mais crescente demanda pelo reconhecimento dos direitos animais, seja pela ação proativa dos militantes da causa, seja pela produção científica sobre o tema ou ainda mais pelo reconhecimento de tais direitos por parte do poder público, como se verifica na exitosa experiência da Secretaria Especial dos Direitos Animais de Porto Alegre, pioneira no país, e referência internacional da causa animal.

Por tudo, dissociar a ação pura e simples de resgate dos animais (sem com isso deixar de abominar qualquer ato de vandalismo) da mudança de paradigma quanto aos direitos animais é, no mínimo, equivocado. O que ocorreu no Estado de São Paulo foi somente mais um capítulo da história recente de mutabilidade de conceitos sociais em que, felizmente, a velha máxima jurídica da pena de Eduardo Couture prevaleceu: “Luta. Teu dever é lutar pelo Direito, mas no dia em que encontrares o Direito em conflito com a justiça, luta pela justiça”.

*ADVOGADO

"" Excluída "" << Martha Medeiros >>


                        A  Ana me ligou no final da tarde de sexta: “E aí, você vem?”.


Eu não fazia ideia sobre o que ela estava falando. Foi então que a Ana se deu conta de que eu não estava no Facebook, portanto, não sabia da festa que a turma havia armado. Como eu não havia me pronunciado, ela resolveu ligar para saber se eu estava viva.

O cerco está apertando. Antes, eu trocava e-mails com os amigos com uma certa frequência, agora todos debandaram, só um ou outro lembra que eu não estou nas redes sociais e faz a caridade de me manter informada sobre o que acontece no universo.

Não tenho vontade de ter perfil em lugar algum (e mesmo assim tenho, criados e postados por pessoas que não sei quem são). Instagram, Twitter, WhatsApp, nada disso me seduz, não conseguiria tempo para esse contato eletrizante. Ainda me custa compreender pessoas que deixam o iPhone sobre a mesa do restaurante, que precisam fotografar cada minuto vivido, que desmaiam quando esquecem o celular em casa. Eu deveria ter me alistado na expedição de colonização de Marte, onde certamente eu me sentiria menos deslocada do que aqui na Terra.

Mas não me alistei, então terei que me ajustar à nova ordem social do meu planeta.

Óbvio que a tecnologia não é a vilã da história, e sim o uso obsessivo que se faz dela. Para quem tem autocontrole, esses gadgets são fascinantes por seu dinamismo, modernidade, capacidade de agregação, de agilização de tarefas, e ainda resolvem a questão do anonimato, com o qual ninguém mais quer lidar.
As redes transformaram palco e plateia numa coisa só: todos são espectadores dos outros e ao mesmo tempo possuem um holofote sobre si. Já que existir virou sinônimo de “quantos me curtem”, a população mundial conseguiu um jeito de ficar quite com o próprio ego.

É muito provável que eu estivesse nas redes caso não escrevesse colunas em jornais. Como tenho esse canal de expressão semanalmente, não me fazem falta outros. Ou não faziam. Estou nesse impasse agora: devo mergulhar com mais profundidade no mundo virtual? Reconheço três vantagens: acompanhar o que meus amigos andam tramando às minhas costas, me atualizar com mais rapidez e oferecer aos meus leitores um perfil oficial. Além de me sentir menos mumificada.
                     Será isso que chamam de “se reinventar”?

Ando cada vez mais próxima da filosofia budista, exalto a desaceleração, prezo uma boa conversa, adoro ter tempo para meus livros, meu silêncio, minhas caminhadas. Não sinto falta de saber mais, de ter mais acesso à informação, de conhecer mais gente. Por outro lado, não quero me isolar dos amigos nem ficar sem assunto com eles – e com o mundo.
Que dúvida. Pela primeira vez, reflito sobre algo de que, numa era em que se debate tudo, pouco se fala: o nosso direito de ser indiferente.

" A insustentável leveza do ser : o estranho que me ajudou a me entender " < Carol Abdelmassih* >

 

a insustentavel leveza de ser.jpg
"Somos um e somos tantos, que diversas
vezes nos perdemos..."
O nome sempre me soou bonito de pronunciar, me evocava um farfalhar na alma que eu ainda não conseguia identificar o motivo. O livro chegou em minhas mãos através de uma grande amiga, e começamos a ler o mesmo exemplar em um fim de semana chuvoso: eu lia um pouco, e ela lia outro pouco, e assim íamos marcando as páginas do livro.

Sempre tive um apreço especial por frases de impacto, aquelas meio auto-ajuda, que como um soco no estomago, nocauteiam e conseguem alcançar em cheio seu ponto fraco. A Insustentável Leveza do Ser é isso para mim: a cada página, uma exposição de um fragmento da minha alma em uma prosa fácil, simples e bela ao mesmo tempo.

O Amor. O amor e toda a bagagem (positiva e negativa que ele traz) é o ponto crucial da história. O enredo é simples: quatro personagens, dois homens e duas mulheres, que em determinados pontos da trama se cruzam. Um triângulo amoroso, muitas traições e um amor perdido. Um prato cheio para uma história tipicamente “novela mexicana”, com muito drama, brigas e discussões; não é o caso dessa história. A trama amorosa é um plano de fundo para uma reflexão muito mais elaborada, muito mais existencial. É através do amor e seus desdobramentos que Milan Kundera busca penetrar no cerne das mais belas e pontuais questões da existência humana: “Quem sou eu?” “De que formas sou responsável por tudo que vivi?” “Sou capaz de trair a minha própria natureza, ir contra meus instintos?”.

Tomas é um médico tipicamente mulherengo, que após um divórcio agressivo, passa a se envolver apenas em relações superficiais e fugazes. Até que conhece Tereza, uma garçonete que por impulso vem a seu encontro em Praga após um breve contato. Nesse instante começa a principal história de amor do livro. Tereza sofre loucamente com as traições de Tomas, que por sua vez sofre por ver Tereza sofrer, mas não é capaz de parar com os encontros amorosos extraconjugais. Uma das personagens desses encontros amorosos é Sabina, uma artista ‘’libertina’’, que não se prende a valores morais e não vê problema algum em ter Tomas como amante. O quarto elemento da história é Franz, que em determinado ponto do enredo começa um caso com Sabina, que não tem mais nenhum tipo de ligação com Tomas.

Se pudéssemos simplificar a história, eu diria que Kundera buscou jogar com a dualidade da natureza feminina: o amor, a fragilidade, a “Madonna” é personificada em Tereza, enquanto a porção sexual, vibrante, ameaçadora, a “Medusa” é encarnada pelo personagem de Sabina.

Tomas é uma reflexão sobre como não podemos enganar e ir contra nossa própria natureza. O sexo é parte intrínseca do ser, necessidade básica e indiscutível. Tomas não consegue lidar com seus impulsos de necessidade, o que o faz sofrer, pois vê Tereza, objeto de seu AMOR definhar por conta disso.
Franz é a representação do amor masculino, do amor sonhador. Por mais que Sabina lhe tenha feito sofrer, é a ela que Franz dedica todos os passos de seu caminho. É um sonhador, idealizador e persistente. Repousa na persona de Franz o dom da esperança.

Ao longo de toda a história o autor lida com a questão das escolhas feitas, e como sempre saberemos apenas o resultado de UMA combinação de escolhas sucessórias. “Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Poder viver apenas uma vida é como não viver nunca.” Nossa vida nada mais é do que o resultado de acasos e escolhas que asfaltam nossa estrada, de forma orgânica e aleatória, fazendo nosso caminho se cruzar com outros incontáveis caminhos.

A Insustentável Leveza do Ser nada mais é do que o alcance da plena liberdade. Não ter com que se preocupar, não ter a quem dar satisfações, não ter nada que lhe prenda em lugar algum. Vemos então que o PESO, conceito considerado negativo a priori, é mais do que necessário, é indispensável para dar sentido à vida. Nossa história, nosso caminho, nossas relações são o fardo que carregamos, o nosso peso; sem história, sozinhos, nada somos. Somos tão leves e livres como uma pluma a planar nos céus. A natureza humana necessita de peso para estar consciente de sua própria existência.

E por que tudo isso me tocou de tal forma? Pois bem...li e reli o livro 3 vezes. Todos os dias abro em páginas aleatórias e leio trechos esparsos. Cada dia me emociono mais. Esse livro me fez perceber que carregamos dentro de nós cada um desses personagens: Sabina, Tomas, Tereza e Franz me compõem, cada um com um peso e medida, cada um à sua maneira. Somos um e somos tantos, que diversas vezes nos perdemos, e cada vez que releio o livro, reencontro um pedaço de mim.

"E, de novo, veio-lhe à cabeça uma idéia que já conhecemos: A vida humana só acontece uma vez e não poderemos jamais verificar qual seria a boa ou má decisão, porque, em todas as situações, só podemos decidir uma vez. Não nos é dada uma segunda, uma terceira, uma quarta vida para que possamos comparar decisões diferentes.(...)”
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* Estilista.
foto: Thatiana Passi
Fonte: http://lounge.obviousmag.org/pluralismos/2013/10/

" Chega de shopping " << Raquel Rolnik * >>


                          
No ano passado, a inauguração do shopping JK Iguatemi, na Vila Olímpia, foi vetada pela Justiça porque as obras viárias exigidas pela prefeitura quando da aprovação do projeto não tinham sido concluídas.
< isso é Brasil >

                       < costanera shopping santiago Chile >
 
Recentemente, uma decisão judicial determinou que um shopping que está sendo construído na avenida Paulista, com inauguração prevista para o segundo semestre de 2014, não poderá funcionar sem que sejam realizadas obras para mitigar seus impactos na região.
 
Há pouco tempo, também, a imprensa noticiou o início das obras de um megaempreendimento na zona sul, que inclui torres residenciais e comerciais, hotel e… mais um shopping.
 

Para além da guerra jurídico-administrativa em torno dessa questão, a pergunta que não quer calar é: São Paulo quer e precisa de mais shoppings?

A cidade tem, de acordo com a prefeitura, 44 shoppings. Eles podem ser construídos em qualquer região que permita uso comercial.

Mas hoje, como são considerados “polos geradores de tráfego”, a aprovação dos projetos requer uma avaliação específica por parte da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), que pode exigir contrapartidas para mitigar impactos no trânsito, como a construção de passarelas, o alargamento de vias etc.

Mas quem vive próximo ou precisa passar diariamente por algum desses empreendimentos, mesmo com suas obras mitigadoras, comprova a tese de que nesses locais o trânsito e a mobilidade… pioram! Quem se lembra dos dias felizes da avenida Pompeia antes da ampliação do shopping Bourbon?

Com raras exceções, a lógica dos shoppings é a do modelo de mobilidade por automóvel: chegar de carro, deixá-lo em um estacionamento e usufruir de um espaço que concentra opções de compras, serviços, gastronomia e atividades culturais.

A não cidade, fingindo ser cidade, segregada: com raríssimas exceções, os shoppings simplesmente destroem a continuidade do tecido urbano, descaracterizando e matando as ruas ao redor.

Em princípio, a legislação urbana reconhece e acolhe esse modelo, e apenas exige a ampliação do espaço de circulação dos automóveis.

Mas, se São Paulo quer hoje migrar para um novo modelo de mobilidade, baseado no transporte coletivo e em modos não motorizados–pés e bicicletas–, podemos continuar construindo shoppings?
Em Manhattan, Nova York, região de alta densidade residencial e comercial, os shoppings são simplesmente proibidos. No zoneamento da cidade, em áreas mistas –de comércio e residências– que correspondem à maior parte das áreas da ilha, as zonas comerciais estão demarcadas para ocuparem apenas a primeira faixa das quadras, com profundidade máxima que varia entre 30 e 60 metros. Ainda assim, não podem ocupar toda a frente das quadras.

A implicação dessa limitação não é somente urbanística. Restringindo o tamanho máximo de espaço comercial em boa parte da cidade, Nova York protege os pequenos comerciantes e controla o quanto o comércio pode tomar conta de áreas residenciais.

Estamos em plena revisão do plano diretor e zoneamento da cidade de São Paulo, momento mais que propício para rediscutirmos o modelo de cidade que queremos.

Em nome das ruas, da multiplicidade de pequenos comércios, da cidade que quer se mover a pé, de bicicleta e por transporte coletivo, chega de shopping!
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* Raquel Rolnik é urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada.
** Publicado originalmente no site da Folha de S. Paulo e retirado do site Mercado Ético.

" A insistente presença de Caim " < Mauro Santayanna * >>


Cada vez que um mendigo é espancado ou incendiado, um imigrante é maltratado e vilipendiado, alguém que defende a liberdade e a justiça é assassinado.

Depois de impasse que durou vários dias, finalmente chegou-se, ontem, a um acordo sobre o destino a ser dado ao corpo de Erich Priebke - criminoso nazista responsável, em março de 1944, pela morte de 328 civis italianos, no massacre das Fossas Ardeatinas - que apodrecia, insepulto, dentro de um caixão fechado, no hangar de um aeroporto militar italiano.

Seu cadáver será levado para lugar ignorado, e enterrado em segredo, para que o local de sua sepultura não venha a ser venerado por simpatizantes neonazistas.

Priebke é mais um de um numeroso bando de assassinos, que mataram centenas de milhares de civis por toda Europa. De pequenas cidades como Oradour, na França, ou Lidice, na Tchecoeslováquia, a guetos como o de Vilna ou Varsóvia. Em campos da morte como Maydanek, Treblinka, Dachau, Birkenau, Sobibor, ou nos einzatsgruppen, unidades que percorriam o interior da Polônia e da União Soviética, especializadas no extermínio da população civil, que, por uma questão de logística, não podia ser enviada para os campos de concentração.

Ao amanhecer do dia, esses soldados – que não tinham coragem de combater homens armados - retiravam mulheres e crianças, velhos, judeus, ciganos e comunistas de suas casas, e os levavam para a floresta, onde eram obrigados a cavar fossas, e depois a se deitar sobre os que haviam descido antes, para morrer crivados de balas.

A maldição de Priebke – ninguém quis reclamar o seu cadáver - é a mesma de Caim, aquele que matou o irmão por ciúmes, e foi condenado a vagar pelo mundo.
A marca de Caim é a da morte.

Primeiro a derramar sangue de outro homem, Caim transformou-se em patrono de todos os assassinos que se seguiram, que, como ele, mataram pelos mesmos motivos. O desprezo ao outro, o ciúme de querer ser o escolhido – os nazistas se acreditavam eleitos para governar a terra - no lugar do mais fraco, do mais humano, do que é diferente.

No dia 17 de setembro, um músico antifascista grego, Pavlos Fissas, de 34 anos, foi esfaqueado e morto em Atenas, por membros do partido de extrema direita Aurora Dourada. Pressionada por “nacionalistas”, a polícia russa prendeu – sem acusações - 1.200 imigrantes, em Moscou, no dia 14 de outubro.

Na França, uma menina cigana, de 15 anos de idade, foi sumariamente retirada de um ônibus no qual excursionava com seus amigos de escola, e expulsa, imediatamente, do país, junto com sua família.

Na Noruega, o Partido do Progresso, xenófobo e de direita, chegou ao poder.
Poucos dias antes, na Itália, centenas de imigrantes e refugiados morreram afogados no Mediterrâneo, tentando atingir o território europeu.

E há dez dias, um grupo de neonazistas esfaqueou um jovem de 26 anos em uma praça do centro de Porto Alegre, depois de agressões racistas.

Cada vez que um mendigo é espancado ou incendiado, um imigrante é maltratado e vilipendiado, alguém que defende a liberdade e a justiça é assassinado, Abel morre de novo, diante de nós.

A maldição de Caim continua viva. É preciso aprender a reconhecer seus seguidores. E combater o ódio, a violência e a intolerância, se não quisermos deixar de acreditar em um mundo melhor.
 
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* Jornalista.
Fonte: Carta Maior on line, 20/10/2013

terça-feira, 22 de outubro de 2013

" A tranquilidade das ovelhas " << Rubem Alves * >>


— Mestre Benjamin, há um jeito de não ter medo? Medo é tão ruim...
Mestre Benjamin respondeu:

— Há sim... E ficou quieto. Veio então a outra pergunta:

— E qual é esse jeito?

— É muito fácil. É só pensar como as ovelhas pensam...

— Mas como é que vou saber o que as ovelhas estão pensando?
Mestre Benjamin respondeu:

— Quando, durante a noite as ovelhas estão deitadas na pastagem, os lobos estão à espreita. E eles uivam. As ovelhas têm medo. Mas aí, misturado ao uivo dos lobos, elas ouvem a música mansa de uma flauta. É o pastor que cuida delas e não dorme nunca. Ouvindo a música da flauta elas pensam: “Há um pastor que me protege. Ele me leva aos lugares de grama verde e sabe onde estão as fontes de águas límpidas. Uma brisa fresca refresca a minha alma.Durante o dia ele me pega no colo e me conduz por trilhas amenas. Mesmo quando tenho de passar pelo vale escuro como a morte eu não tenho medo. A sua mão e o seu cajado me tranquilizam. Enquanto os lobos uivam, ele me dá o que comer. Passa óleo perfumado na minha cabeça para curar minhas feridas e me dá água fresca para sarar o meu cansaço. Com ele não terei medo, eternamente...” (Salmo 23, paráfrase).

Mestre Benjamin parou de falar. Os olhos de todas as crianças estavam nele. Foi então que uma delas levantou a mão e perguntou:

— E os lobos? Eles vão embora? Eles morrem?

— Os lobos continuam a uivar. E continuam a ser perigosos. O pastor não consegue espantar todos eles. E por vezes eles atacam e matam. Mas as ovelhas, ouvindo a música da flauta do pastor dormem sem medo, não porque não haja mais perigo mas a despeito do perigo. Não há jeito de acabar com o perigo. Mas há um jeito de acabar com o medo. Coragem é isso: dormir sem medo a despeito do perigo...

As crianças voltaram para suas tendas e dormiram sem medo pensando os pensamentos das ovelhas... De vez em quando, lá fora, ouvia-se o uivo de um lobo faminto. Desde então ficou costume contar ovelhinhas para dormir.
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* Teólogo. Escritor. Educador.
Fonte: Correio Popular on line, 22/10/2013

" Basta uma Pitangueira " << Fabrício Carpinejar >>


Poeta não é aquele que escreve livros, mas o que lê as pessoas. Tinha 13 anos. Estava na varanda com a minha mãe. Naquela época, estudava de tarde.

Tomávamos chimarrão tranquilamente. Em casa, o chimarrão sempre prevaleceu sobre o café. O café é para acordar, o chimarrão é para sonhar.

Conversa sobe ladeira, conversa desce ladeira e, de repente, um grupo de operários da prefeitura desceu do caminhão na frente de nossa residência na Rua Lajeado.

Eles iriam consertar um vazamento no bairro.

Mas foi só atracar em terra firme que eles se distraíram por um instante do serviço prometido.

Enxergaram nossa pitangueira carregada.

Largaram as ferramentas destinadas a arrumar os encanamentos, e subiram nos galhos.

Um bando de marmanjos pescando frutas, baixando as folhas, disputando quem pegava a melhor, a maior, a mais carnuda.

Riam alto, gesticulavam freneticamente, num alvoroço puro e crédulo, próprio da amizade infantil. Um puxava o outro para trapacear e se exibir com seu punhado de joias rubras.

Eram crianças de novo, disfarçadas de macacão cor laranja.

Um pé de pitanga tem esse privilégio: recuar o tempo.

Eu festejava aquela doideira, aquele desatino, aquele recreio fora de idade, mas minha mãe embrabeceu com a bagunça. Saiu ralhando:

– Ei, ei, o que estão fazendo?

Baixei o rosto de vergonha. A felicidade deles não deveria incomodá-la. Antecipei o vexame, o fiasco, a reprimenda adulta.

Não poderiam se divertir trabalhando? Não poderiam ter um minuto de paraíso no inferno das picaretas?

O bando silenciou no ato, temendo a represália daquela senhora tão senhora de si.

A mãe endureceu a voz e explicou:

– As pitangueiras da rua são para os pássaros.

Eles recolheram as mãos, colocaram as pitangas no bolso e já se dispersavam.

Foi quando a mãe completou:

– Mas, se vocês se sentem pássaros, aproveitem!

Não esquecerei nunca daqueles homenzarrões gargalhando e voltando a depenar a pitangueira.

Com a alegria das asas que só existe no nosso sorriso.

Um pé de pitanga tem esse privilégio: recuar o tempo.
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* Poeta. Escritor.
Fonte: ZH on line, 22/10/2013

" O que leva um homem comum ao terrorismo ? " << Katrin Bennhold >>


 
LONDRES - Em sua confortável sala de estar em Londres, Sean O'Callaghan assistia pela televisão às imagens de pessoas aterrorizadas fugindo de militantes em um sofisticado shopping center do Quênia. Alguns dos que estavam lá foram questionados sobre a sua religião. Os muçulmanos foram poupados. Os não muçulmanos, executados.

"Meu Deus, esse é um bando de jihadistas violentos", disse um amigo, também irlandês, balançando a cabeça. "Nós costumávamos fazer a mesma coisa", replicou O'Callaghan.

Foi assim no massacre de Kingsmill, em 1976. Pistoleiros católicos pararam uma van com 12 trabalhadores no condado de Armagh, na Irlanda do Norte, libertaram o único católico do grupo, enfileiraram os 11 protestantes e os alvejaram um a um.

O'Callaghan, ex-membro paramilitar do Exército Republicano Irlandês (IRA), conhece de perto esse tipo de assassinato a sangue-frio. Num ensolarado dia de agosto de 1974, ele entrou em um bar de Omagh, na Irlanda do Norte, e baleou um homem que estava apoiado no balcão lendo o noticiário de turfe -homem este que, segundo lhe haviam dito, era um notório traidor da causa católica irlandesa.

Paralelos históricos são inevitavelmente falhos. Mas uma recente onda de carnificinas -o ataque em Nairóbi que deixou vários mortos, a execução de prisioneiros vendados por jihadistas sírios e os disparos feitos por um soldado egípcio contra a filha adolescente de um líder da Irmandade Muçulmana- gera uma questão: todos nós carregamos o ódio dentro de nós?

Muitos especialistas acreditam que sim. Para O'Callaghan, foi uma questão de foco. "O que você está vendo naquele momento não é um ser humano".

Superar a arraigada proscrição do assassinato não é fácil. Em seu livro "Ordinary Men" [Homens comuns], Christopher Browning descreve como um batalhão policial alemão formado por pais de família -de empresários a encanadores- teve dificuldades para executar milhares de judeus na Polônia. Como eles erravam disparos à queima-roupa. Como eles vomitavam e choravam depois de massacrar mães e crianças. Como eles precisavam se empenhar para se tornarem assassinos.

Uma cultura de autoridade e obediência, em que a responsabilidade moral individual é suplantada pela lealdade a uma missão maior, contribui para atenuar as inibições morais contra o homicídio, segundo psicólogos sociais. O mesmo se aplica à rotinização da violência, das injustiças e das dificuldades econômicas que levam o assassino a se enxergar como sendo a verdadeira vítima.

Mas o ingrediente mais importante talvez seja a desumanização da vítima, disse David Livingstone Smith, professor da Universidade da Nova Inglaterra, no Maine, e autor de "Less Than Human: Why We Demean, Enslave, and Exterminate Others" [Menos que humano: por que menosprezamos, escravizamos e exterminamos os outros].

"Pensar nos inimigos como categorias sub-humanas é uma forma de criar uma distância mental e de excluí-los da família humana. Isso torna o homicídio não só permissivo, mas obrigatório. Devemos matar vermes ou predadores."

Os hutus de Ruanda chamavam os tutsis de baratas, os nazistas retratavam os judeus como ratos. Os invasores japoneses se referiam a suas vítimas chinesas, durante o massacre de Nanjing, como "chancorro", ou "sub-humanos". Soldados americanos lutavam contra "hunos" bárbaros na 1a Guerra Mundial e contra "gooks" (termo pejorativo para descrever asiáticos) sem deus no Vietnã.

Na Irlanda do Norte, "taig" era um xingamento popular contra os católicos. Depois do início dos distúrbios da Irlanda do Norte, em 1968, imagens de católicos sendo expulsos de suas casas em Belfast por bombas invadiram o noticiário, criando um exército de jovens católicos indignados. Os protestantes também viraram "hunos".

Esses rótulos ajudam, disse John Horgan, diretor do Centro de Estudos do Terrorismo e da Segurança da Universidade de Massachusetts e autor de "Walking Away From Terrorism" [Afastando-se do terrorismo], livro que narra experiências de ex-militantes. No entanto, disse ele, "eles lutam contra a sua consciência". Não é coincidência, afirmou, que execuções feitas por terroristas geralmente envolvam o ato de encapuzar as vítimas. "Olhar na cara quando você mata alguém é uma coisa muito difícil de fazer."

O'Callaghan nunca ousou encarar o homem que ele matou naquele dia de 1974. Quando fecha os olhos, tudo que lhe vem é uma foto granulada do jornal do dia seguinte. Ele havia entrado para o IRA aos 15 anos. Espumando de raiva com a injustiça que via nos refugiados de Belfast que chegavam ao seu condado na República da Irlanda, ele se tornou um instrutor de explosivos e armas de fogo em campos próximos da sua casa.

Os mais velhos ensinavam aos mais jovens sobre a rebelião de 1916, fato elevado a um status quase místico por ter caído na segunda-feira posterior à Páscoa. Ele se encantou com a emotiva mistura de catolicismo e nacionalismo que movia os republicanos irlandeses.

Uma passagem de seis meses pela cadeia, depois de ele ser apanhado com explosivos, só aumentou sua fúria. Em maio de 1974, ele foi mandado para a Irlanda do Norte e participou de roubos e atentados a bomba. Certa noite, recebeu um telefonema de Harry White, galês que trabalhava para o IRA, com a dica de que Peter Flanagan, lendário no IRA como um católico vira-casaca e "chefe de torturas" da Polícia Real do Ulster, costumava almoçar no bar Broderick.

O'Callaghan tinha 19 anos. Ele localizou sua presa e direcionou seus olhos e sua arma para um torso sem rosto, de camisa azul. O jornal caiu. O torso se seguiu, rolando da banqueta do bar em câmera lenta. Uma voz implorou: "Não". Ele se lembrou do que sua avó havia lhe dito quando ele tinha apenas nove anos: "Quando você balear um policial britânico, o desenterre e atire de novo, porque não dá nunca para confiar neles".

Ele atirou oito vezes. Levou talvez de 10 a 15 segundos.

Anos depois, ele soube que Peter Flanagan não era o mostro em que o IRA o havia transformado. Flanagan estava desarmado, havia testemunhado contra policiais britânicos na Corte Europeia de Direitos Humanos, em Estrasburgo, e provavelmente nunca havia torturado uma só alma.

O'Callaghan acabou por se tornar informante da polícia irlandesa e posteriormente se entregou, confessando 42 crimes, inclusive a morte de Flanagan. Foi sentenciado a 539 anos de prisão. Após oito anos, foi perdoado e, em 1996, ganhou a liberdade. Rejeitou uma oferta de proteção a testemunhas.

Ele havia matado muitas vezes, emboscando sombras na escuridão de quartéis militares e disparando morteiros, mas nunca desse jeito, tão de perto. O torso ainda continua lhe vindo à mente, em sonhos e às vezes no meio do dia.

Mas o que mais o assombra foi um comentário que sua motorista, uma mulher chamada Lulu, fez naquele dia. A caminho do bar, ela havia ficado tão nervosa que entrou numa rua pela contramão, e eles se perderam. Mais tarde, depois de eles fugirem, desovarem o carro roubado e chegarem a uma casa segura, Lulu finalmente recuperou o fôlego. "Lamento pela mãe dele", disse ela.
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Fonte: 22/10/2013 - http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/135018

" Literatura como cura " << Luiz Felipe Pondé *



O silêncio, às vezes, é um dos maiores indicativos de maturidade de uma civilização

Hoje quero falar de dois sintomas que marcam nossa época. O primeiro sintoma é a falação ruidosa de nosso mundo; o segundo é a ideia de que o mundo sofre porque não nos amamos e que tudo se resolveria se nos abraçássemos e parássemos de sermos gananciosos.

Fala-se demais hoje. Todos têm opinião. Até jovens de 20 anos são chamados a dar opinião sobre o mundo e a sociedade, quando mal sabem arrumar o quarto.
 E quando se elegem crianças de 25 anos como arautos da sociedade (adulto que faz isso, o faz, normalmente, para ter discípulos fiéis e fanáticos, ou porque é bobo mesmo), o resultado é que acaba se pensando que o mundo começou, como diz um amigo meu muito esquisito, em "Woodstock".

Quando se pensa isso, acaba-se imaginando que o problema do mundo é mesmo aprendermos que "all you need is love"... Infelizmente, a humanidade é mais complicada do que pensa nossa vã inteligência woodstockiana. Contra essa visão infantil da realidade (este é o segundo sintoma do qual falei acima), proponho a leitura da obra do grande crítico norte-americano Edmund Wilson. Vou a ele já; antes, quero voltar ao problema do ruído mais especificamente (o primeiro sintoma do qual falei acima).

Somos um grande mundo ridículo e falastrão. Decorrente dessa falação, um ruído infernal toma conta do dia a dia. O silêncio, às vezes, é um dos maiores indicativos de maturidade, não só de uma pessoa, mas de uma civilização.

Estou falando isso por conta de um breve ensaio que caiu na minha mão esses dias, parte integrante do volume "Best American Essays 2013", editado por Cheryl Strayed.

O ensaio ao qual me refiro foi escrito pela prêmio Nobel Alice Munro e chama-se "Night".
Nele, a autora conta a operação que fez quando criança para tirar o apêndice e uma "coisa do tamanho de um ovo de peru". Munro compara o comportamento atual diante de casos como o dela e o comportamento de seus pais na época.
 A conclusão é que hoje se falaria como o diabo do risco que ela corria na época.
Mas, ao contrário, pouco se falou do assunto, "respeitando o medo" sem falação. Conta Munro que, nessa época, ela dormia num beliche com sua irmã mais nova (moravam numa espécie de granja), e que numa noite olhou para a irmã e pensou em sufocá-la.

A partir daí, não conseguia mais dormir, pensando no ímpeto que tivera de matar sua irmã. Numa das manhãs seguintes a suas noites de insônia, encontrou com seu pai, todo vestido chique, saindo de casa de manhã muito cedo. Contou para ele o que pensara e o horror que sentira.

Seu pai simplesmente lhe disse que esquecesse aquilo e que essas coisas passam. Depois, adulta, lembra como o modo simples de falar do pai a acalmou profundamente. A pequena Alice nunca mais teve insônia.

Na sequência, a prêmio Nobel comenta que nunca perguntara ao pai para onde ele ia tão cedo e tão elegante. Perguntou-se se ele ia ao banco renegociar a dívida da família ou ver a mulher que amava, mas com quem não podia ficar porque amava sua família... Silêncio. Nem uma linha de rancor. Hoje, escreveriam uma tese sobre como seu pai poderia ter sido um homem desatento ou, quem sabe, infiel. Ao lembrar do seu pai no momento do reconhecimento em que recebera o prêmio, Munro pensa em como ele teria ficado orgulhoso de sua pequena filha insone.

Nessas horas, tenho saudade do passado e lamento como nos transformamos em adolescentes barulhentos que se levam demasiadamente a sério.

O segundo autor que quero comentar é Edmund Wilson, um dos últimos críticos literários, segundo Paulo Francis, a enfrentar a literatura sem se esconder atrás de grandes teorias abstratas (que se querem "concretas").

No volume editado por Francis pela Companhia das Letras em 1991, "Onze Ensaio - Literatura, Política, História", esgotado, aparece sua "visão de mundo": a história é um longo processo através do qual as civilizações se devoram, criando e destruindo, em círculos, indo para lugar nenhum. Concordo.

Pura coragem intelectual, que tanto faz falta hoje, nesta época de líderes adolescentes que creem em Woodstock como modelo de sociedade.
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* Filósofo. Prof. universitário. Escritor.
Fonte: folha on line, 22/10/2013