quarta-feira, 28 de novembro de 2012

" A Fé como escola do olhar "

 



"Susan Sontag, autora norte-americana já desaparecida, levantava-se contra a interpretação. O mundo, dizia, encheu-se de comentários. Vivemos de coisas em segunda mão e cada vez estamos mais distantes da fonte.

Uma fé vivida aqui e agora não se deixa capturar pelo comentário mas antes de tudo ajuda-nos a ser. A fé tem de ser uma escola do olhar, do odor, do sabor, do sentir, da escuta. A espiritualidade não se separa dos sentidos, que são portas interiores para o encontro profundo com Deus.

Precisamos de uma mística do quotidiano. Deus não vem ao nosso encontro numa praça que nunca visitámos nem bate a uma porta onde não estamos."

(Parte da conferência "A importância do agora:
os desafios de um cristianismo sapiencial",
proferida pelo padre José Tolentino Mendonça,
diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura,
no âmbito do ciclo "Viver a Fé aqui e agora",
organizado pelas Monjas Dominicanas do Lumiar (Lisboa). )
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Fonte: http://www.snpcultura.org/a_importancia_do_agora_desafios_cristianismo_sapiencial_2.html

""Humanos estão cada vez menos inteligentes ""

 



“Nós já fomos mais inteligentes.” Essa frase pode ser atribuída a um famoso jornalista brasileiro, mas agora também está sendo dita por um geneticista chamado Gerald R. Crabtree, que publicou o estudo “Nosso frágil intelecto”. Para o cientista, há uma série de evidências que mostram que a raça humana passou por mutações genéticas que resultaram na perda de capacidade intelectual ao longo dos milênios. O grande foco da análise de Crabtree (que é pesquisador de Stanford, uma das universidades mais respeitadas dos Estados Unidos) está nos genes humanos. Ele diz que o cérebro humano precisa de milhares de genes para ser formado e simples alterações em um deles pode causar grandes problemas para a absorção de conhecimento. Ele também diz que isso pode ter acontecido pelo menos duas vezes nos últimos milênios.
Apesar de Crabtree ser um pesquisador de uma grande universidade norte-americana, a comunidade científica não parece ter recebido os estudos dele com bons olhos. Não por falhas em números ou inconsistências em argumentos, mas sim pela similaridade da teoria de Crabtree com outras teorias que ficaram muito famosas no começo do século XX: as teorias eugênicas.

A eugenia é base de boa parte das argumentações de quem defende a pureza racial. Crabtree acaba reacendendo discussões parecidas com aquelas, pois os primeiros teóricos da eugenia diziam que a mistura de raças poderia deixar os humanos menos inteligentes. Mesmo com todas as críticas, Gerald Crabtree disse à revista PopSci que seus trabalhos nada tem a ver com a eugenia.
Ele disse também que o melhoramento genético poderá resolver todos os problemas no futuro, isso se eles se tornarem um problema. Vale dizer que Crabtree não disse que estamos “mais burros”, mas sim que atualmente temos “menor capacidade intelectual”, porém com mais conhecimento.
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Fonte: http://www.criacionismo.com.br/2012/11/

"" Pulsantes "" de Martha Medeiros

 


Assisti à peça Vermelho, encenada pelo extraordinário Antonio Fagundes e por seu filho Bruno, que conta uma parte da vida do pintor Mark Rothko, expoente do expressionismo abstrato nos anos 50 e 60. O texto é tão bom, que saí do teatro com a cabeça fervendo. Vontade de escrever sobre o dilema entre o que é artístico e o que é comercial, sobre as diferentes maneiras de vermos a mesma coisa, sobre a função da arte abstrata (que nunca me comoveu, mas à qual a partir da peça passei a dar outro valor) e sobre a desproteção das obras quando expostas (Mark Rothko era hiperexigente quanto à luz das galerias, assim como quanto à distância que o visitante deveria ficar da tela, e por quanto tempo esse visitante deveria observá-la até ser atingido emocionalmente... enfim, um chato, esse Rothko, mas fascinava).

No entanto, como não sou conhecedora de pintura, resolvi destacar aqui um outro aspecto da montagem, que diz respeito não só a artistas plásticos, mas a todos os que lidam com criação. Pensando bem, até com os que não lidam.

Muitos entre nós ainda acreditam que trabalho e prazer são duas coisas distintas que não se misturam. O dia, em tese, é dividido em três terços: oito horas trabalhando, oito horas aproveitando a vida (até parece: e as filas? e o trânsito?) e oito horas dormindo. Cada coisa no seu devido lugar. Apenas os artistas teriam a liberdade de subverter essa ordem.

Pois o mundo mudou. O trabalho está deixando de ser aquela atividade burocrática e rígida cuja finalidade era ganhar dinheiro e nada mais. Queremos extrair prazer do nosso ofício, seja ele técnico, artístico, formal, informal. O conceito de estabilidade perdeu força, as hierarquias já não impressionam. A meta, hoje, é aproveitar as novas tecnologias e as oportunidades que elas oferecem. Atuar de forma mais flexível, autônoma e motivada. Trocar o “chegar lá” pelo “ser feliz agora”. Ou seja, amar o trabalho do mesmo jeito que se ama ir ao cinema, pegar uma praia e sair com os amigos.

Rothko respirava trabalho, e considerava que estava igualmente trabalhando quando lia Dostoievski, quando filosofava, quando caminhava pelas ruas, quando amava, quando dormia, quando conversava. Defendia a vida como matéria-prima da inspiração, sem regrar-se pelo horário comercial. Não se dava folga – ou folgava o tempo inteiro, depende do ponto de vista. Quando não estava pintando, estava alimentando sua sensibilidade, sem a qual nenhuma pintura existiria. Nos anos 50, só mesmo um artista poderia viver essa fusão na prática. Depois que cruzamos o ano 2000, porém, é uma tendência que só cresce, em todas as áreas profissionais, nas que existem e, principalmente, nas que estão sendo inventadas.

Como pintor, Mark Rothko valeu-se de uma vasta cartela de cores, mas expressou-se magistralmente em vermelho – na verdade, ele viveu em vermelho. Paixão, sangue, vinho, pimenta, calor, sedução. Ele sabia que essa era a cor que pulsava. E segue moderno, pois, como ele, são os pulsantes que estão fazendo a diferença.

"" A Anatomia da Fraude "" - Editoriais ZH





A organização criminosa desmontada pela Polícia Federal, composta por pessoas consideradas inatingíveis pelo fato de terem as “costas quentes” por terem sido indicadas por poderosos, é cruelmente ilustrativa de como a máquina pública se presta em muitos casos mais para atender aos interesses de grupos do que aos do conjunto da sociedade. A própria figura-chave do esquema montado para a prática de tráfico de influência e corrupção é uma síntese do que ocorre quando o critério de preenchimento de postos-chaves é o mero apadrinhamento.

Rosemary Nóvoa de Noronha, a Rose, foi levada ao poder pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que a preservou no governo Dilma Rousseff. Blindada na condição de chefe de gabinete da Presidência em São Paulo, tinha marido e filha bem instalados na esfera pública. Mais: transformou as agências de regulação numa fonte de enriquecimento com base na venda de pareceres. Enquanto a tolerância com esse tipo de comportamento for mantida, o setor público continuará nas mãos de especialistas em lesar o setor público.

Um aspecto particularmente inaceitável dos fatos desvendados agora é que os danos desse tipo de deformação não podem ser atribuídos apenas a más escolhas, embora, em sua maioria, os episódios mais recentes de corrupção acabem envolvendo os chamados braços direitos de figuras poderosas.

Um dos principais envolvidos no esquema de venda de facilidades instalado em órgãos federais, Paulo Rodrigues Vieira, só assumiu a direção da Agência Nacional de Águas (ANA) porque o Senado resistiu em aprovar sua indicação, mas acabou cedendo na terceira tentativa. Instituições como essa, inicialmente previstas para atuar com independência na regulação dos serviços concedidos, acabaram se transformando com o tempo em meras autarquias de ministérios.

Em conse- quência, ficaram sujeitas a pressões político-partidárias no jogo do vale-tudo entre companheiros de partido e na busca de apoio do Congresso a projetos de interesse do governo.

Como se não bastassem todas essas deformações na configuração da máquina pública, na maioria dos casos pessoas guindadas a postos-chaves pela mão de políticos influentes são encaradas como quem pode tudo. O país precisa dar um basta à tolerância excessiva com a atuação de apadrinhados que entram pela janela para transformar o setor público em balcão de negócios, como demonstrou a chamada Operação Porto Seguro.

Ao lançar luz sobre a anatomia da fraude, a Polícia Federal oferece ao país mais que uma oportunidade de punição dos fraudadores. Contribui também para o desenvolvimento de antídotos de transparência que efetivamente façam efeito contra a corrupção.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

" A Fé numa sociedade sem referências "

 


As Jornadas de Teologia, em Viseu, debateram «A Fé numa sociedade sem referências». Na sua opinião, que referências se foram perdendo nesta sociedade contemporânea?
IL - As referências relacionam-se com o acreditar na transcendência. O homem tornou-se ídolo de si próprio, deixou de viver a sua vida em relação. E quando perde a alteridade, a referência ao outro, e este Outro, com letra grande que é Deus, o homem procura-se a si próprio e ilusoriamente constrói a sua vida pensando que, realizando-se a si próprio, realiza o ideal de si mesmo e um ideal que é portador de felicidade.
Hoje a falta de referências centra-se na solidão do homem. Olha-se e vê-se um vazio, um anular de convicções.
Hoje a falta de convicções e a falta de referências assenta na falta de relações com os outros, em pé de igualdade e com Deus. Esta relação, origem e fonte de toda a comunhão, seria consequência de uma vida fraterna, da dignidade humana e de uma sociedade com valores em vista ao bem comum.
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Entrevista do D. Ilídio Leandro, bispo diocesano, fala à ECCLESIA dos desafios que se colocam à Igreja viseense (Portugal), em plena caminhada sinodal, perante os sinais de afastamento da prática religiosa, por parte dos católicos, e face a uma situação económica e social que coloca cada vez mais problemas.

" Sobre a velhice "

 



Antonio Ozaí da Silva*
“…carrego dentro de mim o que me mata. Falta-me tempo para as frivolidades, tenho nas mãos uma imensa tarefa. Como a realizarei? Vejo que a morte se apressa e a vida foge. Diante dessas duas pressões, ensina-me algum expediente! Faze com que eu não fuja da morte e que a vida não me escape. Exorta-me com relação ao que é difícil; dá-me longevidade contra aquilo que é inevitável. Vem alargar meu tempo, que é tão curto. Ensina-me que a boa vida não se mede pela duração mas como a empregamos. Acontece muitas vezes que uma longa vida não é realmente vivida”. (Sêneca)
 
 
O jovem almeja viver muito, mas dificilmente se imagina idoso. A juventude parece-lhe eterna e raramente verá no velho diante de si o espelho que reflete a sua imagem futura – isto se tiver a sorte, ou azar, de viver muito, pois a ninguém é garantido atingir a velhice. Os jovens, em geral, sentem-se imortais, a morte parecem-lhes mais apropriada aos que chegaram à terceira idade – recusam-se a pensar na morte e nisto são acompanhados por muitos idosos iludidos com a seqüência do passar dos dias. Alguns até desdenham dos mais velhos – talvez, inconscientemente, seja uma reação de auto-proteção e de recusa do futuro que se anuncia. “Um jovem”, escreve Ernst Bloch, “pode imaginar-se como homem, mas dificilmente como idoso: a manhã aponta para o meio dia, não para a noite. Em si é estranho que o envelhecimento, na medida em que se refere à perda da condição anterior com ou sem razão sentida como mais bela, só comece a ser percebido por volta dos 50anos. Não haveria perda para o jovem que deixa para trás a criança? E não haveria uma perda para o homem quando deixa a florescência da juventude, quando o impulso se atrofia?”

O cinquentenário parece anunciar o movimento de descida. Agora, a vida desce ladeira abaixo. Há o risco de deprimir-se diante da certeza de que a vida esvaece-se a cada dia e a morte parece mais próxima. O otimista reage fazendo de conta que a vida não passou, iludindo-se com o apego à juventude. O dito de que permanecemos jovens em espírito é um engodo. Não há como negar que o tempo passou, as marcas na face, as doenças que irrompem, as dores no corpo, a perda da vitalidade, etc., demonstram-no. “O tempo passa com uma infinita velocidade, e só percebemos bem se olharmos para trás; o passado escapa aos que se absorvem no presente, tal o modo pelo qual essa fuga ocorre sutilmente”, afirma Sêneca.

Não é preciso enganar-se, fazer de conta de que o tempo não passou, nem cair em depressão diante das dificuldades que o avançar da idade impõe. Basta encarar com naturalidade. Começamos a morrer tão logo nascemos, é a dialética da vida. Os jovens não estão isentos do sofrimento e as dores do tempo não são exclusividade dos idosos. “Mas incomoda”, dizes, “ter a morte em vida.” Em primeiro lugar, ela está sempre presente, quer para o velho ou para o jovem – e não se trata aqui de consenso surgido de uma votação. Depois, ninguém é tão velho que não possa reivindicar para si mais um dia. Um dia é um degrau na vida”.

O mais importante na vida não é a longevidade, mas o viver bem. Chegar à velhice não significa necessariamente ter vivido mais, pois aquele que a morte abraçou em tenra idade viveu bem se intensamente. “Que importa, afinal de contas, sair antes ou mais tarde de onde se deve mesmo sair? O essencial não é viver por muito tempo, mas viver plenamente”. Pois, de que adianta ao homem, “oitenta anos passados sem ter feito nada? Ele não morreu tarde, mas ficou morrendo por longo tempo. Viveu oitenta anos, mas viveu mesmo? Importa saber a partir de quando se conta sua morte?”
 

A medida da vida está em olhar para si mesmo e contabilizar não o tempo, mas as ações e as relações humanas construídas. Se olharmos para trás e sentirmos que valeu a pena viver, então a vida foi plena. Por que, então, temer a velhice? A morte não escolhe idade, por que temê-la? “É um homem muito feliz e com plena posse de si mesmo o que espera o amanhã sem inquietude. Todo o que diz “já vivi” recebe cotidianamente mais um dia como lucro”.  O amanhã não nos pertence! Portanto, encaremos com alegria ter vivido o que nos foi permitido. Ainda que o tempo imprima marcas indeléveis no corpo e alma que chega aos 50 anos de existência, nos alegremos por cada dia acrescentado ao viver. Afinal, a velhice tem as suas vantagens!

[1] SÊNECA. Aprendendo a viver. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 35-36.
[2] BLOCH, Ernst. O Princípio da Esperança I. Rio de Janeiro: EdUERJ: Contraponto, 2005, p. 43.
[3] SÊNECA. Aprendendo a viver. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 34.
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Fonte: http://antoniozai.wordpress.com/2012/11/24/sobre-a-velhice/

" Preferível morrer que ficar preso " Frei Betto



 

Dá título a este artigo afirmação do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, proferida a 13 de novembro. O ministro sabe o que diz. O Brasil tem a quarta maior população carcerária do mundo. Perde apenas para EUA, China e Rússia.

Hoje, nossas cadeias abrigam 515 mil pessoas em 1.312 unidades prisionais com capacidade máxima para acolher 306.500 detentos. Se o sistema judiciário brasileiro fosse menos lento e mais humanitário, 36 mil detentos já deveriam ter sido soltos ou beneficiados com a progressão de penas.

A Lei de Execução Penal assegura a cada preso seis metros quadrados de espaço na cela. Hoje, a maioria se espreme entre 70 centímetros e um metro quadrado. Daí as frequentes rebeliões.

O Brasil não tem política prisional e muito menos de reintegração social dos detentos. Diante da violência urbana, muitos clamam, ingenuamente, por mais cadeias. Pressionados pelo clamor popular, governos federal e estaduais investem em prisões o que deveriam destinar a escolas.

Nossas cadeias são verdadeiros queijos suíços, com multiplicidade de buracos. De dentro das celas, bandidos usam celulares para extorquir incautos (o golpe do sequestro de parentes) e comandar o crime organizado. Drogam-se com cocaína, maconha, crack, e recebem bebida alcoólica.

Privatizar presídios é a solução? Sim, para enriquecer empresários. Esse sistema estadunidense já é adotado nos estados de Pernambuco, Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo e Santa Catarina. A empresa dona do presídio cobra do Estado o que ele gasta, em média, com cada detento: R$ 1.500. E mais R$ 1 mil por cabeça. Ao todo, R$ 2.500 por prisioneiro. Ora, quanto mais tempo o preso permanecer ali dentro, tanto mais lucro. Sem que haja preocupação de reintegração social.

Nossas unidades prisionais estão sucateadas e abandonadas. Pela LOA (Lei Orçamentária Anual), elas deveriam ter recebido do governo federal, este ano, R$ 277,5 milhões. Mereceram apenas R$ 2.579,776,61 – menos de 1% do previsto!

"A educação é a solução, fora e dentro das prisões.
Como evitar a criminalidade se 5,3 milhões de jovens brasileiros, com idade entre 18 e 25 anos, estão fora da escola e sem trabalho?"

Apenas no Piauí não há superlotação de cadeias. País afora, os presos são confinados em espaços exíguos, promíscuos, sem acesso a atividades esportivas, artísticas, escolares e profissionais.

O que fazer diante da falta de vagas em nossas unidades prisionais? Adotar a pena de morte? Multiplicar o número de penitenciárias?

Estive preso quatro anos (1969-1973). Dois, entre presos comuns de São Paulo – Penitenciária do Estado, Carandiru e Penitenciária de Segurança Máxima de Presidente Venceslau.

Nesta última, na qual fiquei mais de um ano, foi possível recuperar alguns detentos através de grupos bíblicos, teatro, desenho e pintura e, sobretudo, pela instalação de um curso supletivo de ensino médio, que interessou 80 dos 400 presos.

Nos dois anos em que trabalhei no Palácio do Planalto (2003-2004), tentei ressaltar a urgência de reforma em nosso sistema prisional. Em vão.

As delegacias e os estabelecimentos de apreensão de menores funcionam como ensino fundamental do crime. Os presídios, como ensino médio. As penitenciárias, como ensino superior.

Como é possível que o Estado não consiga algo tão simples quanto evitar a entrada de celulares na cadeia? Alguém consegue passar com celular escondido no controle dos aeroportos? Isto sim, merece ser imitado dos EUA: detentos usam orelhões para se comunicar com seus familiares e todas as ligações são grampeadas.

Nossos policiais são, em geral, despreparados, a ponto de considerarem direitos humanos como alforria de bandidos; alguns carcereiros dificilmente resistem à corrupção e tratam o preso como inimigo, e não como reeducando; o sistema prisional não é pensado tendo em vista a reinserção do preso como cidadão na sociedade.

A educação é a solução, fora e dentro das prisões. Como evitar a criminalidade se 5,3 milhões de jovens brasileiros, com idade entre 18 e 25 anos, estão fora da escola e sem trabalho?

Nossas penitenciárias poderiam funcionar como escolas profissionalizantes. Aulas de mecânica, alfaiataria, computação e culinária, associadas ao aprendizado de idiomas e à dedicação a práticas esportivas e artísticas (teatro, música, literatura), certamente esvaziariam as nossas cadeias. O progresso no curso equivaleria a retrocesso na pena.

Se o Estado e a sociedade não cuidam dos presos, eles mesmos tratam de buscar o que mais lhes convém: auto-organização em comandos; rede de informantes entre carcereiros e policiais; vínculos com os bandos que atuam em liberdade. E nós, cidadãos, pagamos duplamente: por sustentar um sistema inoperante e ser vítimas da recorrente espiral da violência.
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* Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros. http://www.freibetto.org/ – twitter: @freibetto.

" O Pensar como doença " ,de Vladimir Safatle *

 



"O estado de reflexão é contra a natureza. O homem que medita é um animal depravado."

Tais afirmações de Rousseau parecem servir de guia involuntário para setores hegemônicos da clínica do sofrimento psíquico.

Há anos, a filósofa francesa Joëlle Proust foi capaz de afirmar que o sofrimento psíquico não teria relações com a forma com que o paciente reflete sobre seus sintomas a partir de suas próprias convicções e motivações.

Com isso, ela apenas dava forma a um princípio que parece guiar dimensões maiores da psiquiatria contemporânea. Ou seja, tudo se passa como se não houvesse relações entre a maneira com que sofremos e a maneira com que pensamos e procuramos justificar nossas vidas a partir de valores e normas.

Essa é uma boa maneira de evitar o trabalho mais doloroso exigido pelo tratamento de modalidades de sofrimento psíquico, a saber, a crítica dos valores, normas e formas de pensar que constituem, tacitamente, nosso horizonte de uma vida bem-sucedida.

A fim de evitar tal trabalho crítico, que certamente é o que há de mais difícil, parece que nos tranquilizamos com ideias como as da professora Proust. Elas acabam por servir para fortalecer a crença de que só haveria cura lá onde abandonássemos o esforço de pensar sobre nós mesmos. No fundo, talvez porque ainda estejamos presos a resquícios deste antigo paralelismo que associava, por exemplo, a melancolia ao ato de "pensar demais".

Décadas atrás, François Truffaut fez um belo filme sobre uma sociedade no futuro onde a polícia queimava livros porque eles trariam infelicidade. Melhor seria garantir a felicidade social por meio de uma política de uso exaustivo de medicamentos.

Tal filme foi a metáfora perfeita para um fenômeno que o sociólogo Alain Ehrenberg chamou, décadas depois, de "uso cosmético" de antidepressivos e afins.

Por "uso cosmético" entendamos o uso de larga continuidade que acaba por visar conservar performan-ces sociais bem avaliadas, evitando ao máximo a experiência com transtornos de humor. Ele é o resultado inevitável do modelo de medicação que impera atualmente. Trata-se de uma distorção daquilo que deveria ser a regra, a saber, o uso focal ligado exclusivamente a situações e momentos de crise aguda.

Tal uso focal procura apenas garantir as condições de possibilidade para que o verdadeiro tratamento ocorra. Um tratamento que poderá mostrar como, se é a reflexão que nos adoece, é ela também que nos cura.
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* Filósofo. Prof. Universitário. Escritor. Colunista da Folha.
Fonte: Folha on line, 27/11/2012

" A Europa de Steiner

 

João Pereira Coutinho*

Não, aquilo que une os europeus não é a União Europeia, o euro e outras construções burocráticas

Estou sentado num café no centro de Lisboa. Sobre a mesa, os jornais do dia. Então um cavalheiro aproxima-se da minha mesa, olha para os jornais e pergunta: "São da casa?".

Eu sorrio, digo que não, que são meus, mas disponibilizo a prosa na mesma. O homem agradece, escolhe um deles, afasta-se e começa a leitura matinal. Então eu penso: isto é a Europa.

Penso eu e pensa George Steiner, em pequeno ensaio que recomendo. Intitula-se "A Ideia de Europa", foi uma conferência célebre proferida por Steiner no Instituto Nexus, da Holanda, e a ambição do autor era a de encontrar o patrimônio cultural que une os europeus.

Steiner é magistral, na forma e no conteúdo: não, aquilo que une os europeus não é a União Europeia, o euro e outras construções burocráticas presentemente em crise.

A ligação fundamental encontra-se, antes, na cultura, no pensamento e, enfim, numa certa forma de estar e de viver que, embora possa ser exportada para outras latitudes, tem um berço reconhecível.

Os cafés são um bom exemplo. As ilhas britânicas podem ter os seus pubs. As cidades americanas podem ter um bar em cada esquina. Mas os pubs e os bares não são os cafés de Lisboa, frequentados por Fernando Pessoa. Nem os cafés de Odessa, povoados pelos gângsteres de Isaac Babel.

Para Steiner, os cafés da Europa são lugares de encontro, ociosidade, debate e até produção intelectual. Como escreve o autor, podemos imaginar tudo num pub ou num bar. Não imaginamos a produção de uma obra filosófica; um debate político intenso; o nascimento de um novo movimento artístico; ou até, como agora, a simples partilha anônima dos jornais do dia para acompanhar o café da manhã.

"...o continente europeu foi aquele onde
era possível escutar Schubert ao jantar e,
na manhã seguinte, gasear judeus
de consciência limpa."

A Europa são os seus cafés. E seria possível escrever uma história cultural do continente atribuindo a Karl Kraus, a Carnap ou a Musil o seu café particular, escreve Steiner.

Mas a ideia de Europa não se limita aos cafés. Nessa ideia, está também a dimensão humana e histórica dos lugares. A Europa não é percorrida por uma selva amazônica ou por um deserto do Saara. As suas distâncias não são geológicas ou continentais.

A Europa, desde sempre, foi um território pedestre, no sentido literal do termo: algo para ser descoberto a pé. As distâncias são humanamente modestas. E, em cada rua ou praça, não temos a classificação impessoal e numérica das grandes cidades americanas: Quinta Avenida, Sexta, Sétima, e por aí afora.

Temos marcas literárias, políticas, artísticas, de um continente saturado de passado. Steiner cita exemplos: rue Lafontaine, place Victor Hugo, Pont Henri IV. Os europeus convivem diariamente -melhor: caminham diariamente- pela evidência material e imaterial do que ficou para trás.

Por fim, não interessa se você nasceu em Lisboa, Paris ou Berlim. O europeu é sobretudo herdeiro de Atenas e Jerusalém: da cidade terrestre e da cidade celeste; da tensão permanente entre a razão e a fé; entre o espírito científico e as "intimações" da transcendência.

Foi desse diálogo, e até desse confronto, que nasceu o melhor das artes e das letras. Um patrimônio que sobrevive até hoje.

Claro que Steiner, o último grande humanista do nosso tempo, também sabe que a ideia de Europa não se limita a páginas nobres: a Europa foi igualmente o espaço de ódios viscerais e barbaridades sem perdão.

Como Steiner repetidamente escreve em várias das suas obras, o continente europeu foi aquele onde era possível escutar Schubert ao jantar e, na manhã seguinte, gasear judeus de consciência limpa.

Mas mesmo essa experiência negra conferiu aos europeus um "sentido de finitude" apurado. É essa consciência assombrada que distingue o homem europeu do otimismo fundacional que impera no Novo Mundo.

Moral da história?

Todos os dias, o leitor é confrontado com notícias apocalípticas sobre o futuro da União Europeia. E é possível que, lendo essas notícias, o leitor cometa o erro mais comum sobre a matéria: confundir a União Europeia com a Europa e os burocratas de Bruxelas com os europeus.

Nada mais falso. Ler George Steiner é reaprender que a ideia de Europa é anterior à União Europeia. E que, aconteça o que acontecer, essa ideia irá sobreviver a ela.
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* Jornalista, cientista político, escritor.
jpcoutinho@folha.com.br
Fonte: Folha on line, 27/11/2012

" Eu me acuso " de Marcelo Zorzanelli

 


O que um texto clássico que pouco ou nada tem a ver com
relacionamentos amorosos pode nos ensinar?
É sobre isso o texto de hoje do redator
Marcelo Zorzanelli, na seção
Homens de Segunda.

Tem uma frase que me motiva muito, talvez até a viver mais tempo. Parece que está em “As Neves do Kilimanjaro”, de Ernest Hemingway, mas eu não me lembro bem. Vai mais ou menos assim: “Quero viver o bastante para aprender a contar as coisas que vivi”. Permanecer vivo, lutando, para escrever as canções sobre as batalhas. A história é contada pelos vencedores.

Não sei por que estava pensando nisso. Ah, claro. Tive uma espécie de febre literária ontem à noite, no aeroporto. Deparei com o J’Accuse, num livrinho de bolso da LP&M, e comprei. É a coletânea dos artigos do caso Dreyfus editada pelo próprio Émile Zola, um ano antes de morrer. Para quem não sabe, capitão Alfred Dreyfus, de origem judaica, foi condenado por alta traição pela corte francesa, acusações estas baseadas em documentos falsos. Há, na bela introdução, feita por um estudioso francês de quem não me lembro o nome — embora o livro esteja bem aqui ao lado, e bastasse abri-lo na página 2 para saber — bom, como ia dizendo, há ali uma narrativa que contém todos os elementos da melhor literatura, a paixão, o ódio, a intriga e o ritmo da melhor literatura, e tudo era verdade e era lido nos jornais, dia após dia, no ritmo fulminante das grandes comoções públicas. Foi quase tudo escrito de chofre, às vezes na oficina do jornal. (Quer se surpreender? Veja a tiragem do jornal que publicava os textos de Zola: 300 mil cópias diárias; e não era o Figaro, que, imagino, embatumava ainda mais leitores). Tudo publicado ali por volta de 1888, 89.

O capitão de origem judaica Alfred Dreyfus era acusado do crime de lesa-pátria mais aviltante para um francês, a entrega de segredos de guerra, de um dossiê que ficou conhecido como “o borderô” aos alemães, vizinhos e inimigos naturais. Forjou-se até um documento para que Dreyfus fosse logo culpado e se calasse a grita nos jornais. Assim permaneceu a situação — o inocente preso e humilhado — até que uma prova identificasse o verdadeiro culpado; uma prova que ricocheteou em meia dúzia de oficiais do exército sem sair de dentro da caserna. O caminho que levou essa prova até Zola é interessantíssimo, uma verdadeira esteira de heróis em marcha. O nome do livro, aliás, é “A Verdade em Marcha”. Mas ficou mesmo conhecido pelo petulante título “J’Accuse!”, “Eu Acuso”, um título que Zola não escreveu, e sim o editor do jornal que primeiro publicou a carta. O texto chegou à redação com o título “Carta ao Sr. Félix Faure, Presidente da República”, e convenhamos, o editor tinha razão em colocar lá em cima o “Eu Acuso”.

(Embora eu passe longe do sentimento que certos intelectuais brasileiros nutrem pela prosa francesa, e apesar desse ser um texto recheado de parágrafos imaginados em francês — e portanto maneirosos ao extremo — de fato é uma das leituras mais empolgantes que faço em bastante tempo).

Antes de assumir a defesa pública de Dreyfus, Zola já se sentia um membro da Academia, sagração máxima de um homem de letras na terra de Victor Hugo. Embora jornalista, Zola cavou no paço literário uma trincheira de onde lançava romances, polêmicos e de muito sucesso.

Mas Zola tinha outros defeitos, além do de ser jornalista. O parecer de um médico vazou ao público, e o fato de que Zola era “excessivamente emotivo” tornou-se motivo de troça.
E é aqui que interrompo o caminhão desenfreado desta minha apreciação para uma pequena, mas vital, constatação. Zola, o intelectual a quem foi negado quase tudo em vida, atirou-se na mais perigosa das campanhas ao descobrir que sua amada pátria havia cometido o crime do antissemitismo e aprisionado um homem justo.

Quantos de nós serão capazes de fazer o mesmo em nome da verdade?
O que os nervos de Zola dizem sobre suas atitudes?

Há no meio do texto uma descrição terrificante dos cacoetes de Zola enquanto ouvia sua sentença. (Como para isso preciso ter o livro em mãos, aproveito para passar o nome do autor da introdução: Henri Guillemin).

“Ele morde o bastão da sua bengala, passa a mão no pescoço, afasta ou sacode os dedos à maneira dos pianistas que temem cãibras, enxuga o monóculo, agita a perna esquerda, ajusta o colarinho, olha no ar, alisa o bigode, bate os joelhos, sacode a cabeça, crispa as narinas, vira-se para a direita e a esquerda”.

Zola foi condenado a um ano de prisão e três mil francos de multa. Além da liberdade, perdia também (para sempre) a chance de ser um membro da Academia. Mais tarde escreveria que Dreyfus era “um judeu crucificado”, em alusão ao Cristo, e que um cristão não poderia abandoná-lo.

No fim, a persistência de Zola fez com que Dreyfus fosse libertado.

Ele entrou para a história.

Não preciso dizer que certos casais mantém, um do outro, terríveis segredos, sob a justificativa de preservar algo maior. Não existe algo maior que a verdade.

A alguém, a verdade sempre interessa. Por isso ela precisa ser dita. Sejamos nossos próprios Zolas. Manter segredos, cultivá-los como orquídeas no escuro úmido de um canto da memória, fingir ser o que não se é, em última análise, manter as aparências — isso é um crime grave.

Sejamos os acusadores de nós próprios. Que nossos ataques emotivos nos levem até a verdade, seja ela qual for.

" Um pensamento para o dia " ...

 



Fé voltada para a vida.
«Hoje sentimos a necessidade de uma fé voltada para a vida.
De uma fé que constitua uma arte de viver,
e não apenas um conjunto de práticas ou credos que vamos mantendo vivos ao longo da História. Precisamos de mais. Em nós próprios observamos muitas vezes
um analfabetismo perante os atos fundamentais da vida.
Há momentos que nos deixam sem palavras,
sem apoio: uma doença, um incidente, uma crise, uma alegria,
um grande encontro, que frequentemente parecem um caminho paralelo,
para o qual a fé não tem capacidade de acolhimento.»

(Da conferência "A importância do agora: os desafios de um cristianismo sapiencial",
proferida pelo padre José Tolentino Mendonça, diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura,
no âmbito do ciclo "Viver a Fé aqui e agora", organizado pelas
Monjas Dominicanas do Lumiar (Lisboa). )

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

" Estado Laico não é Estado Ateu "

 



Ives Gandra da Silva Martins*

A esmagadora maioria do país crê em Deus. Se manifestações contrárias ao ateísmo forem vetadas,
como querem alguns, será uma ditadura da minoria

No "Consultor Jurídico", leio artigo de Lenio Streck, eminente constitucionalista gaúcho. Ele, até com certa ironia e um misto de humor britânico e local, destrói todos os argumentos da pretensão de membro do Ministério Público que impôs ao Banco Central 20 dias para retirar das cédulas do real a expressão "Deus seja louvado".

Concordo com todos seus argumentos. Lembro que o referido procurador deveria também sugerir aos constituintes derivados, que são todos os parlamentares brasileiros (513 deputados e 81 senadores), que retirassem do preâmbulo da Constituição a expressão "nós, os representantes do povo brasileiro, sob a proteção de Deus, promulgamos esta Constituição".

Creio, todavia, que por ser preâmbulo da lei suprema, é imodificável. Terá o probo representante do parquet de suportar a referência ao Senhor.

Aliás, é bom lembrar que, sob a proteção de Deus, a Constituição promulgada permitiu que, pelos artigos 127 a 132, tivesse o Ministério Público as relevantes funções que recebeu e que ensejaram ao digno procurador ingressar com a ação anticlerical.
Tem-se confundido Estado laico com Estado ateu. Estado laico é aquele em que as instituições religiosas e políticas estão separadas, mas não é um Estado em que só quem não tem religião tem o direito de se manifestar. Não é um Estado em que qualquer manifestação religiosa deva ser combatida, para não ferir suscetibilidades de quem não acredita em Deus.

Há algum tempo, a Folha publicou pesquisa mostrando que a esmagadora maioria da população brasileira, mesmo daquela que não tem religião, diz acreditar em Deus, sendo muito pequeno o número dos que negam sua existência.

Na concepção dos que entendem que num Estado laico, sinônimo para eles de Estado ateu, só os que não acreditam no criador é que podem definir as regras de convivência, proibindo qualquer manifestação contrária ao seu ateísmo ou agnosticismo. Isso seria uma autêntica ditadura da minoria contra a vontade da esmagadora maioria da população.

Deveria, inclusive, por coerência, o procurador mencionado pedir a supressão de todos os feriados religiosos, a partir do maior deles, o Natal. Deveria pedir a mudança de todos os nomes de cidades que têm santos como patronos e destruir todos os símbolos que lembrassem qualquer invocação religiosa, como uma das sete maravilhas do mundo moderno, o Cristo Redentor, para não criar constrangimentos à minoria que não acredita em Deus.

O que me preocupa nesta onda do "politicamente correto" é a revisão que se pretende fazer de todo o passado de nossa civilização, desde livros de Monteiro Lobato às epístolas de São Paulo -não ficando imunes filósofos como Aristóteles, Platão ou Sócrates, que elogiavam uma democracia elitista servida por escravos.

Talvez o presidente Sarney tenha resumido com propriedade a ação do eminente membro do parquet ao dizer que, com tantos problemas que deve a instituição enfrentar, deveria ter mais o que fazer.

A moeda padrão do mundo, que é o dólar, tem como inscrição "In God We Trust". A diferença é que os americanos confiam em Deus e na sua moeda -nós "louvamos a Deus" na esperança de que também possamos confiar na nossa.
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*IVES GANDRA DA SILVA MARTINS, 77, advogado, é professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra

" Analisando as principais críticas à proposta "

 



Carlos Orsi*

TENDÊNCIAS/DEBATES
O ASSUNTO DE HOJE: DEUS NO DINHEIRO
Estado ateu seria escrever 'Deus não existe' na moeda. Usá-la para mandar pessoas louvarem a Deus é um caso bem claro de subvenção do Estado à religião

Entre várias que circularam nos últimos dias, a crítica mais comum ao pedido do Ministério Público Federal para que o real deixe de trazer a frase "Deus seja louvado" é a de que essa solicitação seria "falta do que fazer".

Uma objeção curiosa porque, primeiro, suscita a pergunta: e quando a frase foi incluída no dinheiro, será que ninguém tinha nada mais importante a fazer? (O lema entrou na moeda com o Plano Cruzado, que acabou levando o país à falência, em 1987.)

Em segundo lugar, a alegação de "falta do que fazer", ao esquivar-se do mérito da questão, embute um reconhecimento tácito de derrota.

É como se o crítico dissesse que sim, a frase não deveria estar lá, mas será que não temos erros maiores a corrigir antes?

Só que a presença do lema no real é um erro grave -viola o princípio geral do Estado laico e a letra da Constituição- e relativamente fácil de corrigir. Então, por que não resolvê-lo, logo de uma vez?

Confrontadas com essa sugestão, muitas das pessoas que vinham argumentando que o problema era irrelevante e, portanto, não precisava ser solucionado, repentinamente convertem-se em defensoras ferrenhas da frase. O que indica que a alegação de irrelevância não passava de mera afetação.

Um pouco sobre o laicismo: ele deriva diretamente do princípio da liberdade religiosa: se todo brasileiro é livre para ter a religião que quiser (ou não ter religião nenhuma), então é errado que o governo, que representa e é sustentado pela totalidade dos cidadãos, eleja favoritos.

O artigo 19 da Constituição proíbe o Estado de "subvencionar" cultos religiosos. E usar dinheiro para mandar as pessoas louvarem a Deus me parece um caso claro de subvenção.
Da mesma forma que seria errado, porque discriminatório, o governo pôr "Vai Corinthians" ou "Sempre Flamengo" na moeda, mesmo sendo estas as nossas torcidas majoritárias, é errado fazer isso com "Deus seja louvado", "Deus não seja louvado" ou "Satanás é o senhor". Todas são frases que uma vez sancionadas pelo Estado, alienam e discriminam cidadãos brasileiros.

Há ainda quem tema que, à remoção da frase, sigam-se extinção de feriados e a mudança dos nomes de cidades, como São Paulo.

O temor ignora, porém, que os nomes de cidades seculares têm peso cultural e histórico muito maior que "Deus seja louvado" (lema adotado nos anos 1980). Sobre os feriados, quantos mantêm caráter, de fato, religioso? O coelhinho da Páscoa e Papai Noel, por exemplo, não têm culto, exceto nas lojas de chocolate ou de brinquedos.

Há ainda a objeção de que "o Estado é laico, mas não ateu". Sim, o Estado não é ateu! Só que ninguém exige que o real passe a dizer "Deus não existe", mas apenas que o dinheiro pare de falar de Deus e ponto. Confunde-se neutralidade com oposição, o que é tolice ou má-fé.

O medo de que a frase desapareça do real reflete, no fim, uma ótica de disputa de prestígio: nesse enfoque, se "Deus seja louvado" sair do dinheiro, isso significará que "os ateus estão mais fortes", ou que o sentimento religioso perdeu relevância na sociedade, o que algumas pessoas consideram intolerável.

É uma interpretação míope. Há muitos religiosos que consideram a frase inadequada, seja por respeito ao caráter laico do Estado, seja por acreditar que o vil metal, causa de tantos crimes e pecados, é indigno do nome do ser supremo.

Se realmente há algum "prestígio" em jogo, certamente não é o do suposto criador, mas apenas o que alimenta a vaidade de alguns de seus autoproclamados representantes aqui na Terra.
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* CARLOS ORSI, 41, é jornalista e escritor, autor do livro de ensaios "O Livro dos Milagres" (Vieira & Lent) e do romance "Guerra Justa" (Draco)
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/26/11/2012

" Farewell hope " de Luiz Felipe Pondé *

 



 
O materialismo como visão de mundo é vivido
por muitos como uma negação da esperança
"So farewell hope and with hope, farewell fear. And farewell remorse! All good to me is lost; Evil, be though my good." John Milton, "Paradise Lost". (Então, adeus esperança e com a esperança, adeus medo. E adeus remorso! Todo o bem para mim está perdido; Mal, seja então meu bem).

Sim, enquanto existir esperança, não há paz. Segundo o poeta inglês John Milton (século 17), que narra nesse poema a agonia de Adão e Eva afundando na cegueira de quem não mais verá Deus, só perdendo a esperança perde-se o medo. Seria um preço muito alto a pagar? Junto com a perda do medo, a perda do remorso e do bem. Niilismo?

A esperança é tema nobre na teologia. Para os católicos, a esperança é uma virtude teologal, isto é, só se deve depositar a esperança em Deus e, por consequência, só Deus nos dá esperança como um dom. Não há esperança no mundo, na Criação. Entregue a si mesma, ela vaga no vazio do desespero, carregando em si a raça dos abandonados, como dizia Horkheimer.

Felizes os que nasceram com o dom da esperança. Existe uma beleza no mundo que só os olhos daqueles que têm esperança veem.
Eu, como nasci com uma alma cega, mui raramente a pressinto (como diria Santo Agostinho, séculos 4 e 5, o peso do pecado logo me traz de volta ao desespero), mas só a pressinto com a ajuda de alguém; por mim mesmo, me afogo no desespero. Só não me desespero mais porque sou uma alma concreta, salva pelas obrigações do cotidiano.

Que os inteligentinhos não me cansem com a "crítica do pecado". Hoje em dia, uma das faces da banalidade é falar mal de religião: mal informados de todas as idades acham que pecado é uma invenção para "oprimir o homem", sim, assim como o espelho...

É conhecida a passagem na qual Kafka, ao ser indagado sobre crer ou não que existiria alguma esperança, teria respondido: "Esperanças há muitas, mas não para nós".

A interpretação mais comum é a de que ele estaria condenando a modernidade e sua desumanização (a barata Gregor Samsa, em "Metamorfose") como negação histórica da esperança, mas que nem por isso Kafka negaria toda e qualquer esperança. A conclusão dessa interpretação é que o pessimismo do autor seria "histórico", mas não ontológico ou cosmológico (isto é, "passando" a modernidade, as coisas melhorariam...).

Mas a teologia de Kafka, presente em seus "aforismas teológicos", parece ser um pouco pior do que isso. Mesmo em sua ficção, Deus parece ser uma espécie de "senhor de uma colônia penal" (faço referência aqui à máquina de tortura e morte descrita no seu conto "Na Colônia Penal"), colônia penal esta que é nossa casa, poço de desencontros, nossa vida, poço de frustrações, nosso corpo, poço de patologias, enfim, um beco sem saída.

O próprio materialismo como visão de mundo (modelo hegemônico na ciência e no ateísmo moderno, segundo o qual tudo é átomo e a vida é finita) é vivido por muitos como uma negação da esperança. Como ter esperança na solidão das pedras?

Um dos trechos mais sublimes na literatura, no qual o materialismo se revela em seu terror e seu mistério, é a passagem no romance "Patrimônio", de Philip Roth (a história real do adoecimento e morte de seu pai), na qual ele vê as imagens do tumor no cérebro de seu pai, tumor que o mataria.

Não por acaso nessa cena, Roth busca refúgio na famosa passagem na qual Hamlet segura nas mãos o crânio de Yorick, o bobo da corte, que o tinha carregado no colo tantas vezes, e se pergunta se é aquilo que somos, um crânio em meio a terra úmida.

Roth olha para aquele cérebro e pensa como "aquilo" poderia ser a causa eficiente de tudo que seu pai fizera, pensara e sentira. Fonte de cada palavra e cuidado que tivera com sua família.

Lembro-me bem de quando eu trabalhava no necrotério fazendo necropsias e colocava cérebros na mesa metálica. Milton, Shakespeare, Kafka, Roth e eu juntos, num plantão de sexta-feira à noite, a noite mais violenta, e por isso mesmo a melhor, se você quiser cadáveres "frescos" para aprender anatomia. Farewell hope.
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* Filósofo. Prof. Universitário. Escritor.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/26/11/2012

" Palavras são como caramelos ", diz escritoria Lya Luft

 



Lya Luft  - Divulgação
Divulgação
Lya Luft

De volta ao romance, autora constrói trama delicada em linguagem simples


Lya Luft não escrevia um romance desde O Ponto Cego, lançado em 1999. Ao longo desses 13 anos, ela lançou um livro de contos (O Silêncio dos Amantes, de 2008) e se consolidou como uma autora de imensa notoriedade, especialmente por criar pequenos ensaios que, graças à sua forma predileta de se dirigir ao leitor (direta e coloquial), não apenas revelam suas perplexidades, como também focam o drama existencial humano - o fruto mais célebre é Perdas e Ganhos, de 2003, que encabeçou a lista dos mais vendidos durante 113 semanas.

Agora, Lya retoma a escrita de fôlego com O Tigre na Sombra (Record), delicado romance sobre Dolores, conhecida como Dôda, que, ao nascer com uma perna mais curta, luta para vencer as barreiras sentimentais e pessoais impostas por essa deficiência. Ao seu redor, circulam a irmã Dália, bela mas com um destino desastroso; a mãe, que vive a exaltar os defeitos de Dôda; o pai, carinhoso com ela mas um homem atormentado, que dorme com um revólver debaixo do travesseiro; e a avó, Vovinha, que oferece tranquilidade nos momentos mais atribulados.

Tímida, Dôda projeta na imagem que vê no espelho a mulher perfeita que gostaria de ser. Acredita também na presença de um misterioso tigre de olhos azuis. Sobre o livro, Lya respondeu, por e-mail, às seguintes questões.

Como nasceu seu romance?

Lya Luft - Todos os meus livros de ficção gestam por longo e confuso tempo. Aparecem e somem dessas turvas águas do meu inconsciente várias vezes, misturados, a maioria morre na praia, um e outro se firma, e me chama e me seduz, e construo uma história de enigmas que nem eu entendo bem e, por isso, é tão lúdico e desafiador escrever. Porém, depois que se afirma, leva uns 6 meses para ser escrito. O Silêncio dos Amantes começou como romance, mas acabou em contos. Não sei explicar, nem precisa. Importa o leitor.

É interessante a relação de Dôda com a Dolores que vê no espelho - você se lembrou de Borges quando criava essa relação que retrata um estilo de consciência?

Lya Luft - Nunca me lembro de coisas que li ou vi quando escrevo, mas devem estar naquelas águas turvas onde fica tudo. Como contos de fadas, por exemplo, coisas tão remotas da infância, os medos, as invenções. Muito depois de pronto meu Tigre, alguém falou e lembrei que Borges tratava de tigres. No começo, o meu animal era um polvo que de noite, no fundo mais escuro do mar, abria um enorme olho azul e fitava a menina, depois a mulher, as pessoas. Mas um dia achei o polvo meio repulsivo quando saía da água e sacolejava na areia. Matei o polvo. Tempos depois apareceu um tigrezinho no quintal e adorei. E, depois, ainda pensei, que seria muito legal se ele tivesse olhos azuis.

O livro revela seu cuidado com a escrita. Como foi o processo?

Lya Luft - Raramente escrevo em ordem cronológica, mas em espirais ou fragmentos que componho depois. Reescrevo interminavelmente porque busco a linguagem simples e sofisticada, clara mas não banal, essa fala íntima com meu amigo imaginário, o leitor, e comigo mesma. Gosto de palavras, frases: são como caramelos, flores, borboletas para mim. Escrever é um estado de felicidade, harmonia, alegria. Meus personagens sofrem: eu não, ao contrário, preparo armadilhas, até para mim mesma, rondo o mistério, o Tigre é o enigma enfim: morte? No fundo, importa saborear frases, palavras, história, vida e morte e conflito e ternura e claridade e noite.
Importa talvez só a última frase do livro:
"Nenhum tigre tem olhos azuis".
 
Reportagem por UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo

domingo, 25 de novembro de 2012

" Música de antigamente... de Rubem Alves

 

Rubem Alves
O Cecílio, amigo querido, veio me visitar. Conversa vai, conversa vem, ele me contou sobre a sua empregada — governanta de sua casa — mulher madura, de poucas palavras, sempre séria e compenetrada. Pois um dia, precisando sair, o carro pifou justo na hora em que o marido dela tinha vindo buscá-la, ao final do dia de trabalho. Ele lhe ofereceu uma carona no seu carro que não era dos mais novos, oferecimento que o Cecílio alegremente aceitou. Antes da partida, o marido tirou um CD de dentro de uma caixa e o colocou no toca-CDs. O Cecílio se preparou para ouvir uma dupla sertaneja, música que não se afina bem com o seu gosto. Mas logo veio a surpresa e o seu rosto se encheu de espanto. O marido, percebendo o espanto, explicou: “Pois é, a minha mulher acabou gostando daquelas músicas que o senhor escuta o dia inteiro. Curiosa, ela foi ver o nome: Vivaldi... Agora, a gente anda de carro ouvindo Vivaldi... Como é bonito”. O Cecílio, sem querer e sem saber, educou. Na verdade, ele não educou. Foi a governanta que se educou. Estava aberta. Acolheu o novo. E ficou transfigurada, mais bonita, mais rica. E acabou por educar o marido, que também começou a brincar com a música de Vivaldi. Agora, dentre as alegrias que eles tinham, eles tinham uma outra, que nunca haviam experimentado e nem aprendido nas escolas. É, nas escolas não se ensina a gostar de Vivaldi...

NO SEMÁFORO, a mocinha aproximou-se com um folheto imobiliário na mão. Desci o vidro para receber. Aí ela ficou estática — cara de quem tinha visto alma do outro mundo! — e se aproximou um pouco mais da janela aberta. A música que estava tocando lhe dera um susto. Era o concerto de Mendelson para violino e orquestra. Ela nunca ouvira nada parecido. “Eu nunca ouvi música assim. É música muito de antigamente?” As únicas músicas que ela conhecia eram as sertanejas e as bate-estacas... Onde andará ela, a mocinha que, se tivesse tempo, acabaria por gostar de música clássica...


SOFRIMENTO E BELEZA: Nietzsche passou por uma longa experiência de doença nos olhos... Pensou mesmo que iria ficar cego. Esse período de doença o fez pensar pensamentos não programados. Eis o que ele escreveu: “É assim que aquele longo período de doença aparece a mim, agora: como se fosse, eu descobri a vida de novo, incluindo eu mesmo; eu provei todas as coisas boas, mesmos as pequenas, de uma forma como os outros não as provam com facilidade — eu transformei a minha vontade de saúde, de viver, numa filosofia”. “ A minha doença me deu o direito de mudar todos os meus hábitos completamente; ela permitiu, ordenou que eu esquecesse; ela me concedeu a necessidade de ficar quieto, do laser, de esperar e ser paciente. A doença dos meus olhos colocou um fim na obsessão pelos livros... Fui libertado dos livros. Por anos eu não li coisa alguma — o maior benefício que eu jamais conferi a mim mesmo. Somente a minha doença me levou à razão.”

Pode ser que você ainda não tenha se dado conta disto, mas o fato é que todas as coisas belas do mundo são filhas da doença. O homem cria a beleza como bálsamo para o seu medo de morrer. Pessoas que gozam saúde perfeita não criam nada. Se dependesse delas o mundo seria uma mesmice chata. Por que haveriam de criar? A criação é fruto do sofrimento. A se acreditar no poeta Heine, foi para se curar da sua enfermidade que Deus criou o mundo. Deus criou o mundo porque estava doente de amor... Eis o que Deus falou, segundo o poeta: “A doença foi a fonte do meu impulso e do meu esforço criativo; criando, convalesci; criando, fiquei de novo sadio.”
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* Teólogo. Educador. Escritor.